11 DE SETEMBRO OU O VALOR DA VIDA HUMANA


 


1. As imagens brutais de 11 de Setembro (2001), com aqueles dois aviões a embater contra as torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, deixaram-nos perplexos. Tanto poder, tanta ostentação, tanta riqueza tão rapidamente destruídos. O Livro do Apocalipse bem nos lembra, com vigorosas imagens, que todos os nossos impérios caem: «Ai, ai, ó grande cidade! Vestias linho puro, púrpura e escarlate, e adornavas-te com ouro, pedras preciosas e pérolas: numa só hora tanta riqueza foi reduzida a nada!» A citação é do Capítulo 18, versículos 16-17, mas todo o Capítulo 18 repete, com ligeiras variantes, este refrão. O Apocalipse fala assim do destino de Roma (a que chama Babilónia) e de todas as Romas de todos os tempos.


 2. Permitam-me que retome aqui o que deixei escrito em Janeiro de 2001, o mês que abria um novo tempo (ano, século, milénio). Escrevi então: «Nós, que agora transpomos o umbral do século XXI, carregamos na memória um grande saco de contradições: por um lado, os fantásticos progressos do século XIX, em todos os âmbitos da vida, da locomotiva ao avião, do telégrafo ao telefone, da física clássica à teoria da relatividade…; por outro lado, as indescritíveis catástrofes do século XX, com lugar marcado em Verdun e Estalinegrado, Auschwitz e Gulag, Hiroshima e Chernobyl… E ficamos com a sensação de que a “razão instrumental”, guiada por interesses perversos e ilimitados de poder, prevaleceu amplamente sobre a “razão como sabedoria” e sensatez ao serviço de todos os homens.


 3. Pelos cálculos de Hegel, o mundo moderno terá nascido em 1492 com a descoberta da América e de outros continentes pela Europa, que passou assim da periferia para o centro do mundo. Antes dessa data, os poderes da Europa eram insignificantes, quando comparados com os impérios Otomano, Mongol ou Chinês. Mas a América não foi apenas descoberta ou conhecida, mas sobretudo tomada pela força e formatada segundo a vontade dos conquistadores. Pouco depois, no século que medeia entre Copérnico (-1543) e Newton (1642-), tem lugar outra conquista significativa: a conquista da natureza pelo poder científico-técnico. Estas duas conquistas constituem as duas pedras-base da “nova ordem mundial”, que ainda hoje perdura, não obstante o centro ter passado entretanto da Europa para os EUA, como significativamente testificam as notas de um dólar, em que se pode ver escrito em latim novus ordo seclorum [= “nova ordem mundial”]. [Foi esta “nova ordem mundial” que, de certa forma, vimos com espanto desabar com as torres de World Trade Center.]


 4. É um pouco como o sonho megalómano de Nabucodonosor, apresentado no Capítulo 2 do Livro de Daniel: uma enorme estátua, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, os pés de barro. Mas uma pedrinha desce da montanha e vem embater contra os pés de barro da estátua. Resulta do embate que os pés de barro ficam pulverizados, mas igualmente se pulverizam as pernas de ferro, as coxas e o ventre de bronze, os braços e o peito de prata, a cabeça de ouro! Era assim o mundo de Nabucodonosor, imperador da Babilónia, e parece ser assim também a nossa sociedade pesada, rica, poderosa, técnica e metálica, mas com um grande défice de humanidade.


 5. O certo é que a ambição de poder e riqueza e a pesada indústria dos países ricos continua a explorar brutalmente os pobres da terra e a massacrar a natureza, amontoando assim ódios e buracos de ozono. No dealbar do século XXI, é bom pensar que uma simples pedrinha pode desfazer a pesada máquina das nossas inúteis megalomanias, e que mais vale ter uma cabeça cheia de bom senso do que de ouro, um coração de carne em vez de prata, um ventre de misericórdia em vez de bronze». Termina aqui o que escrevi em Janeiro de 2001, exceptuando apenas as actualizações contidas entre parêntesis quadrados.


 6. Lembra-te, meu irmão de hoje, que todos os impérios caem: os meus e os teus. Inexoravelmente. Porque, em última análise, são fracos. Quer estejam montados sobre o luxo quer sobre o ódio. Forte é o amor. Todos sabemos que qualquer pai ou mãe ou marido ou esposa ou filho ou irmão ou amigo daria de bom grado aquelas duas torres e muito mais para reaver o seu filho ou pai ou mãe ou marido ou esposa ou irmão ou amigo perdidos nos escombros daquelas torres. É tempo de velarmos pela salvaguarda do melhor que há em nós.


 António Couto

Uma resposta a 11 DE SETEMBRO OU O VALOR DA VIDA HUMANA

  1. Amália diz:

    É!, como eu não “vejo” que tenho “pés de barro”, não os aceito como tal, vivo na ilusão de que tudo e todos brilham e que eu brilho menos ou mais de que os outros, mas se eu os soubesse ver a eles “pés de barro” gerava-se um equilibrio de forças, a minha estabilidade seria intuitivamente ponderada, mais constante, real e todos os momentos da vida tinham uma bitola muito mais generosa.
    Obrigada por estas correcções ao teste da vida.
    Amália

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