RECEPTORES E RECITADORES


 

1. Assiste-se hoje à recuperação do pré-racional (pré-temático, pré-conceptual, pré-lógico, pré-sistemático), que não quer dizer irracional nem sequer menos racional, mas uma nova e mais profunda racionalidade, anterior e fundamento de qualquer outra racionalidade, seja a teórico-sistemática, seja a científico-técnica. De facto, o século XX levou a tribunal o saber filosófico e científico que orgulhosa e ilusoriamente se dizia sem filiação, afirmando-se antes incestuosa e tautologicamente filho de si mesmo, como requer o célebre cogito ergo sum [= eu penso, logo existo] cartesiano. Não, eu não sou a origem, o senhor e o centro do mundo. Quando dou por mim a pensar, já tenho coisas atrás, já estou sempre depois do meu nascimento, já tenho um pai e uma mãe, já sou filho. E reconhecer-me filho é descobrir-me como recepção originária da vida, proveniente de um amor que me precede.

 2. Neste sentido, eu sou fundamentalmente e originariamente recepção, dom, e não acção, dono. O «novo pensamento», assim denominado pela primeira vez por Franz Rosenzweig (1925), e que junta nomes como Ebner, Buber, Guardini, Levinas e outros, opera no sujeito humano uma alteração fundamental, de modo a mostrá-lo, não já como protagonista, dono e senhor, mas como submetido, segundo o étimo originário de sujeito [de sub-jectum = posto debaixo], como «eis-me aqui» passivo e receptivo, que descobre a realidade, não já como objecto de posse para «prender» e «com-preender», mas como dom que outras mãos amorosamente estendem para si.

 3. É a maneira de dizer que, antes de eu dar por mim a pensar e a dizer, já o Outro e os outros cuidam de mim e me dizem. Sou verdadeiramente filho e sou dito. Sou afectado (de afecto, afectividade) pela alteridade. Ser eu, identificar-me, não é autoconstituir-me como fundamento único de tudo. Ser eu é fundamentalmente receber-me. Eu, não a partir de mim, mas a partir do Outro e dos outros. «Ser eu é ser afectado» (Julia Kristeva, Emmanuel Levinas), «ser pensado»: de cogito ergo sum para cogitor ergo sum (Karl Barth), «ser dito» (Romano Guardini), «ser visitado» (Adolphe Gesché), «ser encontrado» (Ferdinand Ebner), «ser dado» (Claude Bruaire), «ser amado» (Carlos Díaz). Está em cena, portanto, um «novo saber». Não o saber de quem conhece o sal só pela via racional, através da sua definição conceptual, em que o sujeito exerce em relação ao objecto-sal a sua soberania de «com-preensão», mas o saber de quem passivamente sofre a acção do sal, saboreando-o, isto é, deixando-o saber. Novo pensamento, novo saber, novo conhecimento ou reconhecimento no duplo sentido de conhecimento novo e de eu me mostrar reconhecido, isto é, agradecido face ao dom que me precede e me institui, e em virtude do qual e por causa do qual eu existo.

 4. Outra vez o confronto sadio. Nós, ocidentais e modernos, descartamos facilmente o passado (não queremos ter velharias em casa, quer se trate de pessoas quer de coisas), e gostamos de nos ver mais voltados para o futuro. E quando dizemos «futuro», é à nossa frente que o vemos. Vivemos voltados para a frente e para o futuro. Somos modernos e ocidentais. Significativa e paradoxalmente, na língua hebraica, que é a língua do povo bíblico, «futuro» diz-se ’aharît, termo que etimologicamente significa «costas» ou «o que está atrás», e «passado» diz-se qedem, que significa também o «oriente», donde nasce o sol por onde nos orientamos. Quer isto dizer que, enquanto que nós vivemos voltados para o futuro e viramos completamente as costas ao passado, o povo bíblico, de língua e mentalidade hebraicas, vive voltado para o passado que é o oriente por onde continuamente se orienta, caminhando, portanto, para o futuro, de costas. Neste sentido bíblico genuíno, o futuro não é o que está à nossa frente, mas o que está atrás de nós. Não o vemos, portanto. Temos de caminhar com todos os cuidados. E como é que se caminha para o futuro, isto é, para trás, literalmente «às arrecuas», de forma cautelosa e segura? Só guiando-nos pelo fio do passado, que devemos ter sempre na mão e que nunca podemos perder de vista!

 5. Nós desprezamos e descartamos o passado. O povo bíblico ama o passado e recita-o com amor, pois ele apresenta-se carregado de dons que outras mãos carinhosamente estendem para nós. Somos, de facto, fundamentalmente receptores e recitadores! Recompõe-te, refaz-te, pacifica-te, renova-te, isto é, recebe-te e recita-te com amor, meu irmão de Agosto. Boas férias!

 António Couto

2 respostas a RECEPTORES E RECITADORES

  1. Eduarte diz:

    Sempre que leio os trabalhos do D. Antonio Couto, fico desconcertada com a “SUA” sabedoria biblica.
    Muito obrigada por nos possibilatar este acesso.
    Umas boas e repousantes férias para o D. António Couto.
    Edite

  2. José Frazão diz:

    A vida é por si uma realidade feita de encontros (e desencontros) convergentes (ou divergentes) no contexto e na textura de realidades anteriores, seja na expressão materializada da natureza, seja na realidade imaterial, mas vital, do conhecimento, do pensar, do querer, do sentir ou do sonhar, inatingível a quem assim não pensa, não sente ou não vê, mas contextualizando sempre uma nova realidade originante de outras novas realidades, que, na sua concatenação e conjugação, assim se irão encontrar e originar, – sempre novas e surpreendentes, mais belas ou nem tanto, mas, ainda assim, marcadas pela novidade inovante e inovadora, resultante de (ou em) outras resultantes, sempre relacionada com muitas mais, por elos de comunhão e relação, que lhe dão a verdadeira dimensão e potenciação, surpreendendo, no ser e na forma, outras mais realidades que assim se venham a encontrar na expressão materializada do seu ser ou na forma elevada, transcendente e imaterial, do pensar, do querer ou do sonhar, reconhecendo que a vida é sempre uma realidade de contexto vivencial, qualquer que seja o grau ou nível da sua essência ou ausência…
    Bem-haja, D. António Couto, pois, também assim, consigo e por si, me sinto levado a pensar. Nisto também nos encontramos, unidos e interligados, num contexto de tempo e de pensar, vendo que o hoje, trazido pelo ontem, se anuncia no porvir do amanhã … e na certeza de que a vida é ela mesma uma realidade, sempre nova e sempre bela, no contexto e na textura das realidades belas que assim a fazem, acontecer ou manifestar-se…
    Bem-haja, D. António Couto.

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