O IMPÉRIO DE NARCISO OU A CENA TODA PARA MIM E EU SEMPRE EM CENA

Agosto 20, 2009

 

1. Sim, Don Juan morreu. E o nosso tempo está agora marcado pela figura muito mais preocupante de Narciso. Segundo a mitologia grega, Narciso, filho do rio Céfiso e da ninfa Liríope (lírio), era um jovem de tão extraordinária beleza, que todas as ninfas se apaixonavam por ele. Ele, porém, não atendia ao amor de nenhuma delas. Foi assim que a ninfa Eco, por não o conseguir seduzir, morreu de fome e inanição, ficando transformada numa pedra, contra a qual esbarram os sons que emitimos de que ouvimos um simples eco. Tirésias, o adivinho cego, tinha predito que Narciso viveria enquanto não visse a sua própria imagem. E foi assim que Narciso, um dia em que voltava da caça e se debruçou sobre um poço de águas límpidas para beber, ficou de tal modo apaixonado pela sua própria imagem reflectida na água, que se consumiu de amor por si próprio, acabando também ele por morrer ali de inanição, ficando transformado na flor que tem o seu nome.

 2. Mas não vamos agora entrar pelo lado meramente psicológico ou psiquiátrico de Narciso, mas pela própria cultura de Narciso que gerou esta «era do vazio» ou da «globalização», também conhecida como «civilização das redes», que é a era da internet, do telemóvel, dos hipermercados, da proliferação de rádios, televisões, reality shows, telenovelas da vida real.

 3. É assim que a internet e o telemóvel nos prendem e fazem de nós verdadeiros senhores e senhoras; é assim que, ao entrar no hipermercado, nós somos habilmente estimulados a ocupar o centro da cena: ao proporem-nos coisas demais (tanta coisa por onde escolher), colocam-nos habilmente na situação de decidir mais, de sermos mais nós, de nos darmos mais importância. É natural que nos sintamos lá bem.

 4. E por detrás da proliferação de rádios e televisões, big brothers e toda a espécie de «directos» que permanentemente reclamam a nossa opinião via SMS ou outra, está a habilidade de nos transformarem todos em actores e espectadores de nós mesmos – muitas vezes o destinador torna-se o seu principal destinatário –, e em que o que importa é o próprio acto de comunicação e não a natureza ou o conteúdo do que se comunica. Cria-se assim a «consciência telespectadora», captada por tudo e por nada, ao mesmo tempo excitada e indiferente e vazia, e habilmente estimulada a tornar-se interveniente e interactiva, emitindo opiniões que somos sempre habilmente levados a pensar que podem ser geniais, decisivas e premiadas!

 5. Na escola de hoje, a consciência do aluno é em tudo análoga à «consciência telespectadora», programada para a dispersão e não para a concentração, para o temporário e não para o voluntário. O aluno não é mais um sujeito passivo, a quem o professor (antiquado) debita os conteúdos adequados. É, antes, sujeito activo e interactivo, que deve ser habilmente estimulado (e esta é agora a tarefa do professor competente) a escrever ele mesmo o livro com os conteúdos que deve aprender. É por isso que o livro, dito verdadeiramente pós-moderno, já não tem texto nem autor. Contém apenas as notas de rodapé, e, no corpo da página, à maneira de texto, as chamadas de nota: «1, 2, 3, 4, 5…». A ideia é clara: entrámos no tempo da literatura interactiva, em que o livro não vem já escrito, mas é para escrever, reescrever, completar… pelo leitor.

 6. Nesta «era do vazio» (Gilles Lipovetsky) e do «fragmento» (Jean-François Lyotard), nesta «modernidade líquida» (Zygmunt Bauman), é o mundo do «eu» que sai vitorioso, e tudo se traduz em zelar pela própria saúde, beleza e forma física, preservar o poder económico ou a imagem dele, perder os complexos, esperar que chegue o fim-de-semana ou as férias. Eu debruçado sobre mim mesmo, fascinado pela minha imagem por mim fabricada (é o chamado «amor curvus», com que na Idade Média se designava o pecado!). Uma vaga de apatia assola as instituições, desde a família, à escola, à política, à igreja. Narciso impera seduzido pelo seu próprio ídolo. Mal nos apercebemos disto, tão ocupado anda cada um de nós consigo mesmo e a sua imagem.

 António Couto