«ONDE COMPRAREMOS PÃO…»


1. Configuração do texto

«6,1Depois disto, partiu (apêlthen: aor2 de apérchomai) JESUS para anuevo12 outra margem do mar (péran tês thalássês) da Galileia ou de Tiberíades. 2Seguia-o (êkoloúthei: impf. de akolouthéô) agora uma MULTIDÃO GRANDE (óchlos polýs), porque VIAM (etheôroun: impf. de theôréô) os sinais (tà sêmeîa) que fazia (epoíei: impf. de poiéô) nos doentes. 3Partiu então JESUS para a montanha, e lá se sentava (ekáthêto: impf. de káthêmai) com os seus DISCÍPULOS.

                                  4Estava próxima a Páscoa, a festa dos JUDEUS.

 5Levantando então JESUS os olhos, e VENDO (theasámenos: part. aor. de theáomai) que uma MULTIDÃO GRANDE vem para ele, diz a FILIPE:

               “ONDE (póthen) COMPRAREMOS (agorázô) pão para que eles comam?”

 6Isto, porém, dizia, para o pôr à prova, pois, na verdade, ELE sabia o que ia fazer.

7Respondeu-lhe FILIPE: “Duzentos denários de pão não são suficientes para que cada um deles receba (lambánô) um bocadinho”.

8Diz-lhe um dos seus DISCÍPULOS, ANDRÉ, o irmão de Simão Pedro: 9“Está aqui um RAPAZITO (paidárion) que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos (opsária); mas o que é isto para tanta gente?”

10Disse JESUS:

               “Fazei as PESSOAS (ánthrôpoi) reclinar-se (anapíptô)”.

 Havia MUITA ERVA (chórtos) naquele lugar. Reclinaram-se então os HOMENS (ándres) em número de cerca de cinco mil. 11RECEBEU (élaben: aor2 de lambánô) então JESUS os pães, e, TENDO DADO GRAÇAS (eucharistêsas: part. aor. de eucharistéô), DISTRIBUIU (diédôken: aor. de diadídômi) aos que estavam reclinados, e o mesmo fez com os peixinhos, tanto quanto queriam.

12E quando foram saciados (eneplêsthêsan: aor. pass. de empímplêmi), diz aos seus DISCÍPULOS:

 “Recolhei (synágô) os pedaços que sobraram (perisseúô), para que não se perca nenhum”.

 13Recolheram então e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram (perisseúô) dos que tinham comido.

14Então as PESSOAS (ánthrôpoi), VENDO (idóntes: part. aor2 de horáô) o sinal (sêmeîon) que ele tinha feito, diziam: “Este é verdadeiramente o profeta, o-que-vem-ao-mundo (ho erchómenos: part. pres. de érchomai) eîs tòn kósmon”.

15Então JESUS, sabendo que estavam para vir buscá-lo para o fazer rei, retirou-se novamente, só (mónos), para a montanha» (Jo 6,1-15).

 2. Tempo de leitura

Como dissemos no último Comentário a Marcos 6,30-34, durante os próximos cinco Domingos (desde o Domingo XVII ao Domingo XXI) proclama-se no Evangelho (sempre proclamado; nunca lido) da liturgia dominical o grande texto de João 6. Marcos só será retomado no Domingo XXII, em 30 de Agosto. Para efeitos práticos e para uma melhor articulação e compreensão, aperesentamos aqui uma leitura do inteiro texto de João 6, que iremos saboreando ao longo destes cinco Domingos. O texto de João 6 pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdução ou preparação do cenário, engloba os vv. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multidão, os discípulos), o lugar (na «outra margem do mar da Galileia», na «montanha») e o tempo («estava próxima a Páscoa dos judeus»); a segunda Parte, que se estende pelos vv. 5-15, abre com uma pergunta pedagógica de Jesus dirigida a Filipe («Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?»), não correctamente respondida por Filipe e André, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os vv. 16-21, mostra-nos os discípulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os vv. 16-22, apresenta-nos um novo começo, no dia seguinte, mostrando-nos a multidão que nota a ausência de Jesus e parte à sua procura para Cafarnaum; a quinta Parte, que compreende a longa extensão de texto entre os vv. 25-59, traz para a cena a importante discussão, travada entre Jesus e a multidão ou os judeus, sobre o pão vindo do céu; a sexta Parte, que contempla os últimos versículos (vv. 60-71), estende a discussão aos discípulos, mostrando a deserção de muitos (vv. 60-66), em contraponto com a confissão de fé de Pedro (vv. 67-71)[1].

 Dois Capítulos à frente de Jo 4, em Jo 6[2], diz-nos o narrador que Jesus subiu à montanha, que se sentou lá com os seus discípulos, e que uma grande multidão acorria a Jesus (Jo 6,3 e 5). É nessas circunstâncias que Jesus retoma o tema do alimento. Descendo agora ao nível dos discípulos, Jesus diz a Filipe: «Onde (póthen) compraremos (agorázô) pão para que eles comam?» (Jo 6,5). De facto, o verbo «comprar» é corrente nos lábios dos discípulos, mas é estranho na boca de Jesus. No cenário anterior, de Jesus e da Samaritana, os discípulos passam quase o tempo todo a comprar, enquanto Jesus fala de dar e dá-se mesmo.

Na chamada «primeira multiplicação dos pães», que podemos ler nos Evangelhos de Mateus e de Marcos, Jesus recusa mesmo a solução de «comprar» (agorázô), avançada pelos discípulos, e propõe a de «dar» (dídômi) (Mt 14,15-16; Mc 6,36-37)[3]. Por que será, então, que Jesus fala agora de «comprar», ainda para mais conjugando o verbo na 1.ª pessoa do plural, Ele incluído: «Onde compraremos»? Mas a questão não é apenas sobre comprar. É sobre «Onde comprar». Face à lógica da misericórdia, da condivisão e da partilha proposta por Jesus, já os discípulos, cépticos, se tinham perguntado: «‘De onde’ (póthen) poderá alguém saciar estas pessoas de pães num lugar deserto?» (Mc 8,4). Esse «Onde» (póthen) já tinha sido ouvido em Jo 1,48, quando Natanael pergunta a JESUS «‘De onde’ (póthen) me conheces?» Será também ouvido em Jo 2,9, em que o narrador nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia ‘de onde’ (póthen) era» a água feita vinho. Da mesma forma, Nicodemos também não sabe, acerca do Espírito, «‘de onde’ (póthen) vem nem para onde vai» (Jo 3,8). Tal como a mulher samaritana não sabe ‘de onde’ (póthen) Jesus tira a água viva (Jo 4,11). E as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá ‘de onde’ (póthen) Ele é» (Jo 7,27). E, mais à frente, em polémica com os fariseus, Jesus afirma: «Eu sei ‘de onde’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘de onde’ (póthen) venho» (Jo 8,14). E na cena da cura do cego de nascença, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘de onde’ (póthen) é» (Jo 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘de onde’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (Jo 9,30). Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos: «‘De onde’ (póthen) és TU?» (Jo 19,9)[4]. E, no Evangelho de Lucas,  Isabel também exclama: «‘De onde’ (póthen) a mim isto: “Que venha a mãe do meu Senhor ter comigo?”» (Lc 1,43). E, no Evangelho de Marcos, como no de Mateus, os conterrâneos de JESUS, apontando as Suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares[5] que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa[6], exclamam acerca d’ELE: «‘De onde’ (póthen) a ESTE estas coisas, e que sabedoria é esta a ESTE dada, e os prodígios que pelas mãos d’ELE vêm?» (Mc 6,2; cf. Mt 13,54.56).

Retornando à pergunta feita a Filipe: «Onde comparemos pão para que eles comam?» (Jo 6,5), o narrador anota outra vez com perspicácia que Jesus disse isto para pôr Filipe à prova, pois bem sabia o que havia de fazer (Jo 6,6). Com esta anotação, o narrador deixa-nos declaradamente perante uma pergunta pedagógica, pelo que ficamos à espera de saber se Filipe reúne ou não competência para resolver o problema.

Não temos de esperar muito tempo. Filipe é rápido a fazer contas, e diz logo que duzentos denários[7] de pão não chegam para que cada um receba ainda que seja só uma migalhinha (Jo 6,7). O leitor atento, mas incauto, é com certeza levado a concordar com Filipe. Se a pergunta é: «Onde comprar pão», o leitor pensará logo certamente como Filipe no dinheiro e no shopping. E será também levado a concluir que, para tanta gente, feitas as contas em termos de mercado, pouco ou nada haverá a fazer. Mas o «leitor implícito» ou «leitor modelo», que a análise narrativa ou narratologia define como aquele que está apto a fazer as operações mentais e afectivas que o mundo do relato dele requer, terá certamente estranhado que Filipe se tenha deixado levar tão depressa pelo verbo «comprar» da pergunta de Jesus[8], dado que se trata de um verbo que Jesus não só não usa, como até recusa.

André, que estava ali ao lado e que também terá ouvido a pergunta, passa a Jesus a informação preciosa de que havia ali um rapazito (paidárion)[9] que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos, mas apressou-se logo a minar a utilidade do achado, dada a imensa desproporção entre tão pouco alimento e tanta gente (Jo 6,8-9). Se a lógica de mercado de Filipe o levou – e a nós com ele – a desistir rapidamente de apresentar uma solução positiva à pergunta de Jesus, a lógica de André levou-o – e a nós outra vez também com ele – a desvalorizar os dons que descobrimos nos outros, nomeadamente nos nossos irmãos mais pequeninos.

Parece agora claro para o leitor que a pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», não obteve de Filipe a resposta adequada, e que a ajuda de André tão-pouco se terá revelado satisfatória.

Filipe ouviu a pergunta de Jesus. E André, pelos vistos, também a ouviu. Mas nem Filipe nem André sabiam que se tratava de uma prova. Só o leitor o sabe, porque foi disso informado pelo narrador. E então a pergunta agora é: e eu e tu, leitores informados, será que sabemos resolver a questão que Filipe e André deixaram sem resposta? Ou será que preferimos prestar toda a nossa atenção ao desempenho de Jesus, dado que também fomos informados de que ele sabia bem o que havia de fazer? A acção de Jesus reclama a nossa atenção.

 Soberanamente, Jesus, que bem sabia o que havia de fazer, ordenou àqueles discípulos, com certeza estupefactos, que fizessem reclinar (anapíptô) as pessoas (ánthrôpoi) para comer (Jo 6,10). O verbo usado, anapíptô, implica mesmo dispor-se à mesa para comer[10]. O narrador anota agora que «os homens (ándres) eram em número de cerca cinco mil», a que acrescenta a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (Jo 6,10). Depois, Jesus, que preside à mesa, RECEBEU (lambánô) os pães, e TENDO DADO GRAÇAS (eucharistéô), DISTRIBUIU-OS (diadídômi) ele mesmo[11] aos que estavam reclinados à mesa (anakeiménois), e o mesmo fez com os peixinhos, tanto quanto queriam (Jo 6,11). Ficámos a saber que Jesus recolheu a informação preciosa de André acerca dos pães e dos peixinhos do rapazito, e que, ao contrário de André, não os depreciou. E quando todos foram saciados (eneplêsthêsan)[12], Jesus, que preside à mesa, deu ordens aos seus discípulos para que reunissem (synágô) os pedaços que sobraram (perisseúô). Note-se que o verbo usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando curtas todas as normas e regras[13]. É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos (Jo 6,12-13), símbolo da plenitude transbordante e inesgotável[14].

De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «com-divisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»)[15].

A multidão, porém, face ao sucedido, não viu o «excesso», a superabundância da graça (Rm 5,20; 1 Tm 1,14), mas tornou-se apenas materialmente dependente de Jesus, procurando-o por toda a parte (Jo 6,24), como se de verdadeira fonte de rendimento se tratasse (velha lógica consumista). E, quando o encontra no «outro lado do mar» (Jo 6,25)[16], é duramente recriminada por Jesus, com estas palavras solenes: «Em verdade, em verdade, vos digo: “vós procurais-me, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos enchestes (chortázô)”» (Jo 6,26)[17]. E continua: «Trabalhai, não pelo alimento que perece, mas pelo que permanece até à vida eterna» (Jo 6,27).

Pouco depois, Jesus revelará: «Eu sou o pão da vida» (Jo 6,35.48) e «Eu sou o pão vivo descido do céu» (Jo 6,41.51), e retirará daí um rol de consequências em termos da sua carne e do seu sangue dados para a vida do mundo. Jesus compreende então que os judeus e os seus discípulos murmuravam por causa disso (Jo 6,61), e o narrador informa-nos que muitos deles se afastaram de Jesus (Jo 6,66). É então a hora decisiva de Jesus perguntar aos Doze: «Vós também quereis ir embora?» (Jo 6,67), ao que Simão Pedro responderá exemplarmente: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6,68).

 O leitor que seguiu atentamente tudo desde o princípio, desde a primeira pergunta pedagógica de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», e que assistiu ao falhanço das respostas dos discípulos, e que terá, porventura, verificado a sua própria incapacidade para responder, e que prestou depois toda a atenção ao desempenho de Jesus, e que viu entretanto a deserção de judeus e discípulos decepcionados, terá com certeza compreendido a última resposta de Simão Pedro: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna», como a verdadeira resposta à primeira pergunta pedagógica de Jesus[18]. Com a resposta de Pedro, fica estabelecida a conjunção entre palavra e alimento[19]. Mas falta ainda um agrafo que explique aquele estranho verbo «comprar», estranhamente usado por Jesus. É um trabalho de casa que o leitor competente tem de fazer sozinho. E nem é difícil, pois ele sabe que é preciso conhecer as Escrituras. Percorrendo-as, encontrará esta passagem de Isaías:

 «55,1Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ 2(…) Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Is 55,1-2).

 Está aqui o elo que faltava: o verbo comprar, significativamente não agrafado com dinheiro[20]. Comprar cereal sem dinheiro. Mas esta lição de Isaías reforça ainda a conjunção entre palavra e alimento, com aquela proposta: «Ouvi-me, ouvi-me, e comei!», que soa também a abrir o Livro do grande profeta: «Se vierdes e escutardes, o melhor da terra (tûb ha’arets) comereis» (Is 1,19), clarificada pelo confronto: «Mas se vos recusardes (ma’na) e vos rebelardes (marah), será a espada que vos comerá» (Is 1,20)[21]. Mas também sai esclarecida ainda aquela disjunção mostrada por Jesus entre «o alimento que perece» e «o que permanece até à vida eterna» (Jo 6,27). O que perece é a «erva» (ou «feno») (chórtos) que compramos com dinheiro e nos cala a boca e enche (chortázô) o estômago (cf. Jo 6,26). O que permanece é a palavra que Deus diz, e que é por nós ouvida, recebida e respondida. Mas esta disjunção, a que podemos agora acrescentar a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (Jo 6,10), pode ainda ser melhor explicitada se lermos outro texto de Isaías:

 «40,6(…) Toda a carne é erva (chórtos LXX),/ e toda a sua graça como a flor do campo./ 8Seca a erva (chórtos LXX) e murcha a flor,/ mas a palavra do Senhor permanece para sempre» (Is 40,6.8).

 Os leitores super-competentes, vulgo exegetas, gostam de ver na anotação de que «havia muita erva naquele lugar» a evocação do Sl 23(22),2[22]:

 «23(22),2O Senhor é meu pastor, nada me falta:/ num lugar de ‘erva verde’ (tópos chlóês LXX) me faz repousar».

 Nem reparam que o vocabulário não é o do Salmo.

O leitor instruído nas Escrituras saberá agora responder à estranha pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?» É claramente em Deus.

 Também este cenário transborda de pedagogia. Jesus que, no cenário da Samaritana, desceu ao nível da mulher da Samaria para ganhar a mulher da Samaria, desce agora ao nível dos discípulos para ganhar os discípulos. A iniciativa é sempre de Jesus. Os discípulos tinham ficado na linha do comprar. É aí que Jesus os vai buscar, formulando a pergunta: «Onde compraremos pão, para que eles comam?» Vimos atrás que o verbo «comprar» é estranho na boca de Jesus, mas usual na dos discípulos. Usando agora o verbo «comprar», Jesus desce ao nível dos discípulos. Não, porém, simplesmente para dizer com eles, mas para os levar a dizer com ele. Depois de muitos mal-entendidos e deserções, uma última interpelação de Jesus acaba por lhes dar a oportunidade de se dizerem com Jesus. A multidão é levada pelo interesse meramente material, tornando-se dependente, no mau sentido, de Jesus. É duramente recriminada por Jesus. O leitor encontra, neste cenário, um jogo de muitas surpresas, de muitos olhares. E é o leitor o que mais tem a ganhar, se verdadeiramente entrar no jogo do relato.

 António Couto


[1] Para esta organização deste longo texto, ver F. J. MOLONEY, The Gospel of John. Collegeville, Minnesota, The Liturgical Press, 1998, p. 194.

[2] Tendo em conta o cenário geográfico (Jo 4 e 6 passam-se na Samaria e Galileia, enquanto que Jo 5, 7, 9 e 10 têm lugar em Jerusalém), não faltam exegetas que queiram colocar Jo 6 imediatamente após Jo 4. Ver, por exemplo, F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 193.

[3] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, Salamanca, Sígueme, 2.ª ed., 1995, p.85.

[4] Ver J. P. HEIL, Blood and Water. The Death and Ressurrection of Jesus in John 17-21, Washington, The Catholic Biblical Association of America, 1995, p. 69-70.

[5] Os conterrâneos de Jesus têm acerca dele um conhecimento anagráfico muito superior ao do leitor. Este só sabe que Jesus provém de Nazaré (Mc 1,9). Os conterrâneos de Jesus sabem a sua profissão e conhecem a sua família (mãe, irmãos, irmãs) e a sua residência (Mc 6,3). Mas não sabem «de onde» (póthen) vem a sua competência. Ver M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco. Narratologia e cristologia, Bolonha, EDB, p. 168-169.

[6] B. WITHERINGTON III, The Gospel of Mark. A Socio-Rhetorical Commentary, Grand Rapids, Eerdmans, 2001, p. 192; É. TROCMÉ, L’Évangile selon Saint Marc, Genebra, Labor et Fides, 2000, p.158-159 e 200; C. S. KEENER, A Commentary on the Gospel of Mathew, Grand Rapids, Eerdmans, 1999, p. 395-396.

[7] Um denário corresponde ao salário de um dia. Duzentos denários ultrapassa o salário de seis meses. J. MATEOS, J. BARRETO, Il Vangelo di Giovanni. Analisi linguistica e commento esegetico, Assis, Cittadella, 5.ª ed., 1995, p. 291.

[8] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 85-86. 

[9] Diminuitivo de paîs.

[10] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 87; Y. SIMOENS, Secondo Giovanni. Una traduzione e un’interpretazione, Bolonha, Dehoniane, 2000, p. 317.

[11] Note-se o cunho muito pessoal do presidente desta mesa, que distribui pessoalmente a comida. Nos Sinópticos (Mt 14,19; Mc 6,41; Lc 9,16), são os discípulos que procedem à distribuição. X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 88-89.

[12] Aoristo passivo de empímplêmi.

[13] Th. BRANDT, Plenitud, sobreabundancia (perisseúô), in L. COENEN, E. BEYREUTHER, H. BIETENHARD (eds.), Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, III, Salamanca, Sígueme, 1983, p. 367-370.

[14] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 89-90.

[15] Ver a inteligente reflexão de C. DI SANTE, L’Eucaristia terra di benedizione. Saggi di antropologia bíblica, Bolonha, EDB, 1987; C. DI SANTE, Eucaristia. L’amore estremo, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 110-112; C. DI SANTE, Risponsabilità. L’io-per-l’altro, Roma – Fossano, Lavoro – Esperienze, 1996, p. 154-157; G. PERINI, Le domande di Gesù nel Vangelo di Marco. Approccio pragmatico: ricorrenze, uso e funzioni, Roma – Milão, Pontificio Seminario Lombardo – Glossa, 1998, p. 75.

[16] Expressão recorrente no texto (vv. 1.17.22.25). Atravessar para a outra margem é sinal de vida nova.

[17] Termo depreciativo formado de chórtos [= erva, feno] (1 Cor 3,12). M. ZERWICK, M. GROSVENOR, A grammatical analysis of the greek New Testament, Roma, Biblical Institute Press, 1981, p. 304; X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 105.

[18] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 86.

[19] A. WÉNIN, Pas seulement de pain… Violence et Alliance dans la Bible, Paris, Cerf, 1998, p. 236-237.

[20] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 86.

[21] A. WÉNIN, Pas seulement de pain…, p. 234.

[22] Ver, por exemplo, F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 198.

7 respostas a «ONDE COMPRAREMOS PÃO…»

  1. Luisinha diz:

    Gostei muito deste ensino!!
    São pequenas coisas que me passam ao lado, mas graças a si posso ver com outros olhos e ter mais onde reflectir…

    Obrigada!
    Paz e bem
    Luisinha

  2. José Frazão diz:

    Sempre que faço um comentário, – tentando exprimir o que sinto, já que assim se proporciona fazê-lo a estes escritos de D. António Couto, – reconheço com verdade que as palavras redigidas me ficam muito aquém de quanto me é dado sentir em termos da felicidade, gozo e satisfação íntima, que me dão… É muito mais vigorosa e elevada a força de alma e de vida que me dão, que a simples atestação da minha escrita, a esse respeito. Faltam-me as palavras, sobram-me os sentimentos. Lembrando a parábola da pomba, sinto-me, na expressão dos meus pensamentos, como o gato que corre atrás da pomba, sem a conseguir alcançar, mas apenas inquietar, ao fugir e esvoaçar…
    No termo desta esta longa e bela reflexão, três coisas pensei.
    Primeiro, lembrei-me do que, um dia, D. António Couto disse: “Não me importo de passar o dia inteiro numa biblioteca, a ler e a estudar, desde que me ponham, debaixo da porta, alguma coisa para comer”.
    Depois, senti como desejável que as nossas assembleias dominicais, pudessem, um dia, estar livres e disponíveis, no tempo e no coração, para poderem ouvir e reflectir, saboreando, sem pressas, toda esta mesa abundante, de reflexão e de textos, agora apresentada.
    Por fim, fico a pensar e a desejar: qual vai ser a próxima abordagem a fazer nesta MESA DE PALAVRAS? Sinceramente, fico avidamente à espera.
    Com a sinceridade de sempre, aqui fica ao D. António Couto o meu grande abraço, de alguém que tem muita fome deste pão da sua reflexão.

  3. E.Coelho diz:

    Partilhar tudo!
    O momento era de descanso, de alimento e de partilha. «os discípulos estavam cansados da viagem..»
    OS HOMENS SEGUIRAM-NOS…
    – Eram 5000 homens … e ficaram doze! Um dos destaques que faço hoje, passa pela constatação que aponta para este “DESAPARECIMENTO” para outros “profetas”; O Messianismo para isso apontava.
    “ Seguia-o agora uma MULTIDÃO GRANDE porque VIAM os sinais que fazia nos doentes.”
    Uma multidão que procurava algo que Jesus não podia ou não queria dar directamente: MILAGRES! Essa não era a sua missão. Optou pelo ensino pedagógico. (que ainda hoje tão mal entendemos).
    Teriam percebido que o milagre passou pelos seus corações, pela sua razão, naquela hora? Não! No entanto algumas pessoas disseram: “Este é verdadeiramente o profeta, o-que-vem-ao-mundo.” Um reconhecimento sem consistência. A seguir diz-se que Jesus “ retirou-se novamente, SÓ para a montanha» para fugir a esse desentendimento.
    Ninguém o acompanhou. Mais uma vez estava só. Desoladoramente só. 5000 homens viram e participaram no que acabava de ser feito e ninguém entendeu. Saltam-me ao pensamento os dias de hoje. Jesus continua a propor o mesmo: dividir por todos nós, cinco pães de cevada e dois peixinhos, de modo que chegue a todos e que até sobre. E é sem dúvida a nossa incapacidade de o fazer que leva tanta gente a “fugir” para outros inúneros profetas, para os fazedores de milagres, para aqueles que respondem às pessoas com o que elas querem ouvir a cada momento, em vez de ouvir, entender e ver o Milagre. Provas que não conseguimos superar, ainda. tal como Filipe e André.
    Não sei!
    Abraço grade,
    Elisa

  4. Emilia Mota diz:

    Jesus não compra nem vende ;Ele oferece-se .É o único alimento que sacia plenamente a vida e coração do homem.

    Sinto que os oradores de algumas assembleias dominicais fogem do sentido do Evangelho e do pensamento de Jesus.
    Precisamos passar á outra margem …Eu preciso.
    Obrigaga D. António

  5. josé oliveira diz:

    OLÁ!
    Mais uma reflexão sobre o evangelho. Gostava de pegar nas palavras de CRISTO para o discípulo ” Recolhei os pedaços que sobram, para que não se perca nenhum.”
    Se todos pegarmos numa parte que nos sobra,porque sobra sempre,na hora de dividir,pôr mais uma parte de lado,e Oferecer,DAR,há tanta gente com fome de PÃO,e não só.Todos nós sabemos ONDE entregar?
    Obrigado, D.António Couto.
    Até sempre!

  6. Paula Fernandes diz:

    Não sei porque me lamento, ora cansada do trabalho, ora triste, ora desalentada, ora sem motivo, mas ainda assim me lamentando!!!

    Também agradecendo, contente, feliz, mas não tanto quanto devia – em bom rigor “deveria” SEMPRE…

    Afinal, há sempre ALGUÉM que nos apascenta, vigia, protege dos perigos, cuida com carinho, escuta com atenção, conduz a prados verdejantes, reconforta a alma!

    Para além de que nos dá todo o alimento de que precisamos e, se estivermos de coração aberto para O recebermos, dá com abundância, em excesso – talvez para que PARTILHEMOS COM OUTROS?

    E, ainda mais extraordinário é o facto de que vem ao nosso encontro, onde quer que estejamos, na condição que tivermos – é ELE QUE NOS ESCOLHE!

    De facto, sem ELE, sem o seu amor revelador, não chegaríamos lá, só fazendo parte do seu rebanho.

    E até nos concede termos asas, para sermos livres!
    Dando-nos, porém, os ensinamentos certos, traçando um caminho iluminado, para não resvalarmos no escuro!

    Tal qual os discípulos de então, somos PRIVILEGIADOS.

    “O Senhor é meu pastor, nada me faltará.”

    É lindo todo o salmo 23!
    É expressão de um amor puro!
    Apazigua o espírito e o coração!

    Fazei-me ver, amar e acreditar – SEMPRE.

    Obrigada bom Senhor.

    Bem haja D. António.

  7. Sara Augusto diz:

    Que nada se perca… Detive-me aqui e ainda não passei adiante. Mas não consigo amadurecer um sentido. Porquê?

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