O DIVINO QUE SE PODE VER DO HUMANO!

Julho 5, 2009

 

1. Um Deus humano, muito humano, entra hoje em nossa casa, ao lermos o episódio de Marcos 6,1-6. Visto bem de perto, é um Deus também como nós. Com rosto, coração, mãos de terra e de amor. Deus humanado. Deus humanado, e, todavia, Deus, fazendo maravilhas entre nós, debruçando-se com amor infinito sobre os doentes, os pobres, os pequeninos, os marginalizados. Fazendo a nossa terra produzir novos e insuspeitados frutos. É esta a áurea que rodeia Jesus, quando agora reentra em Nazaré ouBOBHEU~1 em nossa casa.

 2. Mas nós, como eles, queremos sempre ver um Deus espectacular, que faça mirabolâncias incríveis, que nos vençam e convençam. É quase sempre esta concepção (falsa) que fazemos de Deus. Mas é verdade que, para incarnar, Deus teve necessidade de uma mãe autenticamente mãe. Não mudou a condição humana de Maria. Ela permaneceu como era, uma mulher da província, numa casa pobre, numa vida modesta. E Deus deixou estar as coisas como estavam. Não transfigurou nada daquilo em que tocava. Não modificou as leis da natureza. E Maria foi aprendendo a ver o muito de divino que se pode ver no humano: Deus no olhar de uma criança, no seu sorriso puro, num rapaz sentado à mesa ou a brincar. Aprender a escutar a voz de Deus na voz dos homens, por mais desgraçada que ela seja. Maria inaugurou a verdadeira contemplação cristã.

 3. Os seus conterrâneos têm acerca dele um conhecimento anagráfico muito superior ao do leitor. O leitor apenas sabe que Jesus provém de Nazaré, pois foi disso oportunamente informado (Marcos 1,9). Os conterrâneos de Jesus sabem muito mais. Sabem a sua profissão (carpinteiro) e conhecem a sua família (mãe, irmãos, irmãs) e a sua residência (Marcos 6,3). Mas não sabem «DE ONDE» (póthen) vem a sua competência. Os prodígios que faz e as coisas maravilhosas que diz não podem provir daquela carne humilde. A terra impede-nos de ver o céu. Razão tinham os mestres da sabedoria judaica, quando deixaram escrito, no tratado Sukkôt [= Tendas] da Mishna, que as Tendas levantadas no campo ou nos terraços das casas nunca deviam ter um tecto tão espesso, que não deixasse ver o céu! É fundamental podermos ver sempre o céu, e que o céu nos possa sempre ver a nós!

 4. Na verdade, na mentalidade antiga e na nossa mentalidade moderna envelhecida, são as raízes geográficas e familiares que determinam a identidade e a capacidade de alguém. Pois bem, é apontando as humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares de Jesus, que os seus conterrâneos exclamam acerca dele: «‘DE ONDE’ (póthen) a ESTE estas coisas, e que sabedoria é esta a ESTE dada, e os prodígios que pelas mãos d’ELE vêm?» (Marcos 6,2). Como quem diz: «Não pode ser!». Em nome da terra, negamos o céu. Como se o céu fosse dedutível da terra!

 5. Mas fica lá aquele «DE ONDE» (póthen), que atravessa os Evangelhos, e que aponta sempre para Deus. Aventuremo-nos um pouco nesta travessia: Em pleno deserto, os discípulos de Jesus, cépticos, perguntam: «‘DE ONDE’ (póthen) poderá alguém saciar estas pessoas de pães num lugar deserto?» (Marcos 8,4). Mas Jesus, que bem sabe o que vai fazer (João 6,6), pergunta a Filipe, como se de um teste se tratasse: «‘ONDE’ (póthen) compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). A questão não é apenas sobre comprar. É sobre «ONDE comprar». Esse «ONDE» (póthen) indica a origem divina, e já tinha sido ouvido em João 1,48, quando Natanael pergunta a Jesus: «‘DE ONDE’ (póthen) me conheces?» Será também ouvido em João 2,9, em que o narrador nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia ‘DE ONDE’ (póthen) era» a água feita vinho. Da mesma forma, Nicodemos também não sabe, acerca do Espírito, «‘DE ONDE’ (póthen) vem nem para onde vai» (João 3,8). Tal como a mulher samaritana não sabe ‘DE ONDE’ (póthen) Jesus tira a água viva (João 4,11). E as autoridade de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é» (João 7,27). E, mais à frente, em polémica com os fariseus, Jesus afirma: «Eu sei ‘DE ONDE’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) venho» (João 8,14). E na cena da cura do cego de nascença, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘DE ONDE’ (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos: «‘DE ONDE’ (póthen) és TU?» (João 19,9). E, no Evangelho de Lucas, Isabel também exclama: «‘DE ONDE’ (póthen) a mim isto: “Que venha a mãe do meu Senhor ter comigo?”» (Lucas 1,43).

 6. Esta interrogação retórica sistematicamente repetida (DE ONDE?) deve ir abrindo os olhos do leitor. Os conterrâneos de Jesus podem não saber «DE ONDE» a ESTE estas coisas…», mas o leitor do Evangelho hoje, que é o conterrâneo e contemporâneo de Jesus hoje, tem obrigação de o saber, dadas as inúmeras indicações da Escritura e as fissuras da ramagem que cobre as nossas tendas.

 António Couto

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