A LIÇÃO DA POMBA


 

1. «Por que é que, perguntam os rabinos, a Escritura compara Israel a umapombabranca_042008 pomba?» A esta pergunta, um dos mestres responde com esta parábola: “Quando Deus criou a pomba, ela voltou para junto do seu criador, e lamentou-se: – Senhor do universo, há um gato que corre sempre atrás de mim e me quer matar, e eu tenho de correr o dia inteiro com estas patas tão curtas. Então Deus teve piedade da pobre pomba, e pôs-lhe duas asas. Mas, pouco depois, a pomba foi outra vez, a chorar, ter com o seu criador: – Senhor do universo, o gato continua a correr atrás de mim, e se já antes tinha tanta dificuldade em fugir dele com estas patas tão pequenas e frágeis, agora, com estas asas tão pesadas em cima, ainda é pior. Então Deus sorriu e disse: – Mas eu não te pus essas asas, para que tu as carregues, mas para que elas te carreguem a ti. O mesmo vale para Israel, conclui o mestre. Quando Israel se lamenta dos mandamentos, Deus responde: – Não vos dei os mandamentos para que vós os transporteis como um peso, mas para que eles vos transportem a vós”».

 2. O mito fundador da modernidade, e o único «relato» que, na queda dos relatos, ainda persiste, é a liberdade. Segundo este «relato», o homem não é apenas um «eu» que, esquecido de que foi gerado (a sua mãe), se autogera (o cogito cartesiano), mas é sobretudo um «eu» que naturalmente e racionalmente caminha para a própria realização, seja ao nível da natureza, da história, do ser ou da vida eterna. Esta concepção de liberdade vê o homem em expansão, único senhor de si, recusando e condenando peremptoriamente a obediência do homem a Deus, por não ser conciliável com a autonomia do homem. A essência da modernidade, como a tematizou Immanuel Kant na sua «Resposta à pergunta: “O que é o iluminismo?”», está no «Ousa saber» (sapere aude, de horaciana memória), que implica a coragem de sair do «estado de menoridade», cortando todas as ligações com o que é exterior ao «eu» (mito, tradição, religião), e afirmando a razão humana como independente de qualquer vínculo exterior. A essência da modernidade é a instituição da autonomia como única chave de leitura do humano, a que acresce a afirmação de que qualquer forma de heteronomia é alienação. Está bom de ver que Deus, e os mandamentos de Deus, não têm, nesta concepção, qualquer lugar.

 3. Ao contrário, na Bíblia, o mandamento de Deus, porque vem de fora da minha espontaneidade e a interrompe, é o único que pode instaurar verdadeiramente a minha liberdade: não como espontaneidade nem como fim, mas como decisão e responsabilidade. Na verdade, fora do mandamento, a liberdade humana seria apenas espontaneidade, em que o «eu», entre a multiplicidade de escolhas que se lhe oferecem, escolheria sempre a que mais o satisfaz. Mas uma liberdade em que a escolha é escolha do valor mais satisfatório, ou, na interpretação agostiniana, uma «delectatio victrix», «sedução vitoriosa», mais do que afirmação da liberdade, é dela uma «elegante supressão» (Armido Rizzi).

 4. Contestando a racionalidade como horizonte último, a Bíblia institui um novo humano em que o ultimal não é a palavra lógica, mas a palavra dialógica, não é a ideia, mas a relação, não é o conceito, mas o rosto. Numa palavra, não o logos, que tem a ver com o mundo como objecto e o «sistematiza», mas o dia-logos, palavra partida, em que o dizer do «eu», interrompido pelo dizer do outro, fica para sempre subtraído à tentação do fechamento, da perfeição e da totalidade.

 5. É conhecida a subtileza da explicação rabínica dos midrashîm acerca de Gn 4,8, em que Caim diz para o seu irmão Abel: «Saiamos para o campo». E depois, estando no campo, Caim atirou-se sobre Abel e matou-o. Três rabinos interrogam-se sobre aquilo que, depois de saírem para o campo, terão dito um ao outro Caim e Abel. Avança o primeiro: «Começaram os dois a discutir. Caim disse: “A terra em que te encontras é minha”. E Abel retorquiu: “A pele do carneiro com que andas vestido é minha”. E, naquele momento, Caim atirou-se sobre Abel e matou-o». Disse o segundo: «Os dois puseram-se a discutir. Caim disse: “Esta mulher é minha”. E Abel retorquiu: “Não, é minha”. E, naquele momento, Caim lançou-se sobre Abel e matou-o». Chegou a vez do terceiro: «Os dois puseram-se a discutir. Caim disse: “Este templo é meu”. E Abel retorquiu: “Não, é meu”. E, naquele momento, Caim matou Abel». Como se vê, é a vontade de posse, a transformação em «meu» daquilo que não pode ser «meu», porque pode somente ser visto como um dom, que faz nascer a violência. Negação do dom, caminho da posse e da violência. É assim que ficamos sós, completamente sós, senhores absolutos do campo (Gn 4,8) ou da planura (Gn 11,2),/ mas nada sabemos construir em altura. Veja-se a família, a política, a escola, o tribunal, o hospital, a igreja. Tudo tão plano e chato,/ com casas, mas sem casa,/ com mesas, mas sem mesa,/ com fardas, mas sem vestido,/ sem hábito,/ nus por dentro. Pautas enlatadas, marchas militares ou fúnebres. Só o Rosto ou o mandamento verdadeiro, vindo de fora e acolhido à porta com amor, surpresa e maravilha, dom, evento, advento, pode romper e fecundar este areal espesso como o gesso. Falo do alento de Deus, beijo de Deus, no pó que somos (Gn 2,7). Só ele pode transformar estas pedras em filhos e irmãos.

 6. As asas são para voar. Não podem pesar.

 António Couto

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5 Responses to A LIÇÃO DA POMBA

  1. José Frazão diz:

    Gostei desta parábola da pomba… Como toda a parábola, ela aponta-nos para uma grande verdade. Trata-se de uma parábola que, por certo, em muitos casos poderia (ou poderá) aplicar-se a um qualquer vulgar cristão dos nossos dias. Tantas vezes, tal como a pomba a argumentar com Deus, encontramos gente que brama e se queixa, de Deus e contra Deus, exprimindo, afinal, o que pensam e sentem, referindo a Lei de Deus e a Lei da Igreja como um simples fardo, pesado, opressivo, não libertador e impeditivo de a pessoa ser feliz e livre, para poder gozar e curtir a vida, a seu belo prazer…
    Tantas vezes, se põe o acento no lado proibitivo, exigente e punitivo da Lei (de Deus e da Igreja).
    Ideia corrente, embora errada, é o que facilmente se ouve: “Ser Cristão é uma prisão e não uma libertação”. A verdade, porém, é exactamente o oposto, e há que fazer passar a mensagem, recordando, com fé e convicção, as Palavras de Cristo: “A verdade vos libertará”, recordando igualmente a auto-denominação que Ele fez de si próprio: “Eu sou o caminho, A VERDADE e a vida”. Ele, que, afinal, com a sua Palavra e a sua acção, se tornou para todos o verdadeiro libertador e salvador.
    Obrigado, D. António Couto, porque assim, com parábolas simples, a verdade entra mais fácil, mesmo quando a vida é difícil.

  2. fatima oliveira diz:

    Não conheço pessoalmente D. Antonio Couto . Porém após leitura de seus posts, descobro a grandeza de alma onde coexiste uma sensibilidade e espiritualidade incomuns. De uma forma simples e simultaneamente profunda, lida com questões com as quais, nós os cristãos somos tantas vezes confrontados sob o olhar crítico e sarcástico de quem ousa não acreditar, ousa não ter fé, ousa “deitar fora” ou os bens espirituais que lhes são gratuitamente distribuídos por Deus, bens que naturalmente possuimos. Admito que haja quem não tenha conhecimento da posse desses bens. Aí reside a necessidade do empenho missionário de quantos tendo conhecido os dons de Deus partilhem com alegria, pelo exemplo da sua vida o quanto vale a pena ser discípulo. Sim. “As asas são para voar…” libertar…
    O Evangelho revela o caminho da libertação. Da renúncia à escravidão. Vale a pena!

  3. Maria Alexandrina S.Leandro diz:

    Com estes comentátios do Saramago, penso que os que sabem mais da nossa Palavra SAGRADA A BIBLIA deveriam
    escrever mais para os não sabem ler a BIBLIA como nós cristãos lendo-a nem sempre a entenden sobretudo o Novo Testamento. Deveríamos aproveitaresta polémica para uma campanha EM CASA DE CADA CRISTÃO HAVER UMA BIBLIA ABERTA, e lendo-a. E não comprar livros do Saramago, Rezar pela sua CONVERSÃO_____________________________________________________

  4. Piedade Malheiro Reymao diz:

    Obrigada pelas palavras tão simples e boas entendedoras como a parábola da pomba e perceber que Israel, somos cada um de nós com nome próprio. E como sempre tudo que vem de Deus é simples.

  5. Obrigado Hashem(DEUS)por ter tido misericórdia de nós, em nos conceder duas asas para voar (duas tábuas, mandamentos) para escaparmos da morte (das garras do gato). SHALOM !

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