JESUS, BOM PASTOR, E O PÃO!

Julho 18, 2009

 

1. Eis o texto do Evangelho deste Domingo XVI do Tempo Comum, que ajesus_leading_flock_sheep_md_wht Igreja Una Santa proclama, escuta e ama: «6,30E reúnem-se os Apóstolos junto de JESUS e contam-LHE todas as coisas que tinham feito e ensinado. 31ELE diz-lhes: “Vinde vós, à parte, para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Eram, na verdade, muitos os que vinham e partiam, e nem sequer para comer tinham tempo. 32E partiram numa BARCA para um lugar deserto, à parte. 33Viram-nos, porém, partir, e sabendo, muitos, a pé, de todas as cidades, correram e chegaram antes deles. 34E tendo saído da BARCA, viu uma grande multidão e SENTIU COMPAIXÃO (esplagchnístê) deles, porque eram como ovelhas sem pastor» (cf. Is 53,6). E COMEÇOU A ENSINAR-lhes (êrxato didáskein) muitas coisas» (Marcos 6,30-34).

 2. Algumas notas: A) vê-se bem que Jesus é a Pessoa que reúne os Apóstolos (única menção explícita, pelo nome, não pelo verbo, em Marcos). É Jesus que os chama, que os escolhe, que os reúne, que os envia; é para Ele que voltam, é a Ele que prestam contas. B) Completamente agrafados a Jesus, é dito que ensinaram, o verbo de Jesus. De facto, o verbo «ensinar» é usado em Marcos 15 vezes para Jesus – Ele é o Mestre –, e só aqui, esta única vez, para os Apóstolos. C) É Ele que os leva para o lugar do repouso, à parte, vincando mais uma vez mais o «a sós com Jesus». D) Em todo o Evangelho, a Barca é o lugar em que só entram Jesus e os Apóstolos! E quando falta lá Jesus, há problemas. Desde Tertuliano, que a Barca simboliza a Igreja. E) A corrida desigual da Barca nas águas e das multidões na terra resulta na vitória da multidão. Jesus é procurado por todos. Ele é a chave da vida de todos. F) Ao ver o que vê, Jesus sente compaixão, que é amor entranhado, maternal, e reúne também, com amor, estas ovelhas dispersas. G) Se o texto continuasse na chamada primeira «multiplicação» dos pães em mundo judaico (Marcos 6,35-44), viria a toda a luz o contraponto entre o comportamento de Jesus e o dos seus Apóstolos/Discípulos. Deixamos aqui um diagrama exemplar:

Jesus Discípulos
Misericórdia                                            Acolher                                                   Ensinar                                                           Dar                                                        Condividir Insensibilidade                                  Excluir                                                Mandar embora                                   Comprar                                                 Cada um para si

 3. Há uma nota muito significativa no final do texto, que refere que Jesus «começou a ensinar». Nota importante. Na verdade, este dizer é usado três vezes no texto de Marcos em lugares claramente estratégicos: 1) em Marcos 4,1, quando Jesus começou a ensinar a SEMENTE; 2) aqui, em Marcos 6,34, quando Jesus se prepara para ensinar o PÃO; 3) em Marcos 8,31, quando após a confissão de Pedro, certa nas palavras, errada nos conteúdos e nos raciocínios feitos, Jesus começou a ensinar a PAIXÃO. Para bom entendedor, está aqui a verdadeira história de Jesus: a SEMENTE cai na terra e MORRE; se não morrer, não dará fruto: é a PAIXÃO. Mas se morrer, dará muito fruto: é o PÃO da VIDA, a EUCARISTIA… O IV Evangelho opera uma extraordinária operação de contracção para mostrar no processo da semente o pão e a paixão, que o mesmo é dizer, o próprio JESUS: «Se o grão de trigo, tendo caído na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto» (João 12,24).

 4. Ficou uma última nota por desvendar. E é que, em Marcos 6,30, ouviu-seEucaristia05 o nome JESUS. Significativamente, só voltará a ser ouvido (no texto original, que as modernas traduções não respeitam!) em Marcos 8,27, exactamente 89 versículos depois! Neste imenso intervalo, entre Marcos 6,31 e 8,26 – 89 versículos! (mais de 13 % do texto de Marcos que conta 677 versículos) – em que desaparece o nome JESUS, emergirá no relato o nome PÃO por 22 vezes! Por isso, esta secção (Marcos 6,30-8,27) é conhecida por «secção dos pães». Compreenda-se bem. O narrador esconde o nome JESUS para levar o leitor a descobri-lo no nome PÃO! Mostrar é uma boa acção pedagógica. Mas esconder é ainda uma acção mais eficaz. Verifiquem o comportamento das crianças! Extraordinária pedagogia eucarística de Marcos. Aí fica o diagrama:

         JESUS              PÃO              JESUS
          6,30           6,31-8,26                8,27
         89 versículos!  

 5. Infelizmente, o ouvinte de Domingo não vai poder verificar estes elementos, dado que, nos próximos cinco Domingos vai ser proclamado João 6, o chamado «Discurso do Pão da Vida», outro enorme texto, que seguramente muito nos ensinará e mais ainda nos surpreenderá. Quando voltarmos a ouvir Marcos, estaremos no XXII Domingo, dia 30 de Agosto!

 António Couto

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A LIÇÃO DA POMBA

Julho 18, 2009

 

1. «Por que é que, perguntam os rabinos, a Escritura compara Israel a umapombabranca_042008 pomba?» A esta pergunta, um dos mestres responde com esta parábola: “Quando Deus criou a pomba, ela voltou para junto do seu criador, e lamentou-se: – Senhor do universo, há um gato que corre sempre atrás de mim e me quer matar, e eu tenho de correr o dia inteiro com estas patas tão curtas. Então Deus teve piedade da pobre pomba, e pôs-lhe duas asas. Mas, pouco depois, a pomba foi outra vez, a chorar, ter com o seu criador: – Senhor do universo, o gato continua a correr atrás de mim, e se já antes tinha tanta dificuldade em fugir dele com estas patas tão pequenas e frágeis, agora, com estas asas tão pesadas em cima, ainda é pior. Então Deus sorriu e disse: – Mas eu não te pus essas asas, para que tu as carregues, mas para que elas te carreguem a ti. O mesmo vale para Israel, conclui o mestre. Quando Israel se lamenta dos mandamentos, Deus responde: – Não vos dei os mandamentos para que vós os transporteis como um peso, mas para que eles vos transportem a vós”».

 2. O mito fundador da modernidade, e o único «relato» que, na queda dos relatos, ainda persiste, é a liberdade. Segundo este «relato», o homem não é apenas um «eu» que, esquecido de que foi gerado (a sua mãe), se autogera (o cogito cartesiano), mas é sobretudo um «eu» que naturalmente e racionalmente caminha para a própria realização, seja ao nível da natureza, da história, do ser ou da vida eterna. Esta concepção de liberdade vê o homem em expansão, único senhor de si, recusando e condenando peremptoriamente a obediência do homem a Deus, por não ser conciliável com a autonomia do homem. A essência da modernidade, como a tematizou Immanuel Kant na sua «Resposta à pergunta: “O que é o iluminismo?”», está no «Ousa saber» (sapere aude, de horaciana memória), que implica a coragem de sair do «estado de menoridade», cortando todas as ligações com o que é exterior ao «eu» (mito, tradição, religião), e afirmando a razão humana como independente de qualquer vínculo exterior. A essência da modernidade é a instituição da autonomia como única chave de leitura do humano, a que acresce a afirmação de que qualquer forma de heteronomia é alienação. Está bom de ver que Deus, e os mandamentos de Deus, não têm, nesta concepção, qualquer lugar.

 3. Ao contrário, na Bíblia, o mandamento de Deus, porque vem de fora da minha espontaneidade e a interrompe, é o único que pode instaurar verdadeiramente a minha liberdade: não como espontaneidade nem como fim, mas como decisão e responsabilidade. Na verdade, fora do mandamento, a liberdade humana seria apenas espontaneidade, em que o «eu», entre a multiplicidade de escolhas que se lhe oferecem, escolheria sempre a que mais o satisfaz. Mas uma liberdade em que a escolha é escolha do valor mais satisfatório, ou, na interpretação agostiniana, uma «delectatio victrix», «sedução vitoriosa», mais do que afirmação da liberdade, é dela uma «elegante supressão» (Armido Rizzi).

 4. Contestando a racionalidade como horizonte último, a Bíblia institui um novo humano em que o ultimal não é a palavra lógica, mas a palavra dialógica, não é a ideia, mas a relação, não é o conceito, mas o rosto. Numa palavra, não o logos, que tem a ver com o mundo como objecto e o «sistematiza», mas o dia-logos, palavra partida, em que o dizer do «eu», interrompido pelo dizer do outro, fica para sempre subtraído à tentação do fechamento, da perfeição e da totalidade.

 5. É conhecida a subtileza da explicação rabínica dos midrashîm acerca de Gn 4,8, em que Caim diz para o seu irmão Abel: «Saiamos para o campo». E depois, estando no campo, Caim atirou-se sobre Abel e matou-o. Três rabinos interrogam-se sobre aquilo que, depois de saírem para o campo, terão dito um ao outro Caim e Abel. Avança o primeiro: «Começaram os dois a discutir. Caim disse: “A terra em que te encontras é minha”. E Abel retorquiu: “A pele do carneiro com que andas vestido é minha”. E, naquele momento, Caim atirou-se sobre Abel e matou-o». Disse o segundo: «Os dois puseram-se a discutir. Caim disse: “Esta mulher é minha”. E Abel retorquiu: “Não, é minha”. E, naquele momento, Caim lançou-se sobre Abel e matou-o». Chegou a vez do terceiro: «Os dois puseram-se a discutir. Caim disse: “Este templo é meu”. E Abel retorquiu: “Não, é meu”. E, naquele momento, Caim matou Abel». Como se vê, é a vontade de posse, a transformação em «meu» daquilo que não pode ser «meu», porque pode somente ser visto como um dom, que faz nascer a violência. Negação do dom, caminho da posse e da violência. É assim que ficamos sós, completamente sós, senhores absolutos do campo (Gn 4,8) ou da planura (Gn 11,2),/ mas nada sabemos construir em altura. Veja-se a família, a política, a escola, o tribunal, o hospital, a igreja. Tudo tão plano e chato,/ com casas, mas sem casa,/ com mesas, mas sem mesa,/ com fardas, mas sem vestido,/ sem hábito,/ nus por dentro. Pautas enlatadas, marchas militares ou fúnebres. Só o Rosto ou o mandamento verdadeiro, vindo de fora e acolhido à porta com amor, surpresa e maravilha, dom, evento, advento, pode romper e fecundar este areal espesso como o gesso. Falo do alento de Deus, beijo de Deus, no pó que somos (Gn 2,7). Só ele pode transformar estas pedras em filhos e irmãos.

 6. As asas são para voar. Não podem pesar.

 António Couto