O MODO NOVO DO ESPÍRITO


A expressão «O Espírito Santo, protagonista da evangelização» encontra-se na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975[1], e é depois retomada na Carta Apostólica Redemptoris Missio, de 7 de Dezembro de 1990, com uma ligeira alteração: «O Espírito Santo, protagonista da missão»[2]. Neste último Documento, João Paulo II faz expressamente a colagem desta expressão ao Livro dos Actos, quando refere que a expressão tem o seu berço em S. Lucas, sobretudo no Livro dos Actos dos Apóstolos[3]. O bem fundado desta afirmação do protagonismo do Espírito Santo na missão e da sua ligação com o Livro dos Actos dos Apóstolos, foram já, de resto, verificadas e confirmadas por um exegeta atento e perspicaz como Rinaldo Fabris, que, no seu conceituado Comentário ao Livro dos Actos dos Apóstolos, pôde afirmar que, nesse Livro, «desde o início, o verdadeiro protagonista da missão é o Espírito Santo»[4].

Mas também o leitor o pode verificar e confirmar facilmente, dado que, no plano narrativo do Livro dos Actos dos Apóstolos, o Espírito Santo se faz presente por 56 vezes, assim distribuídas ao nível do vocabulário: 41 vezes «Espírito Santo», com ou sem artigo; 10 vezes «o Espírito»; 2 vezes «o meu Espírito»; 2 vezes «o Espírito do Senhor»; 1 vez «o Espírito de Jesus». Como a seguir se pode ver.

I. O ESPÍRITO SANTO NO PLANO NARRATIVO DO LIVRO DOS ACTOS: DENOMINAÇÃO, ACÇÃO E EFEITOS

Com base no critério da denominação (Espírito Santo, Espírito, meu Espírito, Espírito do Senhor e Espírito de Jesus), organizámos em 56 textos tudo o que no Livro dos Actos diz respeito ao Espírito Santo. Seguindo o fio condutor da denominação, os textos deixam ver também de forma clara, através da rede verbal, a acção do Espírito Santo e os efeitos dessa acção. 

 1.1. Espírito Santo (41x)

Texto 1. «Até ao dia em que tendo instruído (entéllomai) pelo Espírito Santo (dià pneúmatos hagíou) os Apóstolos que ele tinha escolhido, foi elevado» (Act 1,2).

Contexto: No prólogo do Livro dos Actos, Lucas recorda e resume a Teófilo a actividade de Jesus até à Ascensão.

 Texto 2. «João baptizou com água, mas vós no Espírito Santo (en pneúmati hagíô) sereis baptizados depois destes não muitos dias» (Act 1,5).

Contexto: Antes da Ascensão, Jesus anuncia aos Apóstolos o cumprimento iminente da promessa do Pai.

Texto 3. «RECEBEREIS (lémpsesthe: fut. de lambánô) uma força (dýnamis), a do Espírito Santo vindo sobre vós (epelthóntos toû hagíou pneûmatos eph’ hymâs), e sereis minhas testemunhas (mártyres) em Jerusalém e em toda a Judeia e Samaria e até ao fim da terra» (Act 1,8).

Contexto: O Espírito recebido está na origem do programa da missão no Livro dos Actos nas suas três etapas: Judeia, Samaria, terra inteira[5]. «Nos Actos dos Apóstolos, a Igreja nasce, vive e cresce no dinamismo do Espírito Santo»[6]

Texto 4. «Homens irmãos, era preciso (édei) que fosse cumprida a Escritura que disse antecipadamente (proeîpen) o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) pela boca de David acerca de Judas tornado o condutor (toû genoménou hodegoû) para aqueles que prenderam Jesus» (Act 1,16).

Contexto: Discurso de Pedro justificando o fim trágico de Judas e abrindo lugar para a eleição de Matias.

Texto 5. «E todos foram cheios (eplêsthêsan: aor. pass. de pímplêmi) de Espírito Santo (pneúmatos hagíou) e começaram a falar outras línguas segundo o Espírito (tò pneûma) lhes dava (edídou: imperf. de dídômi) de se exprimir» (Act 2,4).

Contexto: Pentecostes de Jerusalém.

Texto 6. «Pela direita de Deus tendo sido exaltado (hypsôtheís: part. aor. pass. de hypsóô), e a promessa do Espírito Santo (tèn epaggelían toû pneúmatos toû hagíou)[7] tendo RECEBIDO (labôn: part. aor2 de lambánô) de junto do Pai (parà toû patrós), ele derramou o que vós vedes e ouvis» (Act 2,33).

Contexto: Discurso de Pedro à multidão interpretando o Pentecostes de Jerusalém.

Texto 7. «Pedro para eles: “Convertei-vos (metanoêsate: imp. aor. de metanoéô) e seja baptizado cada um de vós no nome de Jesus Cristo (epì tô onómati Iêsoû Christoû) para a remissão dos vossos pecados (eis áphesin tôn hamartiôn hymôn) e RECEBEREIS (lémpsesthe: fut. de lambánô) o DOM do Espírito Santo (hê dôreà toû hagíou pneúmatos)”» (Act 2,38)[8].

Contexto: Discurso de Pedro interpretando o Pentecostes de Jerusalém e apelando à conversão em ordem a um novo Pentecostes.

Texto 8. «Então, Pedro, tendo sido cheio (plêstheís: aor. part. pass. de pímplêmi) de Espírito Santo (pneúmatos hagíou), disse para eles: “Chefes do povo (laós) e anciãos…”» (Act 4,8).

Contexto: Discurso de Pedro no Sinédrio.

Texto 9. Senhor, Tu «que pelo Espírito Santo [falando pela] pela boca de David, teu servo (paîs), nosso pai, dizes: “Por que se tornaram arrogantes as nações e os povos planearam coisas vãs?”» (Act 4,25)[9].

Contexto: Oração dos Apóstolos e da Igreja após a libertação de Pedro e João.

Texto 10. «E quando rezaram, foi sacudido (esaleúthê: aor. pass. de saleúô) o lugar onde foram reunidos (synêgménoi: part. perf. pass. de synágô). E foram cheios (eplêsthêsan: aor. pass. de pímplêmi) todos do Espírito Santo (toû hagíou pneúmatos) e falavam (eláloun: imperf. de laléô) a palavra de Deus com inteira liberdade (metà parrêsías)» (Act 4,31)[10].

Contexto: 2.º Pentecostes em Jerusalém com a presença dos Apóstolos e de outros irmãos após a libertação de Pedro e João.

 Texto 11. «Disse então Pedro: “Ananias, por que encheu (eplêrôsen: aor. de plêróô) satanás o teu coração, de modo a mentires ao Espírito Santo (tò pneûma tò hágion), e R-E-T-E-R-E-S em teu proveito do preço do terreno?”» (Act 5,3).

Contexto: Pedro mostra por assim dizer o anti-Pentecostes: a retenção em vez da dádiva por parte de Ananias e Safira.

 Texto 12. «E nós somos testemunhas (mártyres) destes factos (tôn rêmátôn toútôn), nós e o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) que Deus deu (édôken: aor. de dídômi) aos que lhe obedecem» (Act 5,32).

Contexto: Discurso de Pedro e os Apóstolos no Sinédrio.

 Texto 13. «Eles escolheram Estêvão, homem cheio (plêrês) de fé e de Espírito Santo (pneúmatos hagíou)» (Act 6,5).

Contexto: A escolha dos «sete», entre os quais, Estêvão, para responder aos problemas da comunidade judeo-cristã de língua grega.

 Texto 14. «(Homens) duros de cabeça e incircuncisos nos corações e nos ouvidos, Vós R-E-S-I-S-T-I-S sempre ao Espírito Santo (tô pneúmati tô hagíô); como os vossos pais, assim sois vós!» (Act 7,51).

Contexto: Discurso de Estêvão.

 Texto 15. «Permanecendo (hypárchôn), porém, cheio (plêrês) de Espírito Santo (pneúmatos hagíou), fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e Jesus estando de pé à direita de Deus» (Act 7,55).

Contexto: Entre o discurso de Estêvão e o seu apedrejamento.

 Texto 16. «[14Ora, tendo ouvido os Apóstolos em Jerusalém que aceitou (dédektai: perf. de déchomai) a Samaria a palavra de Deus, enviaram (apésteilan: aor. de apostéllô) para junto deles Pedro e João.] 15Estes, tendo descido, oraram (prosnýxanto: aor. de proseúchomai) por eles, para que RECEBESSEM (lambánô) o Espírito Santo (pneûma hágion)» (Act 8,15).

Contexto: Lucas descreve o início do Pentecostes (3.º) na Samaria com a presença de Pedro e João.

 Texto 17. «Então, impunham (epetíthesan: imperf. de epitíthêmi) as mãos sobre eles e eles RECEBIAM (elámbanon: imperf. de lambánô) o Espírito Santo (pneûma hágion)» (Act 8,17).

Contexto: Pentecostes (3.º) na Samaria.

 Texto 18. «[18Ora, tendo Simão visto que através da imposição das mãos dos Apóstolos é dado (dídotai) o Espírito (tò pneûma), ofereceu-lhes dinheiro,] 19dizendo: “dai-me também a mim esse poder (exousía), para que aquele a quem eu impuser as mãos, RECEBA (lambánô) o Espírito Santo (pneûma hágion)”. 20Então Pedro disse-lhe: “O teu dinheiro esteja contigo em perdição, porque tu julgaste comprar o DOM de Deus (hê dôreà toû theoû) por dinheiro!”» (Act 8,19-20 cf Ct 8,7).

Contexto: Outra vez o anti-Pentecostes: o mago Simão quer comprar para possuir e negociar, em vez de receber para dar.

 Texto 19. «Partiu (apêlthen) então Ananias e entrou (eisêlthen) na casa, e, tendo imposto sobre ele as mãos, disse: “Saulo, irmão, o Senhor enviou-me, Jesus, o que foi visto (ophtheís: part. aor. pass. de horáô) por ti no caminho por onde vinhas, de modo a veres de novo e a seres cheio (plêsthês: conj. aor. pass. de pímplêmi) de Espírito Santo (pneúmatos hagíou)”» (Act 9,17).

Contexto: Ananias e Paulo em Damasco, após a conversão de Paulo.

 Texto 20. «A Igreja, essa, por toda a Judeia e Galileia e Samaria, tinha paz, sendo construída (oikodomouménê: part. pass.) e fazendo caminho no temor do Senhor, e na consolação (paráklêsis) do Espírito Santo (toû hagóu pneúmatos) era multiplicada (eplêthýneto: imperf. pass. de plêthýnô)» (Act 9,31).

Contexto: Aquando da visita de Paulo a Jerusalém após a conversão.

 Texto 21. «Jesus, o de Nazaré, como Deus o ungiu (échrisen: aor. de chríô) com Espírito Santo (pneúmati hagíô) e poder (dýnamis), que atravessou, fazendo o bem e curando todos os que eram tiranizados pelo diabo, porque Deus estava com ele» (Act 10,38).

Contexto: Discurso de Pedro em casa de Cornélio: Cesareia Marítima.

 Texto 22. «Pedro falava ainda estes factos (rémata), quando caíu (epépesen: aor2 de epipíptô) o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) sobre todos os que escutavam a Palavra» (Act 10,44).

Texto 23. «E ficaram fora de si (exéstêsan: aor. de exístêmi) os fiéis que eram da circuncisão, que tinham vindo com (synêlthan: aor. de synérchomai) Pedro, porque também sobre as nações o DOM do Espírito Santo (hê dôreà toû hagíou pneúmatos) foi derramado (ekkéchytai: perf. pass. de echéô)» (Act 10,45).

Contexto: O Espírito no Pentecostes de Cesareia (4.º) e reacção dos 6 acompanhantes (Act 11,12) judeo-cristãos de Pedro.

 Texto 24. «Pode alguém recusar a água, de modo a não serem baptizados estes, que RECEBERAM (élabon: aor2 de lambánô) o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) tal como nós?» (Act 10,47).

Contexto: Reacção de Pedro face ao dom do Espírito no Pentecostes em Cesareia.

 Texto 25. «Ora, tendo eu começado a falar, caíu (epépesen: aor2 de epipíptô) o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) sobre eles (ep’ autoús) como sobre nós no princípio (en archê)» (Act 11,15).

Texto 26. «Recordei-me (emnêsthên: aor. de mimnêskomai) da palavra (rêma) do Senhor, como dizia (élegen: imperf. de légô): “Na verdade, João baptizou com água; vós, porém, sereis baptizados no Espírito Santo (en pneúmati hagíô)”. [17Se, portanto, Deus lhes deu (édôken) o DOM (hê dôreà) igual como a nós, que acreditámos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para ser capaz de impedir Deus?»] (Act 11,16-17).

Contexto: Pedro relata o Pentecostes de Cesareia perante os Apóstolos e irmãos de Jerusalém.

 Texto 27. «Pois ele era um homem bom e cheio (plêres) de Espírito Santo (pneúmatos hagíou) e de fé, e foi agregada (prosetéthê: aor. pass. de prostíthêmi) uma multidão considerável ao Senhor» (Act 11,24).

Contexto: Barnabé enviado pela Igreja de Jerusalém a Antioquia para consolidar a fé que começava a germinar devido à pregação dos judeo-cristãos de língua grega que a perseguição em Jerusalém dispersou.

 Texto 28. «Ora, fazendo o serviço litúrgico (leitourgoúntôn: part. de leitourgéô[laós + érgon]) para o Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion): “Ponde de parte (aphorísate: imp. aor. de aphorízô) para mim Barnabé e Saulo, para a obra (érgon) a que os chamei (proskéklêmai: perf. de proskaléomai)”» (Act 13,2).

Texto 29. «Eles, então, tendo sido enviados (ekpemphthéntes: part. aor. pass. de ekpémpô) pelo Espírito Santo (hypò toû hagíou pneúmatos), desceram a Selêucia, e, de lá, embarcaram para Chipre» (Act 13,4)[11].

Contexto: O Espírito no início da missão de Paulo e Barnabé em Antioquia. Os dois partem de Antioquia (Act 13,4) e regressam a Antioquia (Act 14,26), movimento circular paradigmático da missão[12].

 Texto 30. «Então, Saulo, que também se chamava Paulo, cheio (plêstheís: part. aor. pass. de pímplêmi) de Espírito Santo, fixando os olhos nele» (Act 13,9).

Contexto: Paulo em Pafos, na extremidade SO da ilha de Chipre, sede do procônsul romano, fulminando com a cegueira o mago Bar-Jesus, cheio (plêrês) de toda a falsidade e de toda a malícia…

 Texto 31. «E os discípulos achavam-se cheios (eplêroûnto: imperf. pass. de plêróô) de alegria e de Espírito Santo (pneúmatos hagíou) (Act 13,52).

Contexto: Os discípulos de Antioquia da Pisídia no final da estadia de Paulo nessa cidade.

 Texto 32. «E o conhecedor dos corações (kardiognôstês), Deus, testemunhou em favor deles, DANDO (doús: part. aor2 de dídômi) o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) como também a nós» (Act 15,8).

Contexto: Pedro na assembleia de Jerusalém mostrando aos defensores da necessidade da circuncisão e da Lei de Moisés que Deus também escolheu os gentios.

 Texto 33. «Na verdade, pareceu bem (édoxen: aor. de dokéô) ao Espírito Santo e a nós (tô pneúmati tô hagíô kaì hêmîn) não vos impor mais nenhum peso com excepção destas coisas necessárias (anágkê)» (Act 15,28)[13].

Contexto: Carta dos Apóstolos e anciãos de Jerusalém aos irmãos de Antioquia no final da assembleia de Jerusalém.

 Texto 34. «Atravessaram então a Frígia e a região da Galácia, tendo sido impedidos (kôlythéntes: part. aor. pass. de kôlýô) pelo Espírito Santo (hypò toû hagíou pneúmatos) de falar a palavra na Ásia» (Act 16,6).

Contexto: A missão vai dirigir-se, não para Norte, como Paulo planeava, mas para a Europa (Macedónia e Grécia). O ponto de ligação é o porto de Tróade Act 16,11), na extremidade NO da Ásia[14], de onde partem as comunicações para o mundo greco-romano, cujo centro é Roma.

 Textos 35.36. «Disse então para eles: “RECEBESTES (lambánô) o Espírito Santo (pneûma hágion) quando abraçastes a fé (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)”? Eles disseram a ele: “Nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!”» (Act 19,2).

Texto 37. «E tendo-lhes Paulo imposto (epithéntos: part. aor2 de epitíthêmi) as mãos, veio (êlthe: aor. de érchomai) o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) sobre eles (ep’ autoús), e eles falavam (eláloun: imperf. de laléô) em línguas e profetizavam» (Act 19,6).

Contexto: Diálogo de Paulo, no início da chamada “3.ª viagem missionária”, com os cerca de 12 discípulos de Éfeso (Act 19,7), a quem impõe as mãos: Pentecostes de Éfeso (5.º).

 Texto 38. «[22E agora, eis-me preso (dedeménos: part. perf. pass. de déô) pelo Espírito (tô pneúmati) a caminho (poreúomai) de Jerusalém, não sabendo as coisas que lá me acontecerão,] 23senão que o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) em cada cidade me atesta diamartýretaí moi), dizendo que prisões e tribulações me esperam» (Act 20,23).

Texto 39. «Estai atentos (proséchete: imp. de proséchô) a vós mesmos e a todo o rebanho, no qual o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) vos pôs (étheto: aor2 médio de títhêmi) como guardiães (epískopoi) para apascentar a Igreja de Deus, que ele adquiriu para si (periepoiêsato: aor. de peripoiéomai) pelo sangue do seu próprio [Filho]» (Act 20,28).

Contexto: Discurso de Paulo em Mileto, despedindo-se dos anciãos de Éfeso.

 Texto 40. «E, tendo vindo (elthôn: part. aor2 de érchomai) ao nosso encontro, e tendo tirado (áras: part. aor. de aírô) o cinto de Paulo, e tendo amarrado os seus pés e as suas mãos, disse: “Isto diz o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion): o homem de quem é este cinto, assim o amarrarão em Jerusalém os judeus e entregarão às mãos dos gentios”» (Act 21,11).

Contexto: O profeta Ágabo em Cesareia Marítima.

 Texto 41. «Ora, estando em desacordo (asýmphônoi) uns com os outros, desligavam-se (apelýonto: imperf. médio de apolýô), tendo dito Paulo uma palavra (rêma): “Bem o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) falou através de Isaías, o profeta, a vossos pais”» (Act 28,25).

Contexto: Paulo em Roma aos judeus.

 1.2. Espírito (10x)

Texto 1(42). «[E todos foram cheios (eplêsthêsan: aor. pass. de pímplêmi) de Espírito Santo (pneúmatos hagíou) e começaram a falar outras línguas] segundo o Espírito (tò pneûma) lhes dava (edídou: imperf. de dídômi) de se exprimir» (Act 2,4).

Contexto: Pentecostes de Jerusalém.

 Texto 2(43). «Escolhei, pois, irmãos, sete homens de entre vós, dignos de respeito, cheios de Espírito (plêreis pneúmatos) e de sabedoria, e nós os imporemos (katastêsomen: fut. de kathístêmi) sobre esta tarefa» (Act 6,3).

Contexto: Instituição dos «sete» entre os judeo-cristãos de língua grega.

 Texto 3(44). «E não tinham força para se opor (antistênai: inf. aor de anthístêmi) à sabedoria e ao Espírito (tô pneúmati) pelo qual ele falava» (Act 6,10).

Contexto: Factos que antecedem a prisão de Estêvão.

 Texto 4(45). «18Ora, tendo Simão visto que através da imposição das mãos dos Apóstolos é DADO (dídotai) o Espírito (tò pneûma), ofereceu-lhes dinheiro, [19dizendo: “dai-me também a mim esse poder (exousía), para que aquele a quem eu impuser as mãos, receba (lambánô) o Espírito Santo (pneûma hágion)”»] (Act 8,18).

Contexto: Outra vez o anti-Pentecostes: o mago Simão quer comprar para possuir, em vez de receber para dar.

 Texto 5(46). «Disse então o Espírito (tò pneûma) a Filipe: “Avança e aproxima-te desta carruagem”» (Act 8,29).

Contexto: Filipe evangeliza o eunuco alto funcionário da Etiópia.

 Texto 6(47). «Estava Pedro a meditar (dienthymouménou: part. de thyméomai) acerca da visão, e disse o Espírito (tò pneûma): “Eis três homens que te procuram (zêtoûntes: part. de zêtéô)”» (Act 10,19).

Contexto: Visão de Pedro em Jope dos animais puros antes de seguir para Cesareia.

 Texto 7(48). «Disse-me então o Espírito (tò pneûma) para me juntar (syneltheîn: inf. aor. de synérchomai) a eles sem hesitar. Foram também comigo estes 6 irmãos, e entrámos na casa do homem» (Act 11,12).

Contexto: Pedro relata e justifica em Jerusalém a sua ida a casa de Cornélio.

 Texto 8(49). «Levantando-se então um de entre eles, chamado Ágabo, fez conhecer, pelo Espírito (dià toû pneúmatos), que uma grande fome estava para vir sobre toda a terra, o que aconteceu sob Cláudio» (Act 11,28).

Contexto: O profeta Ágabo desceu de Jerusalém até Antioquia para anunciar estas coisas, quando Paulo acabava de chegar de Tarso pela mão de Barnabé.

 Texto 9(50). «E agora, eis-me preso (dedeménos: part. perf. pass. de déô) pelo Espírito (tô pneúmati) a caminho (poreúomai) de Jerusalém, não sabendo as coisas que lá me acontecerão, [23senão que o Espírito Santo (tò pneûma tò hágion) em cada cidade me atesta diamartýretaí moi), dizendo que prisões e tribulações me esperam»] (Act 20,22).

Contexto: Discurso de Paulo em Mileto, despedindo-se dos anciãos de Éfeso.

 Texto 10(51). «Encontrando então os discípulos, permanecemos lá sete dias; e eles diziam a Paulo, pelo Espírito (dià toû pneúmatos), que não subisse a Jerusalém» (Act 21,4).

Contexto: Paulo em Tiro a caminho de Jerusalém.

 1.3. O meu Espírito (2x)

Texto 1(52). «E acontecerá nos últimos dias, diz Deus: “Derramarei (ekchéô) do meu Espírito (apò toû pneumatós mou) sobre toda a carne, e profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas, e os vossos jovens verão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos”» (Act 2,17).

Texto 2(53). «E também sobre os meus servos e sobre as minhas servas, naqueles dias, derramarei (ekchéô) do meu Espírito (apò toû pneumatós mou), e profetizarão» (Act 2,18).

Contexto: Discurso de Pedro no Pentecostes de Jerusalém.

 1.4. Espírito do Senhor (2x)

Texto 1(54). «Então Pedro disse para ela: “Por que vos pusestes de acordo para tentar o Espírito do Senhor (tò pneûma kyríou)? Eis que os pés dos que sepultaram o teu marido estão à tua porta, e levar-te-ão”» (Act 5,9).

Contexto: Pedro recriminando Safira pela retenção [= anti-Pentecostes].

 Texto 2(55). «Quando subiram da água, o Espírito do Senhor (pneûma kyríou) arrebatou (hêrpasen: aor. de harpázô) Filipe, e não o viu mais o eunuco; mas fazia o seu caminho (eporeúeto tèn hodòn autoû) com alegria (chaírôn)» (Act 8,39).

Contexto: Final do episódio da evangelização do eunuco etíope por Filipe.

 1.5. Espírito de Jesus (1x)

Texto 1(56). «Chegando aos confins da Mísia, tentaram entrar na Bitínia, mas não lho permitiu o Espírito de Jesus (tò pneûma Iêsoû)» (Act 16,7).

Contexto: Paulo tinha planeado ir para o Norte [= Bitínia (capital Ankara)], mas o Espírito sopra noutra direcção = Europa.

 1.6. Acção do Espírito Santo

O plano narrativo do Livro dos Actos deixa ver ainda a vasta acção do Espírito Santo, descrita com os verbos de acção pessoal instruir,/ testemunhar,/ dizer,/ falar,/ chamar,/ ordenar,/ caír sobre,/ vir sobre,/ enviar,/ impedir,/ não permitir,/ prender,/ pôr à frente de,/ arrebatar.

 1.7. Efeitos da acção do Espírito Santo

Sempre no plano narrativo, pode ver-se ainda como o Espírito desencadeia a acção de terceiros, pessoas singulares ou a Igreja, levando-os a dar testemunho,/ falar outras línguas,/ falar em línguas,/ profetizar,/ viver, agir e falar em inteira liberdade (parrêsía),/ ver Jesus Cristo glorificado,/ encontrar consolação, comunhão, alegria.

 

II. INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA: OU O PROTAGONISMO DO ESPÍRITO SANTO NA MISSÃO NO LIVRO DOS ACTOS

Perante esta variada e tão clara descrição da acção do Espírito e dos seus efeitos, muitos dos estudiosos e leitores do Livro dos Actos têm manifestado curiosidade em saber de que modo se revelaria ou como pode ser concebida essa acção do Espírito[18]. As tentativas de resposta têm incidido nos âmbitos psicológico, místico, da inspiração interior, intervenção profética, circunstâncias exteriores interpretadas à luz da fé.

 2.1. O DOM (dôreá) do Espírito Santo (Act 2,38; 8,20; 10,45; 11,17; cf Hb 6,4; Jo 4,10)

Tentarei perseguir e prosseguir um caminho melhor ou, para usar a linguagem paulina, o caminho melhor, o caminho por hipérbole (kath’ hyperbolê hodós) (1 Cor 12,31): o caminho do DOM ou da DÁDIVA (hê dôreá). É sintomático que o Livro dos Actos dos Apóstolos empregue, como vimos, por quatro vezes o termo DOM para dizer o Espírito Santo! Recapitulando: 1) uma vez no discurso de Pedro no contexto do Pentecostes de Jerusalém, apelando à conversão em ordem a um novo Pentecostes, concluíndo: «Recebereis o DOM do Espírito Santo» (Act 2,38); 2) outra vez na recriminação de Pedro contra o mago Simão, que queria comprar o DOM de Deus, no contexto do Pentecostes da Samaria (Act 8,20); 3)4) duas vezes no contexto do Pentecostes «das nações», em Cesareia: uma, em que o narrador mostra o espanto dos 6 judeo-cristãos que acompanhavam Pedro ao verem que também sobre os pagãos fora derramado o DOM do Espírito Santo (Act 10,45), e outra no relato que Pedro faz aos irmãos de Jerusalém dos acontecimentos de Cesareia, dizendo que «Deus lhes deu o DOM igual como a nós» (Act 11,17). Fora do Livro dos Actos dos Apóstolos, no resto do NT, o termo DOM é empregado ainda por mais 7 vezes (Jo 4,10; Rm 5,15.17; 2 Cor 9,15; Ef 3,7; 4,7; Hb 6,4), em todas elas designando implicitamente o Espírito Santo[19]. Essa equação é explícita na Carta aos Hebreus, em que se fala daqueles que «foram iluminados, tendo saboreado o DOM do céu e tendo-se tornado participantes do Espírito Santo» (6,4).

 2.2. Dar (dídômi) e receber (lambánô)

A linguagem da dádiva para dizer o Espírito Santo não se esgota no termo DOM. É preciso considerar também a dinâmica do «dar» e «receber» tendo como objecto o Espírito Santo.

Neste sentido, o Livro dos Actos emprega por quatro vezes (num total de catorze no NT)[20] o verbo «dar»: a primeira, em Act 5,32, com Pedro e os Apóstolos a asseverarem perante o Sinédrio: «Nós somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem»; a segunda, em Act 8,18, com o mago Simão a constatar que «através da imposição das mãos dos Apóstolos é dado o Espírito»; a terceira, em Act 11,17 – de resto, um texto que acumula o dar e o DOM –, com Pedro a dizer aos irmãos de Jerusalém, a propósito dos acontecimentos de Cesareia, que «Deus lhes deu o DOM igual como a nós»; a quarta, em Act 15,8, com Pedro a asseverar na assembleia de Jerusalém acerca dos mesmos acontecimentos de Cesareia que «Deus testemunhou em favor deles, dando o Espírito Santo como também a nós».

No que se refere ao verbo «receber» tendo como objecto o Espírito Santo, o Livro dos Actos emprega-o por oito vezes (num total de 15 no NT)[21]: 1) a primeira, em Act 1,8, em que Jesus Ressuscitado anuncia a vinda do Espírito e enuncia o programa da missão: «Recebereis uma força, a do Espírito Santo vindo sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e Samaria e até ao fim da terra»; 2) a segunda, em Act 2,33, com Pedro a interpretar o Pentecostes de Jerusalém: «Pela direita de Deus tendo sido exaltado, e a promessa do Espírito Santo tendo recebido de junto do Pai, ele derramou o que vós vedes e ouvis»; 3) a terceira, em Act 2,38 – um texto que acumula o receber e o DOM –, no contexto do discurso de Pedro no Pentecostes de Jerusalém, apelando à conversão em ordem a um novo Pentecostes, concluíndo: «Recebereis o DOM do Espírito Santo»; 4) a quarta, em Act 8,15, no contexto do Pentecostes da Samaria, em que o narrador refere o envio para lá de Pedro e João, e que «estes, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo»; 5) a quinta, em Act 8,17, no mesmo contexto, em que o narrador refere que Pedro e João «impunham as mãos sobre eles e eles recebiam o Espírito Santo; 6) a sexta, em Act 8,19, sempre no mesmo contexto do Pentecostes da Samaria, documenta a tentativa levada a efeito pelo mago Simão de comprar o dom do Espírito Santo com estas palavras: «Dai-me também a mim esse poder, para que aquele a quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo»; 7) a sétima, em Act 10,47, no contexto do Pentecostes de Casareia, documentando a reacção de Pedro: «Pode alguém recusar a água, de modo a não serem baptizados estes, que receberam o Espírito Santo tal como nós?»; 8) a oitava, em Act 19,2, no contexto do Pentecostes de Éfeso, com Paulo a perguntar aos cerca de 12 discípulos: «Recebestes o Espírito Santo quando abraçastes a fé?».

Da análise efectuada, resulta claro: 1) que a associação do Espírito Santo com o DOM é quase exclusiva do Livro dos Actos dos Apóstolos; 2) que esta associação é ainda explicitada pela dinâmica do dar e receber, segundo a qual o Espírito Santo é dado por Deus e recebido pelos homens; 3) que esta associação explicitada sai ainda reforçada pelo contraponto da «retenção» de Ananias e Safira e da tentativa de comprar para vender do mago Simão, dois comportamentos claramente reprovados.

 2.3. O Espírito Santo como pessoa-dom

Na Carta Encíclica Dominum et vivificantem, de 18 de Maio de 1986, o Papa João Paulo II refere que se conclui, a partir dos Actos dos Apóstolos, que «o Espírito Santo assumiu a orientação invisível, mas de algum modo “perceptível”» da Igreja (n.º 25). E nessa mesma Carta, o Papa afirma por diversas vezes a definição do Espírito Santo como «pessoa-dom» (n.º 10.22.23.50). O Papa voltou a este assunto nas suas «Catequeses ao Povo de Deus», nas audiências de 4.ª feira, de 26 de Abril de 1989 a 3 de Julho de 1991. Importante para o nosso tema é a «Catequese» de 21 de Novembro de 1990, dedicada por inteiro à consideração do Espírito Santo como DOM. Nela, o Papa afirmou que «pertence à revelação de Jesus o conceito de Espírito Santo como Dom concedido pelo Pai»[22]. Implica isto que a determinação de DOM referida à terceira pessoa da Trindade entra no depositum fidei, e não fica, portanto, entregue à simpatia do crente ou do teólogo.

Esta feliz definição, bem assente, como vimos, em terreno bíblico, se bem compreendida e explorada, pode trazer importantes consequências práticas. A nossa experiência ensina-nos como nós somos sensíveis ao Dom, como o nosso coração se abre diante do Dom. O Dom tem uma força própria. Não é uma força exterior que se imponha desde fora. É uma força interior, persuasiva, suave e calorosa, que move o coração desde dentro, quebrando toda a dureza e resistência. O Dom é uma terceira realidade entre mim e o meu amigo. O meu amigo quer dar-se a mim por amor. Mas não pode deixar de ser ele, para passar a ser eu. Eu quero dar-me ao meu amigo por amor, mas não posso deixar de ser eu, para passar a ser ele. Aliás, se esta fusão pudesse acontecer, punha termo ao amor existente entre mim e o meu amigo. O Dom provém da alteridade e garante a alteridade. Provém da intencionalidade da união entre mim e o meu amigo, mas garante também a nossa alteridade. O Dom é o meu amigo dando-se a si mesmo a mim por amor e sou eu recebendo o meu amigo por amor, princípio e termo da doação. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor – princípio da doação –, mas não perde a sua dimensão paterna, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor – termo da doação –, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma acção requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objecto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, menos é um objecto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objecto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito, Pessoa divina subsistente, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do acto da doação, de que é o efeito[23] e a significação. Se ele fosse o acto da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira[24].

O Espírito, Pessoa-Dom incriado, é o protagonista da missão e de toda a vida eclesial. É, porém, um protagonista silencioso como o Dom é silencioso. Silencioso, mas eficaz. A sua acção calorosa processa-se, não com palavras sensíveis que afectam os órgãos da audição (Rm 8,26), mas na interioridade da inteligência da fé num «gemido sem palavras» (stenagmòs alálêtos) (Rm 8,26)[25], avivando as brasas do desejo da Palavra primeira e criadora no coração de cada homem, debaixo de qualquer céu. Comprende-se assim porque é que o ano do Espírito pode ser também o ano da missão. É que a acção calorosa do Espírito-Dom não se limita a certos países, línguas, povos, etnias, religiões, e nem sequer tem um alcance limitado como é limitado o alcance daquele que usa as cordas vocais (ou mesmo os meios de comunicação social) para se fazer ouvir. Ele está para além de todas essas barreiras, pois actua directamente na inteligência e no coração de cada homem[26]. E em termos de inteligência e de coração, em termos de humanidade e intimidade, são iguais o chinês, o português e o inglês, o católico, o hinduísta e o muçulmano… No fundo, no fundo, como refere S. Tomás de Aquino, no Comentário sobre o Evangelho de S. João, Cap. 14, lect. 2, todo o homem deseja principalmente duas coisas: o conhecimento da verdade e a continuação da sua existência, ou seja, a vida. São estas brasas, que ardem no coração e na inteligência de cada homem, que constituem em nós expressão sintomática da Palavra primeira e criadora, e que, avivadas pelo Espírito, acendem em nós o desejo do Filho, fazendo do encontro com o Filho e do conhecimento do Filho um re-encontro e um re-conhecimento[27].

Esta acção interior do Espírito é comparada à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos conheceis (oídate)» (1 Jo 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 Jo 2,27). Com a vinda do Espírito, pessoa-dom, que actua discreta mas eficazmente como o dom, cumpre-se a profecia de Jr 31,31-34 (38,31-34 LXX) que refere que «todos me conhecerão (eidêsousin)» com uma ciência que não resulta da instrução, mas que é incutida por Deus no coração[28].

 

III. CONCLUSÃO

O protagonismo do Espírito Santo no Livro dos Actos é a acção invisível e silenciosa, sossegada e livre, interior e íntima, doce e delicada, atenta e cuidadosa, suave e carinhosa, amante e generosa, discreta e oportuna, paciente, persistente, corajosa e eficaz da Pessoa-Dom, fonte de dons. E o que é a vocação senão esta carícia de Deus no coração? E se nós, que fomos marcados com o selo do Dom do Espírito Santo (2 Cor 1,22), nos despojássemos dos nossos muitos protagonismos, e começássemos simplesmente a viver «como um dom», like a gift?

 

António Couto

 


[1] PAULO VI, Evangelii Nuntiandi, 75.

[2] JOÃO PAULO II, Redemptoris Missio, Capítulo III.

[3] JOÃO PAULO II, Redemptoris Missio, 24.

[4] R. FABRIS, Os Atos dos Apóstolos. Tradução e comentários, São Paulo, Loyola, 1991, p. 251.

[5] J.-N. ALETTI, Il racconto come teologia. Studio narrativo del terzo Vangelo e del libro degli Atti degli Apostoli, Roma, Dehoniane, 1996, p. 30; A. BOTTINO, La testimonianza nel libro degli Atti, in R. FABRIS (ed.), La Parola di Dio cresceva (At 12,24). Scritti in onore di Carlo Maria Martini nel suo 70º compleanno, Bolonha, EDB, 1998, p. 322.

[6] R. LAVATORI, Lo Spirito Santo dono del Padre e del Figlio. Ricerca sull’identità dello Spirito come dono, Bolonha, EDB, 2.ª ed. revista e actualizada, 1998, p. 56.

[7] Trata-se de um genitivo epexegético.

[8] Trata-se de um genitivo epexegético.

[9] Citação do Sl 2,1.

[10] pâs rêsis [= toda a palavra], da mesma raiz de rêma: eírô [= dizer].

[11] Selêucia, porto a 25 Km de Antioquia. De Selêucia a Chipre são cerca de 100 km. Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce. Lecture des Actes des Apôtres. 2. Lecture continue, Bruxelas, Institut d’Études Théologiques, 1995, p. 400.

[12] R. FABRIS, Os Atos dos Apóstolos, p. 248.

[13] Não se trata obviamente de uma necessidade da ordem natural e fatal como na anánke grega, mas da ordem da liberdade e do amor (agápê).

[14] Cerca de 40 km a sul da antiga Tróia da Ilíada.

[15] A. GEORGE, L’Esprit Saint dans l’oeuvre de Luc, in Revue Biblique, 80, 1978, p. 503.

[16] De facto, o «Espírito Santo», com ou sem artigo, é nomeado por Lucas 13 vezes no Evangelho e 41 vezes nos Actos [ao todo 54 vezes] contra 5 vezes em Mateus (1,18.20; 3,11; 12,32; 28,19), 4 vezes em Marcos (1,8; 3,29; 12,36; 13,11), 3 vezes em João (1,33; 14,26; 20,22), 15 vezes em Paulo, 2 vezes nas Cartas Pastorais.

[17] J. FERNÁNDEZ LAGO, El Espíritu Santo en el mundo de la Bíblia, Santiago de Compostela, Instituto Teológico Compostelano, 1998, p. 119; J. COMBLIN, Atos dos Apóstolos. Vol. I: 1-12, Petrópolis, Vozes – Imprensa Metodista – Editora Sinodal, 1988, p. 41; R. FABRIS, Os Atos dos Apóstolos, p. 78.

[18] R. FABRIS, Os Atos dos Apóstolos, p. 78-79.312; A. GEORGE, L’Esprit Saint dans l’oeuvre de Luc, p. 510-511.

[19] J. D. G. DUNN, Dôreá as the Gift of the Holy Spirit, in J. D. G. DUNN, The Christ and the Spirit. Collected Essays. Volume 2. Pneumatology, Grand Rapids, Eerdmans, 1998, p. 207-209.

[20] Assim distribuídas: Lc 11,13: «O Pai dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem»; Jo 3,34: «Ele dá o Espírito sem medida»; Jo 14,16: «Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito»; Jo 19,30: «… Jesus disse: “tudo está consumado”, e, inclinando a cabeça, deu o Espírito (parêdôken tò pneûma)»; Rm 5,5: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado»; 2 Cor 1,22: «O qual nos marcou com um selo e deu o penhor do Espírito nos nossos corações»; 2 Cor 5,5: «… foi Deus, o qual nos deu o penhor do Espírito»; 1 Ts 4,8: «Deus, aquele que nos dá o Espírito»; 1 Jo 3,24: «Nós sabemos que ele permanece em nós pelo Espírito que nos deu»; 1 Jo 4,13: «Nós sabemos que permanecemos nele e ele em nós, porque ele nos deu o seu Espírito». As restantes quatro vezes estão nos quatro textos dos Actos: 5,32; 8,18; 11,27; 15,8. Ver R. LAVATORI, Lo Spirito Santo dono del Padre e del Figlio, p. 39, que omite Jo 19,30, 2 Cor 1,22 e 2 Cor 5,5, contabilizando, por isso, não 14, mas 11 vezes.

[21] Assim distribuídas: Jo 7,39: «Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que tinham acreditado nele»; Jo 14,7: «O Espírito da verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê nem conhece»; Jo 20,22: «E isto dizendo, soprou e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”»;  1 Cor 2,12: «Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus»; 2 Cor 11,4: «Na verdade, se vem alguém e vos prega um Jesus que nós não pregámos, ou se recebeis outro Espírito que não recebestes»; Gl 3,2: «Foi pelas obras da lei que recebestes o Espírito, ou pela obediência da fé?»; Gl 3,14: «Para que a promessa do Espírito recebamos através da fé». As restantes oito vezes estão nos oito testos dos Actos: 1,8; 2,33; 2,38; 8,15.17.19; 10,47; 19,2. R. LAVATORI, Lo Spirito Santo dono del Padre e del Figlio, p. 40.

[22] JOÃO PAULO II, Catechesi sul credo. III. Credo nello Spirito Santo, Cidade do Vaticano, Editrice Vaticana, 1992, p. 287-289. Sobre o assunto, R. LAVATORI, Lo Spirito Santo dono del Padre e del Figlio, p. 233.

[23] O facto de ser o efeito da doação não implica qualquer subalternidade ou secundariedade, dado que, em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, alfa e omega, são simultâneos e coeternos.

[24] R. LAVATORI, Lo Spirito Santo dono del Padre e del Figlio, p. 262-263, e nota 13.

[25] A força do Espírito está antes das palavras e para além das palavras. Em 1 Cor 12-14, Paulo critica os Coríntios sobretudo por, através da glossolalia, quererem levar o Espírito à letra, o que vinha a ser a negação do Espírito.

[26] JOÃO PAULO II, Dominum et vivificantem, 53; JOÃO PAULO II, Redemptoris Missio, 28.

[27] Ver a finíssima análise de F. MARTIN, Pour une théologie de la lettre. L’inspiration des Écritures, Paris, Cerf, 1996, p. 223-226, acerca de 2 Pe 1,19-21.

[28] G. FERRARO, Il Paraclito, Cristo, il Padre nel quarto Vangelo, Cidade do Vaticano, Editrice Vaticana, 1996, p. 52-70.159; A. JAUBERT, L’Esprit dans le Nouveau Testament, in Dieu révélé dans l’Esprit, «Les quatre fleuves» 9, Paris, Beauchesne, 1979, p. 27.

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8 Responses to O MODO NOVO DO ESPÍRITO

  1. A. Brás diz:

    “E o que é a vocação senão esta carícia de Deus no coração?”
    Caro amigo António. Se não é a melhor, talvez seja uma das melhores definições que encontrei sobre a vocação.
    Além disso, a reflexão atenta aqui feita sobre o Espírito Santo na Bíblia e na Vida, numa perspectiva missionária, está um primor.
    Obrigado por partilhar connosco esta riqueza.
    Deixemos que o E. Santo seja, de facto, o protagonista da missão; o que nos permite começar a viver como um verdadeiro dom.

  2. Arnaldo vareiro diz:

    D. António, é importante esta reflexão que faz em Dia de Pentecostes, alertando para o DOM que é o Espírito Santo! O Homem de Hoje não abre o coração a esta dádiva, fecha-se em si mesmo! Se não se abre ao Dom como o pode oferecer, dar? Que o Pentecostes de 2009 nos faça despertar para o Dom para que a Missão seja a construção da Civilização do Amor!
    Um santo e dinâmico Pentecostes!

  3. Manuel diz:

    D. António,

    Obrigado pela preciosa partilha sobre o Dom, que o Pai, no Espírto de seu Filho, não cessa de oferece aos que n’Ele acreditam.
    Neste Pentecostes de 2009 imploro para todos os homens a magnanimidade na abertura aos frutos da acção do Espírito de Jesus.
    Todo seu.
    Manuel

  4. E.Coelho diz:

    Antes de mais, obrigada por tudo!

    Depois , com a devida permissão, cito-te:

    “E se nós, que fomos marcados com o selo do Dom do Espírito Santo (2 Cor 1,22), nos despojássemos dos nossos muitos protagonismos, e começássemos simplesmente a viver «como um dom», like a gift?”
    (A. Couto).

    E agarro com força as tuas palavras para sustentar o meu comentário, (de Leiga.

    – É muito pessoal a sensação que tenho de que, de entre as Pessoas da Santíssima Trindade, o Espírito Santo é a mais ignorada, desconhecida e esquecida, apesar de ser a que está mais presente nas nossas vidas desde o Baptismo. Nem ao fazer o sinal da cruz Lhe damos o destaque que merece, pois fazemo-lo, a mais das vezes, automaticamente.
    – E digo isto porque, no meu entender, se conhecêssemos melhor o Espírito, talvez fôssemos mais capazes de nos VERMOS como DÁDIVA; se conhecêssemos melhor o Espírito, a consciência da Sua presença em nós (templos) tornar-nos-ia mais qualificados para sermos testemunhas/evangelizadores/viventes e corpos/membros da PALAVRA, do DOM, da/na IGREJA de que Cristo é a Cabeça.
    Se conseguíssemos VER nos nossos “umbigos” um sinal da paternidade/maternidade/filiação/fraternidade/união com Deus, é provável que o nosso olhar saísse de nós próprios e fossemos mais capazes de olhar para Deus e para o próximo (prescrutando) o SER de DEUS, que foi VISTO no Filho e foi dado no Espírito e que PERMANECE no mundo, nos outros, em nós.
    – Por isso, parece-me que é urgente “devolver” ao Espírito Santo o Seu lugar na Trindade, de modo a torná-Lo mais conhecido/VISTO, sentido-como-nosso, em nós, que somos a Sua Habitação no Mundo. Quero acreditar que se tal acontecesse, estes “vasos de barro” que somos, estas “casas” de Deus em que nos transformámos desde o dia do nosso baptismo, estariam mais limpas e arejadas, mais arrumadas e habitáveis, mais ricas, mais abertas, SEMPRE ABERTAS ao DOM, a Deus, ao mundo. Poderíamos deitar fora todas as chaves que nos prendem e nos mantêm encerrados em nós próprios, nas algemas que ainda nos aprisionam. Aí, cantaríamos hinos à Vida, à Liberdade, à Graça, e, certamente seriamos mais felizes.
    Abraço grande,
    Elisa

  5. manuela diz:

    Que fazer depois de ler/meditar tão eloquente trabalho!
    Simplesmente dar espaço ao Espírito para que, a exemplo de Maria, Ele actue no sentido de fazer o que Deus quer fazer mim.

    Bem-haja, meu irmão em Cristo.

  6. Paula A. Fernandes diz:

    Senhor D. António,

    Antes de tudo, só posso agradecer muito, muito.

    É uma benção de Deus, a sua presença na nossa diocese.

    Desde o Congresso Diocesano da Família, em 2008 (onde ouvimos pela primeira vez as suas reflexões),até hoje.

    Tudo o que nos transmitiu foi profundo e hiperbolicamente belo, belo, belo.

    Descobri hoje, graças ao Pe. João Torres, este blog, onde ainda só tive tempo para procurar o belo poema que ontem nos deixou, invocando o Senhor de la Sonrisa, que não encontro.

    Estará cá?

    Muito obrigada.

    Paula

  7. mesadepalavras diz:

    Benvinda, Dr.ª Paula.
    Pode ver o poema,com os versos assinalados com / e as estrofes com //, como é usual quando a poesia se escreve em forma de prosa, no ponto 2. do post intitulado COM DEUS NO CORAÇÃO. Espero que encontre.

    • Paula A. Fernandes diz:

      Sim, encontrei.

      Palavras com vida, plenas de vida.

      E nos fazem arder cá dentro,no coração (quais discípulos, a caminho de Emaús).

      Empurram-nos, a toda a força, para a frente que, já só podemos pôr pés ao caminho.

      Bem haja.

      Paula (s/dr.ª,p.f.)

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