FÉRIAS DIFERENTES: VAI PARA TI!


 

1. Há uma temática que atravessa em filigrana a inteira Escritura: a temática do eleito, abençoado e portador de bênção para todos os povos, peregrino da liberdade, chamado a deixar-se transformar em «outro homem». É nesse sentido que lemos habitualmente o início do extraordinário relato de Abraão em Génesis 12:

 «12,1Disse o Senhor a Abrão: “Vai para ti (lek-leka) do teu país, da tua parentela e da casa do teu pai, para o país que eu te farei ver. 2E eu farei de ti um grande povo e te abençoarei e engrandecerei o teu nome. Sê uma bênção! 3Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. E serão abençoadas em ti todas as famílias da terra”» (Génesis 12,1-3).

 2. Movido pela Palavra de Deus, único verdadeiro motor da sua vida, Abraão parte do seu país e da casa do seu pai. Mas não se trata de uma viagem no mapa. Não é meramente da ordem da geografia. É da ordem suprema da pessoa e da liberdade. Note-se bem que o texto não diz simplesmente: «Vai (lek) do teu país», mas «Vai para ti (lek-leka) do teu país», especialíssima locução que a gramática hebraica classifica como «dativo ético». Viagem diferente, que implica um trabalho de casa, dentro da própria casa, dentro da própria pessoa, trabalho de libertação para a liberdade, até nos fazermos verdadeiramente livres, abertos, disponíveis, acolhidos, acolhedores, abençoados, abençoadores.

 3. É ainda nesse sentido que Abraão é chamado «o hebreu» (ha-‘ibrî) (Génesis 14,13). ‘ibrî reporta-se a ‘eber, que significa «margem». Ele vem do «outra margem do Rio» (Josué 24,3). Mas reporta-se também a ‘abar, que significa «passar», «atravessar», «ir além de», «converter-se», «abrir uma passagem», «transferir», o que implica um movimento ao mesmo tempo objectivo e subjectivo, activo e passivo. Abraão é o homem que atravessa fronteiras, mas é sobretudo o homem que se atravessa a si mesmo.

 4. Partir do haver para o a-ver. Do país havido (podemos haver terra, coisas e pessoas) para o país prometido, país a-ver. Não para o nosso ver cobiçoso e invejoso, bem documentado em Génesis 3,6, naquele paratáctico e fatal: «e viu a mulher que era boa a árvore para comer, e um desejo ardente para os olhos, e era desejável a árvore para obter inteligência, e tomou do seu fruto, e comeu, e deu também ao seu marido, que estava com ela, e ele comeu», mas para o como Deus nos faz ver, documentado também em Moisés (Deuteronómio 34,1 e 4), a quem Deus faz ver a Terra Prometida, não para a possuir (haver), mas para a receber como um dom, não com olhos cobiçosos e invejosos, mas de bondade e benevolência, não com mãos que se fecham e retêm, mas com mãos que se abrem e recebem e dão. Explorando bem esta dupla simbologia das mãos, a língua hebraica tem mesmo duas palavras para dizer mão: yad = mão fechada, e kaf = mão aberta (palma da mão).

 5. Do país das «coisas-em-si» para o país das coisas através de Deus. Do país sem bênção e sem dom para o país com bênção e com dom. A diferença entre um hebreu ou um cristão e um pagão, é que o pagão [do latim pagus = estaca que fixamos na terra para demarcar o nosso terreno] usa o mundo como coisa sua, sem bênção, enquanto o hebreu e o cristão vêem o mundo não como «uma-coisa-em-si», mas «através de Deus», com bênção. Um objecto não é a sua forma, dimensão, preço, cor, força e movimento, mas um acto intencional de Deus. É sintomático que o hebraico bíblico não conheça um equivalente do nosso termo «coisa». De facto, a palavra dabar, que, no hebraico posterior veio também a significar «coisa», no hebraico bíblico aparece a significar: discurso, palavra, mensagem, relato, notícia, conselho, pedido, promessa, decisão, sentença, tema, história, dito, expressão, afazer, ocupação, accões, boas acções, acontecimentos, modo, maneira, razão, causa, mas nunca «coisa».

 6. O eleito é libertado e abençoado pela Palavra que liberta e abençoa. Livre e abençoado, pode libertar e abençoar. É ainda nesse sentido que Saul vai da casa do seu pai à procura das jumentas perdidas (1 Samuel 9,3), e acaba por ser ungido Rei (1 Samuel 10,1), sendo nessa operação transformado em «outro homem» (’îsh ’aher) (1 Samuel 10,6), com «outro coração» (leb ’aher) (1 Samuel 10,9), isto é, com outra compreensão da vida, dado que, na Bíblia, o coração é o centro da vida espiritual e racional. A viagem de Saul à procura das jumentas perdidas não é uma história inocente. O Rei é o eleito de Deus, abençoado por Deus. Compete-lhe fazer chegar ao seu povo a bênção recebida. Saul, paradigma dos Reis, porque era o primeiro, tinha, pois, uma importante viagem a fazer, na linha de Abraão. Tinha de entrar na rota de Abraão.

 7. Para bom entendedor, esta viagem ao coração, na linha do hóspede e peregrino Abraão, pervade a Bíblia inteira. Ei-la insinuada já no relato que abre o Livro do Génesis, quando o narrador anota que «o homem deixará o seu pai e a sua mãe…» (Génesis 2,24). A não ser assim, nem o texto faz sentido, pois não se vê bem como é que este primeiro homem, modelado da terra (Génesis 2,7), possa deixar o seu pai e a sua mãe!

 8. Mas ei-la também a marcar a viagem da liberdade e do amor verdadeiro da noiva do Cântico dos Cânticos. Para espanto nosso, lemos assim o dizer do noivo para a noiva: «Levanta-te, amada minha,/ formosa minha,/ vai para ti!» (Cântico dos Cânticos 2,10). Também o amor tem de andar na rota de Abraão.

 9. Vê-se bem que o cristão verdadeiro não deixa nada nem ninguém. Vê é as coisas e as pessoas com olhos diferentes, com «outro coração», com bênção, através de Deus. Libertado e abençoado, pode libertar e abençoar. Faz-nos, Senhor, viajar na nova estrada que rasgas, com a Tua Palavra, rumo ao nosso coração, rumo a Ti!

 10. «Vai para ti do teu país» implica receber-se de Deus, implica ser homem, homem livre, feliz e responsável. Já sei que é tempo de férias, e de viagens. Para dizer que se pode passar férias em Portugal, sem necessidade de viajar para o estranjeiro, anda por aí o slogan: «Vá para fora cá dentro». A minha proposta é de outra ordem, da ordem da pessoa e da liberdade: andes por onde andares, estejas onde estiveres, «vai para ti», meu irmão de Agosto!

 António Couto

4 respostas a FÉRIAS DIFERENTES: VAI PARA TI!

  1. E.A.Coelho diz:

    Olá, boa tarde,
    «Entrar na rota de Abraão» e ir «para fora cá dentro», duas expressões para se dizer «converter-se».
    Recordo o percurso de S. Paulo da reflexão anterior e o que por esses caminhos foi sendo adquirido pelo grupo que fez a peregrinação.
    A proposta que se coloca aos sacerdotes, catequistas, pais e padrinhos e educadores na fé nas suas funções pastorais e ou sociais é, nem mais nem menos este «ir para fora cá dentro, na rota de Abraão», pelos caminhos de S. Paulo, ou seja, pelos caminhos de Cristo.
    É imensamente difícil “fazer férias por cá”, quando sabemos que é imensamente difícil “viver cá”, em cada um, dentro de si mesmo, dado a si mesmo por Deus.
    Deixo a minha preocupação sobre a necessidade de formação cristã de todos nós; a necessidade da consciencialização desta carência; a urgência da vivência testemunhal. Como bem sabemos, neste voluntariado catequético, passamos muitas vezes por propor aquilo que não fazemos: dar testemunho, caminhar com Jesus ao lado, conversar com Ele, ser d’Ele e para Ele. E constato que, se deveras o fizessemos com a convicção do testemunho, (ninguém ensina o que não sabe), as viagens de peregrinação podiam acontecer nas próprias catequeses, nas celebrações, nas conversas informais, no quotidiano, muito facilmente. Afinal, se acreditamos/vivemos (da Verdade), o nosso jugo é suave e a nossa carga é leve! O grande (PEQUENÍSSIMO) passo que é preciso dar não passa afinal do primeiro e frágil passinho que inicia a Caminhada. O que é preciso é… dá-lo!
    Abraço grande, Elisa

  2. Paula Fernandes diz:

    Então, se a palavra de Deus nos concede que venhamos a nós, do nosso país, para o nosso coração, para O recebermos, para ficarmos a-ver, relativizando o “haver”, para construirmos um país de “coisas” (= mensagem, conselho, pedido, promessa, decisão, história, dito, afazer, boas acções, acontecimentos, maneira, razão …) através de Deus, na perspectiva da pessoa e da liberdade …

    Então, tudo tem de ser radicalmente diferente!

    Cada um de nós, em nossa casa, enquanto cristão livre; todos nós, na casa de Deus, cristãos em comunidade; o Clero, com a Igreja, de que somos membros …

    Partiremos de dentro, do coração de cada um, onde já estão o Pai, o Filho e o Espírito, onde já há algo para dar, abundantemente e sem receio de não receber. Porque, a fonte, a verdadeira e primeira dádiva, habita em nós!

    Não iremos à Igreja (= casa de Deus) essencialmente para receber!
    Logo à chegada, poderemos levar mãos estendidas, com tudo que tenhamos para ofertar!

    Os sacerdotes e os leigos com responsabilidades na educação da fé e todos os leigos, poderão/deverão falar para dentro, formando e fortalecendo o “eu” cristão de cada um, aconchegando-o, (re)lembrando-lhe que Jesus está lá, desde o Baptismo …

    Interiores bem formados, firmes na fé, agrafados ao amor de Jesus, darão bons frutos no exterior, no seu ou noutros países, onde quer que estejam, por onde quer que andem. Sabem-se abençoados e poderão abençoar …

    Formar, cultivar, acarinhar, amar dentro, dar tempo ao silêncio, abençoar.
    Relativizar o material, o efémero, o que passa.
    Condenar menos, amar mais.
    Amar sempre mais, ao jeito único de Jesus.

    Boa proposta de reflexão interior para as férias que, felizmente, se aproximam.

    Assim nos seja concedido encontrarmo-nos connosco próprios, em Jesus.

    Excelentes férias e bom descanso para todos.

    Também para si D. António. Bem-haja sempre, em todo o lugar.

  3. José Frazão diz:

    Na tentativa de libertação, na evasão à vida ou no desejo de afirmação – tantas vezes para alguns, e por vezes para mim, as férias são um simples passatempo, de cansaço e desgaste, sem proveito ou retempero, no desencontro de si mesmo, pelo malfadado stress, na ansiedade e inconformismo, que a ninguém, ou muito poucos, aproveita ou satisfaz…
    Cá por mim, tentarei que estas férias sejam mais de descanso, no regresso a mim mesmo, com vantagem para aqueles que de mim esperam mais…
    Esta lição já estou a colhê-la.
    Obrigado, irmão mais velho (na graça e no dom).
    Obrigado, irmão mais novo (no tempo e na era).
    Obrigado, eterno amigo, D. António Couto.

  4. josé oliveira diz:

    olá! Mais uma reflexão sobre os textos bíblicos,e tudo vai ao encontro ou se resume numa só palavra AMAR.
    AMAR o próximo como a ti mesmo.
    AMAR,dando ao próximo como a ti mesmo.
    AMAR,servindo o próximo como a vós mesmos.
    Se nestas férias nos dermos ao AMOR será em DEUS,com DEUS e para DEUS.
    Não sendo eu bom em palavras, espero ser-lo em exemplo.Porque como alguém disse a palavra mexe, mas o exemplo arrasta.
    Obrigado D.António Couto,por me tocar no coração.
    Boas ferias com DEUS.

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