MOISÉS VISITA OS APOSENTOS DE DEUS

Setembro 28, 2009

 

1. Ainda estamos dentro da maior Festa de Israel. Celebra-se hoje (28 deimagessss Setembro para nós; 10 de Tishrî para eles) a Festa do yôm kippûr [= Dia do Perdão]. A Mishna dedica-lhe um tratado significativamente intitulado YÔMA, à letra, O DIA. É «o dia» por excelência. É o dia da graça, do perdão, da condescendência. A Festa da brancura. Único Dia em que o sumo-sacerdote entrava antigamente na parte mais santa do Templo, chamada SANTO DOS SANTOS, isto é, SANTÍSSIMO. Acariciava o rosto de Deus com sangue, que tem na Bíblia sentido unitivo e familiar, e implorava o PERDÃO para os seus pecados e para os pecados de todo o povo.

 2. No passado dia 19 de Setembro (1 de Tishrî), os judeus celebraram o Dia de Ano Novo (rosh ha-shanah). Esvaziaram simbolicamente os bolsos do cotão antigo e vestiram de branco, e deram início a dez dias de penitência, que culminaram hoje no Dia Perdão de Deus.

 3. No próximo dia 3 de Outubro (15 de Tishrî), inicia-se a Festa das Tendasdanceroda (Sukkôt), Festa que manifesta a alegria das colheitas abençoadas por Deus. É uma Festa a céu aberto, pois a cobertura das tendas nunca deve ser tão espessa que não nos deixe ver Deus, e que não deixe Deus ver-nos a nós.

 4. Esta forte mancha festiva a abrir o Outono (e o Ano para os judeus) mostra uma intensa familiaridade entre os judeus piedosos e o seu Deus. Esta vincada proximidade pode fazer-nos bem também a nós e a todo o ser humano. Dentro desse espírito, apresento hoje uma visita de Moisés aos aposentos de Deus, narrada no Midrash Tanchuma.

 5. Diz então a história que Deus mostrou a Moisés todos os aposentos dos tesouros do Céu, onde se encontra reunida a recompensa dos justos. Conforme Moisés ia visitando os sucessivos aposentos, repletos de tesouros preciosos, ia ficando cada vez mais extasiado e cheio de curiosidade, como uma criança deslumbrada.

 6. E como tal, perguntava: “Senhor do mundo, a quem está destinada este aposento do tesouro?” Deus respondeu: “Para aqueles que levam uma vida justa”. “E este aposento do tesouro?”, perguntou Moisés. “Esse é para aqueles que prestam ajuda aos órfãos”, disse Deus. E continuaram a percorrer, um após outro, inúmeros aposentos repletos de riqueza, até que chegaram a uma sala imensa, a perder de vista, repleta de bens valiosíssimos. À vista de tal maravilha, Moisés perguntou mais uma vez: “Senhor, a quem se destina este aposento imenso e deslumbrante?” Deus respondeu: “Quando alguém faz uma obra meritória, dou-lhe o que lhe cabe, tirando do respectivo aposento do tesouro. Mas se algém não fez nenhuma obra meritória, então dou-lhe gratuitamente, tirando deste imenso e inesgotável aposento”.

 7. A história quer mostrar que a linguagem que Deus melhor entende é a Graça.

 António Couto

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UM SIMPLES COPO DE ÁGUA COM AMOR…

Setembro 24, 2009

 

1. A lição do Livro dos Números deste Domingo XXVI (Números 11,25-29)67 mostra-nos um Moisés, não dono de nada nem de ninguém, nada ciumento ou invejoso, mas livre, cheio de bem e de bondade, completamente a céu aberto, desejoso de ver, com olhos puros, o Espírito de Deus a operar maravilhas em todas as pessoas e através de todas as pessoas. Josué representa, neste texto, a figura sombria do ciumento.

2. O Evangelho deste mesmo Domingo (Marcos 9,38-47) segue o mesmo rumo, e mostra-nos um Jesus feliz por ver que o bem saltou as fronteiras do pequeno grupo que o seguia, sendo praticado também por pessoas de fora. João encarna aqui a figura do Josué do texto supracitado do Livro dos Números, e quer o bem todo para Jesus e o seu grupo, vendo com maus olhos que também outros o possam realizar.

3. Vê-se, no fundo da tela, que não basta querer o bem. Querer o bem nem sempre é bom. Por paradoxal que pareça, querer o bem pode ser mau. É, de facto mau, quando queremos o bem só para nós, ciumenta e invejosamente. Às vezes, os nossos maus olhos levam-nos a retirar o bem do alcance dos outros, e até a destruí-lo. Ora, o bem que divide e exclui nunca é bem. O bem mostra-se tal apenas quando faz comunhão, fraternidade, mesa, pão, água, pura alegria entre irmãos.

4. Um simples copo de água, dado com amor, pode trazer pela mão a eternidade, soberana lição de Jesus. Toda a atenção, portanto, às nossas mão, pés, olhos. A mão, que indica a nossa acção, pode fazer o bem ou o mal. Se faz o mal, é melhor cortá-la, como faz o lavrador cuidadoso aos ramos secos das videiras e das árvores de fruto. O pé, que indica o nosso caminhar, pode levar-nos por e para maus caminhos. Se nos conduz para o abismo, é melhor cortá-lo. O olho, que indica os nossos desejos de bem e de amor ou de cobiça, ódio, raivas e ciúmes, pode levar-nos à mesa da alegria fraterna ou ao ciúme e à inveja. Estas últimas maneiras de ver levam-nos ao mal, e, portanto, ao sentimento venenoso de queremos o bem só para nós. Aí está como querer o bem nem sempre é bom; pode ser mau. E é melhor arrancar este veneno.

5. A lição de Tiago (Tiago 5,1-6), que lemos e abandonamos este Domingo (no próximo começa a ler-se a Carta aos Hebreus) mostra bem que o rico é o que quer o bem só para si, retirando-o (roubando-o!) aos outros. Auto-exclui-se da comunhão, da bondade e da alegria da mesa fraterna. O resultado é a traça, o mofo, a ferrugem, a podridão.

6. Aí está, no ponto e em contraponto, a lição soberana do Evangelho de Jesus: um simples copo de água, dado com amor, pode trazer pela mão a eternidade!

António Couto


LEVA UMA NOTÍCIA FELIZ AOS TEUS AMIGOS

Setembro 16, 2009

 

1. «Evangelizar não é para mim um título de glória, mas uma necessidadel_e36bbd6d18404b23b1d72bf21c4a68c9 que se me impõe desde fora. Ai de mim se não evangelizar!», confessa Paulo à comunidade cristã de Corinto (1 Coríntios 9,16).

 2. Paulo anuncia convictamente a notícia da Ressurreição. E diz que o faz como se de uma necessidade se tratasse. Mas porque é que este anúncio há-de ser, para Paulo, uma necessidade? É uma necessidade porque Paulo considera o acontecimento da Páscoa de Cristo como único, singular e universal, que o afectou radicalmente na sua maneira de ser homem. A prova é que Paulo mudou tudo na sua vida. Mudou, ou foi mudado. É por isso que Paulo anuncia convictamente a força (dýnamis) de Cristo Crucificado e Ressuscitado (Filipenses 3,10).

 3. Mas é claro que este anúncio sempre Primeiro arrasta consigo um longo e lento e belo relato. O relato é o testemunho de como Cristo atravessou a vida do anunciador, transformando-a radicalmente. O anunciador transforma-se assim naturalmente em narrador. O anunciador é audaz e destemido. O narrador é frágil: é um pedinte que mendiga um narratário a quem possa transmitir o seu relato. Ouvindo o anúncio e acolhendo o relato, cabe agora ao narratário decidir se declara o acontecimento da Páscoa de Cristo como único, singular e universal, isto é, como um acontecimento capaz de mudar radicalmente a sua vida e de pôr em andamento uma história nova de Perdão e de Vida para o fim de toda a morte e de todo o pecado. Se o fizer, também ele se porá a caminho, atravessará fronteiras, anunciará a Ressurreição de Cristo e oferecerá como garante o relato da transformação operada na sua própria vida. E assim sucessivamente.

 4. A notícia faz de ponto de união: junta o mensageiro e o destinatário. Mas é o relato que os aproxima, fazendo-os, não só estar juntos, mas nascer juntos como irmãos. Este nascimento, não pelo sangue, mas pela Liberdade, é que é o verdadeiro nascimento, que nos faz saborear a verdadeira fraternidade: «Ide dizer aos meus irmãos que Eu os precedo na Galileia» (Mateus 28,10; cf. João 20,17). Irmãos uns dos outros e irmãos do Ressuscitado, que nos precede e nos preside sempre, referência permanente do nosso quotidiano: «Onde estiverem dois ou três, Eu estarei no meio» (Mateus 18,20).

 5. Enche a tua vida com uma grande notícia. Comunica depois essa notícia aos teus amigos. E relata, isto é, põe em relação, une, reúne, enlaça, entrelaça, com essa notícia a tua vida toda.

6. Em Setembro abre a escola, a igreja, o campo, abre a política e o tribunal. Abre também a vida, meu irmão de Setembro.

 António Couto


E VÓS QUEM DIZEIS QUE EU SOU?

Setembro 12, 2009

 

«8,27E saiu JESUS e os DISCÍPULOS d’ELE (hoi mathêtaì autoû) parajesus as povoações de Cesareia de Filipe. E, NO CAMINHO (en tê hodô), perguntou aos DISCÍPULOS d’ELE, dizendo-lhes: “Quem dizem as pessoas que EU SOU?” 28Eles disseram-LHE, dizendo: “João Baptista; outros, Elias, e outros ainda, um dos profetas”. 29E ELE perguntou-lhes: “E VÓS, quem dizeis que EU SOU?” Respondendo, Pedro diz-LHE: “TU és o CRISTO”. 30E censurou-os (epetímêsen) para não dizerem a ninguém acerca d’ELE.

 31E COMEÇOU A ENSINÁ-LOS (kaì êrxato didáskein autoús) que é preciso (deî) o FILHO DO HOMEM sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. 32E abertamente (parrêsía) falava esta palavra. E tomando-O consigo (proslabómenos), Pedro começou a censurá-l’O (epitimân) (cf. 9,31-32; 10,32-34). 33ELE, porém, voltando-SE e vendo os DISCÍPULOS d’ELE, censurou (epetímêsen) Pedro e diz: “Vai para trás de MIM (hypáge opísô mou), satanás, pois não tens em consideração as coisas de Deus, mas as dos homens”.

 34E chamando para SI (proskalesámenos) a MULTIDÃO, juntamente com os DISCÍPULOS d’ELE, disse-lhes: “Se alguém quiser atrás de MIM SEGUIR (opísô mou akoloutheîn), RENEGUE (aparnêsásthô: imp. aor. de aparnéomai) a si mesmo (heautón), TOME A SUA CRUZ e SIGA-ME, 35pois aquele que quiser salvar a própria vida, vai perdê-la, mas o que perder a própria vida por causa de MIM e do Evangelho, vai salvá-la”» (Mc 8,27-35).

 

1. O episódio «NO CAMINHO» de Cesareia de Filipe abre significativamente com o nome «JESUS», abandonado 89 versículos atrás, em Marcos 6,30! Forma clara e enfática de o narrador dizer ao leitor que estamos perante um episódio importante, justamente considerado o centro geométrico e teológico do Evangelho de Marcos. Ao apresentar JESUS e os seus discípulos NO CAMINHO, o narrador abre a secção central deste Evangelho (Marcos 8,27-10,52), normalmente intitulada: «O seguimento de Jesus NO CAMINHO», que é o CAMINHO que conduz da Galileia a Jerusalém, o CAMINHO da formação de Jesus aos seus discípulos. Vamos seguir a par e passo esta importante secção do Evangelho de Marcos durante sete Domingos, desde o Domingo XXIV (13 de Setembro) até ao Domingo XXX (25 de Outubro). Há quem prefira abrir a secção com o episódio de 8,22-26 (o cego de Betsaida Julia) para a encerrar com o episódio de 10,46-52 (o cego de Jericó). Tem a vantagem de colocar um cego a abrir e outro a fechar esta importante secção. Estes cegos têm a função de nos fazer ver a nossa cegueira e de nos indicar o médico e a terapia.

 2. Cesareia de Filipe, tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de Augusto.

 3. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que JESUS põe a questão da sua identidade. Soberanamente JESUS pergunta: «Quem dizem as pessoas que eu sou?» (8,27), para acrescentar logo de seguida: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29). A pergunta é única em todo o arco da Escritura. Ninguém, antes ou depois de Jesus, em toda a Escritura, fez ou fará uma pergunta semelhante.

 4. Para o povo, JESUS é um profeta. Um entre muitos. Mas para Pedro, Jesus não é apenas um entre muitos. Ele é Único e Último (cf. Marcos 12,1-12), o Rei definitivo, o Cristo, o Messias, que traz todo o bem para o seu povo («Fez tudo bem feito»: Marcos 7,37). E assim, à questão directa e enfática – «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29) – posta por JESUS aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Pedro responde: «Tu és o Cristo!» Note-se bem que JESUS não pergunta simplesmente: «Quem sou Eu?», mas: «Quem dizeis vós que Eu sou?». Dizer é mais do que um saber. Implica o compromisso, a vida, de quem diz.

 5. À primeira vista, parece que Pedro respondeu acertadamente. Mas o contexto mostra que o discípulo não reunia competência sobre a matéria, não estava ainda em condições de fazer as operações mentais e afectivas necessárias para uma resposta correcta que reunisse todos os elementos necessários de modo a implicar na resposta o respondedor. O dizer de Pedro ainda era um dizer antigo, tradicional e convencional, sem implicações pessoais. Pedro ainda não tinha nascido de novo e do alto e do Espírito. Como podia dizer JESUS? «Tu és o Cristo!», respondeu Pedro. Fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», vê-se logo no seguimento do texto, que no «Cristo» de Pedro não entrava o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição (8,31-32). Muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo». Na verdade, Pedro recrimina JESUS pelo CAMINHO de rejeição, sofrimento e morte que Ele acaba de mostrar como sendo o verdadeiro CAMINHO de «Cristo» segundo JESUS. O CAMINHO de «Cristo» segundo Pedro só inclui triunfo e sucesso.

 6. Por isso, porque Pedro acertou com a resposta – na verdade, JESUS é o «Cristo» –, mas não é o «Cristo» como Pedro pensa que é, JESUS impõe soberanamente silêncio (8,30). O silêncio imposto por JESUS aos seus discípulos pode passar falsamente a ideia do chamado «segredo messiânico», segundo o qual JESUS não quereria que a sua identidade, uma vez descoberta, fosse divulgada. Trata-se, antes, de impedir que respostas, porventura certas nas palavras, mas erradas nos conteúdos, e elaboradas apenas com base em elementos convencionais e tradicionais (o «Cristo» do jadaísmo), que não implicam um verdadeiro dizer pessoal, um novo nascimento do alto e do Espírito, sejam transmitidas boicotando assim o nascimento do conhecimento profundo e verdadeiro da novidade de JESUS e a implicação pessoal de quem diz JESUS e se diz face a JESUS. O verdadeiro sujeito deste dizer não o pode ser só por fazer parte de alguma instituição que confere credibilidade ao seu dizer já antes de começar a dizer, como, por exemplo, os escribas ou os próprios discípulos de JESUS.

 7. Porque há muita coisa que os discípulos ainda têm de aprender, antes de saberem dizer JESUS, soberanamente JESUS começou a ensinar (8,31). É grandemente sintomático que o narrador empregue a mesma expressão («E começou a ensiná-los») quando JESUS ensina a semente (Mc 4,1-2), quando ensina o pão (Mc 6,34s.), e quando ensina a Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31s.). Em boa verdade, JESUS é a semente e é também o pão, linguagem que ilumina e é iluminada pela Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Veja-se o dito condensado de João 12,24: «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só; mas se morrer dará muito fruto».

 8. Já sabemos que Pedro respondeu antes do tempo com um punhado de palavras convencionais, que vinham na corrente da tradição judaica. Ainda não tinha nascido do alto e do Espírito, como sujeito novo de acção [= dizer e fazer], face à novidade de JESUS. Falta-lhe fazer aquele «caminho» transitivo e intransitivo, longo, gradual e tortuoso, da Galileia até à Cruz, que JESUS aponta logo de seguida aos seus discípulos e ao leitor. Aí nascerá para a Glória a humanidade de JESUS, ao mesmo tempo que nascerá Pedro como sujeito apto para dizer JESUS e se dizer face a JESUS. Por agora, Pedro e os discípulos e a multidão e o leitor devem «dizer energicamente não» (aparnéomai) a si mesmos e ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS, para seguir o Mestre ao longo do CAMINHO. Este «dizer não» a si mesmo implica uma forte conotação de rejeição, que Isaías usa para a rejeição dos ídolos: «Naquele dia, Israel rejeitará (aparnéomai) os seus ídolos de prata e os seus ídolos de ouro, trabalho das vossas mãos pecadoras» (Isaías 31,7). Marcos só usa esta expressão aqui e no anúncio feito por Jesus da negação de Pedro (Marcos 14,30-31) e na recordação desse anúncio por parte de Pedro (Marcos 14,72). A lição é clara: ou «dizemos não» a nós mesmos ou acabaremos sempre por «dizer não» a JESUS.

 9. Ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS. Note-se a tradução correcta: «Vai para trás de MIM» (hypáge opísô mou) (8,33), e não: «Afasta-te de MIM», como se vê em muitas traduções. «Atrás de MIM» é o lugar do discípulo, que segue o Mestre passo a passo, que deve ter em consideração as coisas de Deus, e não as dos homens. É, de resto, a mesmíssima linguagem posta na boca de JESUS aquando do chamamento de Pedro e André: «Vinde atrás de Mim (deûte ôpísô mou)» (Marcos 1,17).

 10. Seguindo atentamente «atrás de» Jesus neste caminho de formação que constitui a secção central de Marcos (8,27-10,52), estes sete Domingos fazem-nos viver, episódio após episódio, importantes situações pedagógicas.

 António Couto


11 DE SETEMBRO OU O VALOR DA VIDA HUMANA

Setembro 10, 2009

 


1. As imagens brutais de 11 de Setembro (2001), com aqueles dois aviões a embater contra as torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, deixaram-nos perplexos. Tanto poder, tanta ostentação, tanta riqueza tão rapidamente destruídos. O Livro do Apocalipse bem nos lembra, com vigorosas imagens, que todos os nossos impérios caem: «Ai, ai, ó grande cidade! Vestias linho puro, púrpura e escarlate, e adornavas-te com ouro, pedras preciosas e pérolas: numa só hora tanta riqueza foi reduzida a nada!» A citação é do Capítulo 18, versículos 16-17, mas todo o Capítulo 18 repete, com ligeiras variantes, este refrão. O Apocalipse fala assim do destino de Roma (a que chama Babilónia) e de todas as Romas de todos os tempos.


 2. Permitam-me que retome aqui o que deixei escrito em Janeiro de 2001, o mês que abria um novo tempo (ano, século, milénio). Escrevi então: «Nós, que agora transpomos o umbral do século XXI, carregamos na memória um grande saco de contradições: por um lado, os fantásticos progressos do século XIX, em todos os âmbitos da vida, da locomotiva ao avião, do telégrafo ao telefone, da física clássica à teoria da relatividade…; por outro lado, as indescritíveis catástrofes do século XX, com lugar marcado em Verdun e Estalinegrado, Auschwitz e Gulag, Hiroshima e Chernobyl… E ficamos com a sensação de que a “razão instrumental”, guiada por interesses perversos e ilimitados de poder, prevaleceu amplamente sobre a “razão como sabedoria” e sensatez ao serviço de todos os homens.


 3. Pelos cálculos de Hegel, o mundo moderno terá nascido em 1492 com a descoberta da América e de outros continentes pela Europa, que passou assim da periferia para o centro do mundo. Antes dessa data, os poderes da Europa eram insignificantes, quando comparados com os impérios Otomano, Mongol ou Chinês. Mas a América não foi apenas descoberta ou conhecida, mas sobretudo tomada pela força e formatada segundo a vontade dos conquistadores. Pouco depois, no século que medeia entre Copérnico (-1543) e Newton (1642-), tem lugar outra conquista significativa: a conquista da natureza pelo poder científico-técnico. Estas duas conquistas constituem as duas pedras-base da “nova ordem mundial”, que ainda hoje perdura, não obstante o centro ter passado entretanto da Europa para os EUA, como significativamente testificam as notas de um dólar, em que se pode ver escrito em latim novus ordo seclorum [= “nova ordem mundial”]. [Foi esta “nova ordem mundial” que, de certa forma, vimos com espanto desabar com as torres de World Trade Center.]


 4. É um pouco como o sonho megalómano de Nabucodonosor, apresentado no Capítulo 2 do Livro de Daniel: uma enorme estátua, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, os pés de barro. Mas uma pedrinha desce da montanha e vem embater contra os pés de barro da estátua. Resulta do embate que os pés de barro ficam pulverizados, mas igualmente se pulverizam as pernas de ferro, as coxas e o ventre de bronze, os braços e o peito de prata, a cabeça de ouro! Era assim o mundo de Nabucodonosor, imperador da Babilónia, e parece ser assim também a nossa sociedade pesada, rica, poderosa, técnica e metálica, mas com um grande défice de humanidade.


 5. O certo é que a ambição de poder e riqueza e a pesada indústria dos países ricos continua a explorar brutalmente os pobres da terra e a massacrar a natureza, amontoando assim ódios e buracos de ozono. No dealbar do século XXI, é bom pensar que uma simples pedrinha pode desfazer a pesada máquina das nossas inúteis megalomanias, e que mais vale ter uma cabeça cheia de bom senso do que de ouro, um coração de carne em vez de prata, um ventre de misericórdia em vez de bronze». Termina aqui o que escrevi em Janeiro de 2001, exceptuando apenas as actualizações contidas entre parêntesis quadrados.


 6. Lembra-te, meu irmão de hoje, que todos os impérios caem: os meus e os teus. Inexoravelmente. Porque, em última análise, são fracos. Quer estejam montados sobre o luxo quer sobre o ódio. Forte é o amor. Todos sabemos que qualquer pai ou mãe ou marido ou esposa ou filho ou irmão ou amigo daria de bom grado aquelas duas torres e muito mais para reaver o seu filho ou pai ou mãe ou marido ou esposa ou irmão ou amigo perdidos nos escombros daquelas torres. É tempo de velarmos pela salvaguarda do melhor que há em nós.


 António Couto


A ESTRELA DA ESPERANÇA

Setembro 3, 2009

 

1. Para muitos já as férias acabaram, e está de volta o trabalho, as aulas, aPERTO+DAS+ESTRELAS rotina. Portanto, vou hoje contar uma história tirada do baú da grande tradição hebraica. É uma história que fala de estrelas e de esperança, e daquilo que as estrelas e a esperança têm a ver connosco. Somos frágeis e pequenos, e é sempre bom aprender a levantar os olhos para o céu e a baixá-los sobre o coração.

 2. Era uma vez milhões e milhões de estrelas espalhadas pelo céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas, amarelas, prateadas, cor-de-rosa, vermelhas, azuis… Um dia foram à procura de Deus, Senhor de todo o universo, e disseram-lhe: «Senhor, gostaríamos de viver na terra, no meio dos homens». «Seja como quereis», respondeu Deus. «Podeis descer à terra. Conservar-vos-ei pequeninas, como sois vistas pelos homens».

 3. Conta-se que, naquela noite, houve uma deslumbrante chuva de estrelas. Acoitaram-se umas nas montanhas, enquanto outras se instalaram no meio dos brinquedos das crianças. Certo é que a terra ficou maravilhosamente iluminada.

 4. Algum tempo depois, porém, as estrelas resolveram abandonar a terra, e voltaram para o céu. A terra ficou outra vez escura e triste. «Por que voltastes?», perguntou Deus. Então as estrelas responderam: «Senhor, não aguentámos permanecer no meio de tanta miséria, violência, guerra, fome, doença, morte». Ao que Deus terá retorquido: «Tendes razão, estais melhor aqui no céu, em que tudo é sossego e perfeição, ao contrário da terra em que tudo é transitório e mortal».

 5. Depois de todas as estrelas se terem apresentado e de ter conferido o seu número, Deus anotou: «Mas falta aqui uma estrela; ter-se-á perdido no caminho?» Ao que um anjo, que estava por perto, respondeu: «Houve uma estrela que resolveu ficar na terra, porque pensa que o seu lugar é exactamente no meio da imperfeição, onde as coisas não correm bem». «Mas que estrela é essa?», perguntou novamente Deus. E o anjo respondeu: «por coincidência, Senhor, era a única estrela daquela cor». «Qual é a cor dessa estrela?», insistiu Deus. O anjo respondeu: «Essa estrela é verde, da cor da esperança».

 6. Olharam então para a terra, mas a estrela verde, da esperança, já não estava só. A terra estava outra vez iluminada, com luzes em todas as janelas, porque ardia uma estrela no coração de cada ser humano. A esperança, diz a tradição hebraica, é o único sentimento que o ser humano possui, e Deus não, porque, conhecendo o futuro, Deus já não espera. A esperança é própria do ser humano, que é imperfeito, que erra e que não sabe como será o dia de amanhã.

 7. Meu irmão de Setembro, rezo para que brilhe cada vez mais a estrela da esperança que arde em ti e na tua casa. E a nossa terra pode ser mais céu.

 António Couto