UMA EUROPA ANESTESIADA E DORMENTE


 

1. «A liberdade é o poder de fazer tudo aquilo que não prejudique os outros». É esta a formulação exemplar que encontramos na famosa «Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão» (Art.º 4), saída da Revolução Francesa (1789), depois muitas vezes traduzida no aforismo: «A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro».

 2. É em nome deste princípio, que se diz habitualmente que a Europa é asamaritan1 terra natal dos direitos do homem. Porém, se não formos míopes, teremos de acrescentar logo que esse nascimento foi muito ambíguo e esses direitos muito restritivos, pois não afectam por igual todos os homens. Por exemplo, aquele «um homem (e todos aqueles que ele representa) que descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes que, depois de o roubarem e espancarem, se foram embora deixando-o meio morto», da conhecida parábola do bom samaritano (Lucas 10,30-37), ficaria excluído desses direitos.

 3. De facto, roubado e em estado de coma, aquele homem não é sujeito de nenhum poder nem de nenhum fazer. Ora, a fórmula exemplar da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, atrás referida, assenta, como vimos, no «poder fazer» aquilo que não prejudique os outros. Visto por este prisma, o homem da referida parábola fica duplamente excluído: primeiro, porque não é sujeito de nenhum poder e de nenhum fazer: nada «pode fazer», portanto; segundo, porque, ainda que porventura tivesse o «poder de pedir» auxílio – o que parece que nem é o caso –, é preciso ver que um tal gesto não teria, de facto, qualquer força de direito, pois se dirigiria a liberdades cuja essência consiste, como vimos, em «não prejudicar». Mas se o exercício da liberdade consiste em «não prejudicar», então basta abster-se de fazer o que quer que seja para se cumprir o articulado. É o que fazem, na parábola narrada, o sacerdote e o levita, que, tendo visto o homem em causa, passam simplesmente pelo outro lado da estrada, não se incomodando nem o incomodando.

 4. Ironia da história: a sociedade laica nasce imitando, inconscientemente com certeza, o comportamento das duas figuras clericais (o sacerdote e o levita) da parábola. Nasce assim como novo culto o culto do «eu» como «poder fazer», o culto do «eu» como senhor mais ou menos civilizado, engravatado, que não prejudica directamente os outros por palavras ou por obras, dado que passa simplesmente ao lado deles.

 5. É fácil de ver que este culto laico do «eu» é hoje uma religião com muitos praticantes, todos de bem com a sua consciência. A única obrigação que este culto impõe aos seus crentes é não fazer mal aos outros. É fácil de praticar: basta não se importar com eles. Mas hoje temos todos os dias à nossa porta e à beira das nossas estradas pessoas caídas, doentes, fragilizadas, abandonadas. Será que podemos passar por elas com a consciência tranquila, cientes de que passamos por elas sem as prejudicar?

 6. Entramos em Outubro. Tempo de voltar à escola. Tempo de aprender e de ensinar humanidade e cidadania. Tempo de descobrir que é urgente substituir o velho aforismo burguês e anestesiante, segundo o qual «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro», pelo implicativo e sempre inquietante «a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro».

 7. Em vez de continuares a passar tranquilamente e de boa consciência ao lado do outro, experimenta aproximar-te dele. Deixa-te incomodar por ele, meu irmão de Outubro.

 António Couto

3 respostas a UMA EUROPA ANESTESIADA E DORMENTE

  1. E.Coelho diz:

    Olá,

    Hoje, escutando este «eu»,fechado em si mesmo, apetece-me falar de SAUDADE.
    Um sentimento ABERTO, que é lembrança e ausência, nostalgia, melancolia, tristeza e alegria, amor,distância, perda…
    A saudade pode ser mágoa pela ausência, e pode ser satisfação; posso senti-la dos amigos, das conversas, dos lugares, de situações… de coisas que não fiz e não disse…
    Tenho saudades nas mais variadas circunstâncias, longe e perto, grandes e pequenas, dos aromas, dos sabores; encontro-a nos textos que leio, no dia e na noite, nos sons e no silencio… nas diferenças ou semelhanças, no tempo, na oração, quando menos espero… aí está ela!…
    Geralmente sinto alegria quando “mato a saudade”.
    Posso dizer que, quando Deus Pai Criador chama a alguém a si, tem saudade da Sua criatura e quer estar com ela; como posso dizer que tenho saudades de Deus…
    Saudade pode ser tudo isso e muito mais, normalmente é boa e bela e nunca é egoísta; não cabe no «eu», escapa-lhe, ultrapassa-o, expande-se. A saudade é cidadã do universo e pode ser partilhada, mesmo quando a guardo dentro, no mais fundo de mim, porque não quer ficar guardada. Sinto-a, respiro-a, alimento-a.
    Agrada-me, embala-me. Saudade é amor.
    Saudade é simplesmente… SAUDADE!
    Abraço,
    Elisa

    • José Frazão diz:

      Olá, Elisa. Conheço o D. António Couto, mas não a conheço a si. Também não é fundamental. Mas devo dizer que li e gostei do seu comentário, fluente e espontâneo, atestando não só a liberdade referida pelo D. António na assunção deste seu comentário, mas possibilitando também um alargamento e comunhão como a que agora acontece na colação de comentários, mais ou menos condizentes com o tema com que ele sempre nos brinda, com o nível impar das suas reflexões.
      Bem-haja, Elisa.
      E um bem-haja, SEMPRE ESPECIAL E ACTUAL, ao D. António Couto.

  2. E.Coelho diz:

    Olá, José Frazão,

    Obrigada pelo comentário. Também não o conheço (segundo parece), mas aqui poderemos trocar pontos de vista, (claro que, sempre sob o olhar atento do nosso Bispo de Azura). É já um privilégio para mim ver aqui o reconhecimento que D. António (que conheço bem) faz daquilo que penso e que aqui escrevo.
    Esta é a primeira vez que alguém “me” comenta.
    Prazer em conhece-lo. Julgo que vamos continuar a ver-nos por aqui…

    Obrigada,
    Elisa

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