OS NOSSOS MUROS E OS NOSSOS MEDOS


 

1. O muro de Berlim, que separava a Europa de leste da Europa ocidental,GSOCAB1Q2AOCAYJZGIZCAJOZ3CFCAI4M7RFCA7ZKA4RCAA2AK27CADYFBJDCAP9YRK5CAI6DX3DCAZY3K59CAGT0V4UCAFZOO3HCAQ4XJKECAUSBZIQCAF7QOWNCAPM2SZKCAFYWKHDCA9K1Q9J caiu, como é sabido, em finais do século XX. Mas já um novo muro se ergue, neste dealbar do século XXI, para separar Israel dos territórios palestinianos. O muro de Berlim foi construído pelos de leste essencialmente para impedir que de leste alguém fugisse para ocidente. O muro que agora se ergue é obra de Israel, e é para impedir que os palestinianos entrem livremente em Israel. O objectivo é prevenir ataques suicidas e outros.

 2. Mas é bom aprendermos a pensar que estes muros não são só coisas dos outros. Se olharmos atentamente à nossa volta, veremos também os muros que nós mesmos cada vez mais vamos levantando junto das nossas casas na tentativa de barrar o caminho àqueles que consideramos vagabundos e ladrões. E, bem vistas as coisas, não levantamos apenas muros físicos, mas também muros culturais, raciais, ideológicos, religiosos e outros.

 3. A história não se repete nem os seus acontecimentos são simétricos. É, todavia, significativo que, se recuarmos até aos séculos XX e XXI antes de Cristo – o prato da balança que faz pendant com os nossos séculos XX e XXI depois de Cristo –, deparamos aí também com a mania dos muros e dos medos. O grande Egipto civilizado, país do sol e dos deuses, temia então os asiáticos SHASHU [= aqueles que caminham sobre a areia], que deambulavam pelos territórios a oriente do Delta do Nilo (Península do Sinai, Síria-Palestina…), e que os egípcios consideravam como bárbaros. Para impedir que esses bárbaros entrassem no Egipto, o Faraó Amen-em hat I (1991-1962 a. C.) concluiu, junto do istmo de Suez, um sistema de fortificações, que ficou conhecido por «Muros do Príncipe», e que parece que tinha sido iniciado já por Kheti II, no final da X dinastia, por volta de 2100.

 4. Do mesmo modo, na outra extremidade do Crescente Fértil, também os soberanos da Mesopotâmia se mostravam temerosos em relação às hordas do deserto ocidental, que ameaçavam entrar na Mesopotâmia. A sua proveniência do deserto sírio ocidental, fazia com que fossem designados por MAR.TU (sumério) ou Amurru (acádico), que significa «ocidentais». Para tentar impedir a sua entrada na Mesopotâmia, o imperador Shû-Sîn ( 2037-2029), o penúltimo da III dinastia de Ur ( 2112-2004), levou a efeito a construção de um muro de 275 km entre o Eufrates e o Tigre, ligeiramente a noroeste da actual Bagdad.

 5. Quer num caso quer no outro, os muros nada puderam contra os «bárbaros», que acabaram mesmo por entrar no Egipto e na Mesopotâmia. Com o tempo, todos os muros caem. Os muros que construímos significam o nosso medo de perder. Bem vistas as coisas, o medo é que é o muro. E quem tem medo acaba sempre por perder. Começa mesmo já a perder.

 6. Uma sociedade assente em elevados parâmetros de sucesso, poder e lucro, promove com certeza uma pequena elite, mas segrega uma multidão de inaptos e marginalizados, «bárbaros». Os muros que levantamos separam, pensamos nós, a elite da multidão, os civilizados dos incivilizados, os ricos dos pobres, os sãos dos doentes… A pequena elite só tem a perder e tem medo; a multidão não tem nada a perder e não tem medo.

 7. A solução não está nos muros dos nossos medos. A solução está em aprender «a tornarmo-nos capazes de amar e de ser amados, a alegrarmo-nos com a existência dos outros, até ao ponto de amar até aqueles que não nos amam». Tudo somado, «o homem não é prisioneiro nem da natureza nem do fatalismo: o homem é livre». E, no âmbito do viver humano, «se Cristo é um modelo, que nós queiramos imitá-lo não é destituído de sentido, mesmo para aqueles que, como eu, não são crentes».

 8. O que acabo de transcrever entre aspas é um extracto de uma entrevista concedida a Le Figaro Magazine, de 6.ª feira, 17 de Maio de 2002, pelo então ministro francês da Juventude e da Educação, o filósofo Luc Ferry. É notável que este jovem filósofo e ministro, declaradamente não crente, face a uma sociedade cada vez mais egoísta, coisista, consumista e hedonista, se atreva a pôr Cristo e a sua maneira de viver como modelo para a Juventude e norma para a Educação! Se aprendermos a viver como Cristo, livres e abertos aos outros, a todos os outros, haverá ainda lugar para o medo? E para que servirão então os muros? Não tenhas medo, meu irmão de Julho.

 António Couto

4 respostas a OS NOSSOS MUROS E OS NOSSOS MEDOS

  1. José Carlos F. Pereira diz:

    Muito obrigado!

    por construir, constantemente, estas pontes com saber e sabor refinado; pontes de encontro que deixam entrar e sair, passar e conhecer… com-viver!

    Bem haja,
    José Carlos

  2. E.Coelho diz:

    Olá,

    Como bem sabes, todos andamos vestidos com “armaduras”, precisamente por medo aos outros. Ou porque já o sentimos na pele ou porque o criamos nas nossas mentes, quase sempre, nós cordeiros – eles lobos.
    Entendo quando dizes “Não tenhas medo, meu irmão”,porque é esse medo que nos leva a não fazermos o que devemos fazer. Ele bloqueia-nos, “agrafa-nos” (a expressão é tua), impede-nos de agir. Ficamos presos, encerrados naquele que diz: Não mato nem roubo, logo não tenho pecados…!
    Deixo a pergunta, que considero inevitável: onde termina a prudência e começa o medo? Somos ainda tão fracos… e com uma fé tão pequenina que qereriamos ver (com os olhos da carne) esse Cristo que está sempre connosco – ao nosso lado, para nos sentirmos corajosos. Homens de pouca fé, tal como Tomé, (hoje no seu dia), ou mais cegos ainda do que ele, queremos(?) permanecer nas nossas inseguranças fugindo à vida, enterrando a cabeça na areia para não ver, (ou, como bem dizes, construindo muros).

    Abraço grande

  3. José Frazão diz:

    Muros e medos são, muitas vezes, um verdadeiro binómio instintivo, no coração do homem, tanto nos nossos dias, como em todos os tempos.
    Muros e medos são, muitas vezes, uma realidade sintomática de reciprocidade, tornando-se cada uma a projecção terminal da outra. Lá diz o povo: “É o medo que guarda a vida”.
    Sabemos que, em certos casos, o sentimento instintivo do medo pode tornar-se equivalente à prudência evangélica: “Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16b).
    Mais uma vez, obrigado, D. António Couto, por mais uma, nova e bela, rica e criativa, clara e objectiva, reflexão…
    Realidades como: egoísmo, ambição, rivalidade, rotura, agressividade, divisionismo ou separação corporizam, afinal, o medo, que não deixa a vida acontecer e crescer.
    São, por isso, realidades inaceitáveis numa sociedade que é chamada a despertar para a consciência de si mesma, da sua dignidade e da sua vocação ao crescimento.
    Nos dias de hoje, não faltam sintomas desta realidade endémica e anémica. Não é com esta sintomatologia, que a vida se desenha na perspectiva de um futuro risonho
    Pelo contrário, tudo o que nos possa conduzir e levar à união e à comunhão, pela proximidade, relação, confiança, partilha, entrega e doação – suscitará em cada um de nós a esperança fundada de almejarmos o destino feliz para que caminhamos.
    A vida, aliás, é sempre uma realidade plural de relação e comunhão.
    Negar ou impedir a manifestação desta verdade, é apenas uma tentativa de desacreditar a beleza e a riqueza da vida, como Deus a sonha e a faz prosseguir em todos nós.
    Bem-haja, D. António Couto.

  4. josé oliveira diz:

    OLÁ.
    Que bom seria, se os muros fossem tal como as paredes do coração. Se só existissem para suportar o que nos é necessário.
    Até sempre!

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