MISSÃO ESSENCIAL

Julho 12, 2009

 

1. Lê-se exemplamente no Evangelho de Marcos: «13E ELE sobe para a montanha e chama para SI aqueles que ELE queria, e andaram para ELE. 14E ELE fez Doze, para que estivessem com ELE, e para ELE os enviar a pregar 15e ter autoridade para expulsar os demónios» (Marcos 3,13-15).

 2. O centro é claramente Jesus. É Ele que chama quem quer. É para Ele queev2007_07 se dirigem os que são chamados. É Ele que os FAZ (verbo da criação, só usado neste contexto, aqui, em todos os Evangelhos). O seu serviço é PRIMEIRO, PRIMEIRO, PRIMEIRO, estar com Jesus, e só depois serem por Ele enviados numa missão frágil-forte de mostrar sem demonstrar, testemunhar com a vida (é essa a metodologia da pregação, verbo kêrýssô) e limpar ódios e raivas e ciúmes e invejas e mentiras e violências (os demónios de ontem e de sempre) e estabelecer o amor e a paz e a alegria e a concórdia e a verdade.

 3. Hoje, a Igreja Una e Santa proclama e escuta o Evangelho de Marcos 6,6b-13, cujo início soa assim: «7E chamou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, e dava-lhes autoridade sobre os espíritos impuros. 8E ordenou-lhes que não levassem para o caminho senão um bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro na cintura; 9que fossem  calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas…».

 4. Salta à vista que este episódio significativo da missão confiada aos Doze (Marcos 6,6b-13) segue o primeiro episódio que transcrevemos (Marcos 3,13-15). Mas é ainda notório que o episódio de hoje se situa, situação não casual, entre o desprezo de Jesus na sua pátria (Marcos 6,1-6) e o martírio de João Baptista (Marcos 6,14-21). Fica claro que, no Evangelho de Marcos, a missão se desenrola entre o desprezo e o martírio.

 5. Mas é ainda claro que a missão dos Doze parte sempre de Jesus, e não deles ou de nós: foi Ele que os começou a enviar. E o facto de os enviar dois a dois é ainda sinal claro de que ninguém vai em nome próprio com uma mensagem própria (na Evangelização não há lugar para franco-atiradores), mas como testemunhas de uma mensagem que receberam de Jesus (Deuteronómio 19,15; João 8,17). «Dois a dois» permite ainda identificar a presença de um terceiro, que é mesmo o fundamental: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu Nome, Eu estarei no meio deles» (Mateus 18,20). Com Jesus no meio: passo fundamental. Mateus 10,10 manda retirar também as sandálias (só Mateus): é outra forma de dizer que o missionário vai sempre acompanhado do Deus santo. Ver a atitude de Moisés e de Josué no Sinai e na Terra Prometida (Êxodo 3,5; Josué 5,15). A intensidade do Evangelho, a santidade, a de Deus e a nossa, «a “medida alta” da vida cristã ordinária» (João Paulo II).

6. É santo o caminho do Evangelho. Sacudir o pó dos pés, ao sair das localidades não acolhedoras (Marcos 6,11), reclama a remoção do pó profano e impuro num caminho santo.

 7. Salta ainda à vista que estes missionários nada devem levar, excepto a mensagem que lhes é confiada. «Nem pão, nem alforge, nem dinheiro, nem duas túnicas» (Marcos 6,8-9). Vão acompanhados e guiados pela providência de Deus que é o seu sustento, conforme a lição de Jesus e do Servo (Isaías 42,1); mas ver também Elias, que bebe da torrente e é alimentado pelos corvos (1 Reis 17,4-6), e o Rei messiânico que, a caminho, bebe da torrente (Salmo 110,7).

8. Mas é ainda de notar que esta primeira missão apareça fora de tempo e lugar: na verdade, não é dito para onde Jesus tenha enviado estes missionários, nem onde e por quanto tempo tenham pregado. Tão-pouco somos informados da reacção dos seus ouvintes, nem da forma como foram recebidos. Parece tudo propositadamente esfumado. Clara e luminosa, ao contrário, é a relação dos Doze com Jesus: é Ele que os escolhe e chama para estarem sempre com Ele (Marcos 3,13-14); é Ele que os envia e lhes dá autoridade (Marcos 6,7), e é a Ele que retornam para lhe relatar o que fizeram (Marcos 6,30: próximo domingo). João Baptista (Marcos 1,2-4) e Jesus (Marcos 9,37) foram enviados por Deus. Os Doze são enviados por Jesus. Modo claro de o Evangelho mostrar que Jesus assume o lugar de Deus, Ele é Deus. Nós somos sempre apenas enviados. Mas não estamos sós. Nem perdidos. Mas amados.

 António Couto

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