VOTOS DE PÁSCOA FELIZ DO PROFETA ELIAS

Abril 4, 2009

1. Lê-se num antigo conto judaico que vivia numa aldeia uma família pobre: pai, mãe e uma filha pequena. O dinheiro não abundava, mas nunca ninguém os ouviu lamentar-se.

 

2. Aproximava-se entretanto a Páscoa, e a família não tinha meios para comprar as roupas novas requeridas para a festa. Na véspera da festa, a filha disse para o pai: «A Páscoa está a chegar; por que é que ainda não comprámos as roupas novas?» Retendo as lágrimas, o pai respondeu: «Não te preocupes, minha filha; o profeta Elias enviar-nos-á as roupas novas; não precisamos de as comprar». Mas a pequena, não totalmente satisfeita com a candura da promessa, adiantou: «Papá, e se eu escrevesse ao profeta Elias para lhe dizer aquilo de que precisamos?» O pai sorriu e disse: «Escreve, filha».

 

3. A menina pegou num lápis e numa folha de papel e escreveu: «Elias, para a Páscoa, manda-nos, por favor, um casaco para o papá, uma saia para a mamã, e uns sapatos brancos para mim». Estava para ir meter a carta no correio, quando parou e perguntou: «Papá, de que me vale pôr a carta no correio, se não sei o endereço do profeta Elias?» Respondeu o pai: «Atira-a pela janela, porque o profeta Elias irá recolhê-la onde ela cair».

 

4. A menina fez como o pai lhe tinha dito. E cheia de uma fé simples e ingénua, ficou à espera de ver realizado o seu pedido.

 

5. Passava naquela altura debaixo da janela um homem rico que, ao ver cair ao chão aquela folha de papel, a apanhou e viu o que nela estava escrito. E disse de si para consigo: «Esta noite é festa e não posso desiludir esta pobre família e, sobretudo, a fé da menina». Pôs então numa linda caixa as roupas pedidas na carta, e deixou a caixa junto da porta daquela casa, com um cartão que dizia: «Votos de Páscoa Feliz do profeta Elias».

 

6. É desarmante a inocência da menina desta história! No meio da pobreza e das lágrimas a custo retidas dos seus pais, ela acredita na alegria, e acaba por conseguir vestir de festa aquela casa. Na tradição bíblica e judaica, Elias é o precursor do Messias. Por isso, em cada festa da Páscoa, que os judeus celebram em família pela noite dentro, a porta da casa fica aberta para que Elias possa entrar; na mesa da Ceia há sempre um lugar a mais, destinado a Elias; nesse lugar, é colocado o respectivo talher e uma taça já cheia de vinho, à espera de Elias.

 

7. O Livro do Apocalipse (21,4), no seguimento de Isaías 25,8, põe Deus a «enxugar cada lágrima dos nossos olhos». A expressão é ousada, pois não fala de olhos sem lágrimas, mas de olhos cujas lágrimas são enxugadas. Atente-se na diferença: os nossos olhos podem manter-se enxutos por cínica indiferença perante o sofrimento dos outros, ou por um esforço estóico para suportar o nosso próprio sofrimento, ou porque já não há mais lágrimas para chorar. Mas uma lágrima enxugada é diferente de olhos enxutos. As lágrimas representam a nossa história de sofrimento. Dizer que as lágrimas são enxugadas significa dizer que no nosso tempo entra um tempo novo, o futuro-presente de Deus, onde o sofrimento será apagado pelas mãos carinhosas de Deus.

 

8. Viver a Páscoa, que é o tempo em que vamos, não significa indiferença ou estoicismo, mas, antes, enxugar carinhosamente as lágrimas que correm pelo rosto dos nossos irmãos. O tempo em que vamos é (pode ser) uma viagem para a alegria. E cada um de nós pode ser o precursor desse tempo novo. «Votos de Páscoa Feliz do profeta Elias».

 

António Couto

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AS «PASSAGENS» DA PÁSCOA

Abril 1, 2009

 

1. As mais antigas raízes da festa da Páscoa [= «passagem»] remontam certamente aos antigos pastores semi-nómadas do Próximo Oriente Antigo, que se deslocavam, com os seus rebanhos, ao longo de uma estreita faixa de terra, situada entre as terras cultivadas e o deserto. Não entravam nas terras cultivadas: se o fizessem iriam arranjar problemas com as populações sedentárias; não entravam no deserto: se o fizessem, o gado miúdo sucumbiria rapidamente.

 

2. A festa da Páscoa teria a ver inicialmente com os ritos apotropaicos [de apo-trépô = afastar de, conjurar] levados a cabo por estes pastores semi-nómadas, ritos que seriam em tudo análogos aos sacrifícios realizados entre os beduínos árabes pré-islâmicos, no decurso da primeira noite de lua-cheia (antigo shabbat ou sábado) da Primavera [= primeiro Verão], mês de Radjab ou de Abib ou de Nisân, antes da transumância estival, e que se destinavam a afastar as doenças dos rebanhos, sobretudo as que podiam afectar as crias jovens, particularmente nesta época de transumância, e, portanto, de «passagem».

 

3. Tratava-se de uma festa nocturna, realizada à luz da lua. É a lua, de resto, que comanda o suceder dos dias no Próximo Oriente, onde o dia começa, não com o nascer do sol, mas com o nascer da lua. A escolha para uma noite de festa recai, portanto, naturalmente na noite de lua-cheia, por causa do luar. De resto, o intenso calor no limiar do deserto não permitia que tais ritos festivos se realizassem durante o dia. Nessa época de «passagem» para a Primavera e para novas pastagens, era costume imolar um animal do rebanho, provavelmente um cabrito desleitado, de um ano de idade, «filho de um ano». Só mais tarde se fala em imolar um cordeiro. Nos sacrifícios da Primavera dos árabes antigos, o cabrito é referido mais vezes do que o cordeiro. É também o cabrito desleitado, «filho de um ano», que é mencionado no texto ritual antigo do Livro do Êxodo 34,26. A carne do animal imolado era comida juntamente om o bolo folhado de pão não-levedado, próprio dos pastores semi-nómadas, que o assavam sobre as pedras escaldadas pelo sol, condimentando-o com ervas do deserto. O pão ázimo cozido no forno e comido com ervas amargas tiradas da horta representa a fase sedentária, e, portanto, posterior, dos ázimos.

 

4. A antiga descrição da Páscoa no Egipto, referida em Êxodo 12,21-23, recolhe as antigas tradições atrás referidas acerca dos sacrifícios apotropaicos dos pastores semi-nómadas efectuados na primeira noite de lua-cheia da Primavera para afastar os golpes do «exterminador» (Êxodo 12,23), e sedentariza-as. Fala-se, portanto, de casas (Êxodo 12,22.23), e não de tendas. E localiza-as no Egipto. Continua a privilegiar a noite e a lua-cheia, como vinha da antiga tradição semi-nómada. Situa, por isso, a festa da Páscoa na noite do décimo quinto dia (Êxodo 12,6-8) do mês de Abib ou de Nisân, primeiro mês do ano (Êxodo 12,2), que começava com a Primavera. Mas aqui já não se trata de transumância com a «passagem» do gado para novas pastagens, nem tão-pouco da «passagem» para o tempo primaveril, mas da «passagem» do povo de Israel da escravidão para a liberdade.

 

5. A Páscoa de Cristo retoma tudo o que vem de trás: o cordeiro, o pão ázimo, as ervas amargas, o carácter nocturno (patente ainda hoje na Ceia Pascal hebraica e na Vigília Pascal cristã), a lua-cheia (a Páscoa é uma festa móvel, porque acompanha, ano após ano, a primeira lua-cheia da Primavera). Mantém-se também o sentido de «passagem», ainda que cada vez mais alargado e aprofundado: passagem tranquila para novas pastagens, passagem para um tempo novo, passagem da escravidão para a liberdade, passagem da morte para a vida verdadeira, que é o verdadeiro sentido da Páscoa de Cristo, que se apresenta a si mesmo como o passageiro deste mundo para o Pai (João 13,1). «Passa bem», meu irmão da Páscoa.

 

António Couto