HESITAÇÕES E DECISÕES NO CAMINHO


 

1. O justo, meu Servo, diz Deus, justificará muitos, diz Deus. Profeta «profetizado»: eis a verdade do profeta-servo. Não fala, mas é falado: fala Deus dele (Isaías 52,13-15; 53,11-12); falamos nós dele (53,1-10). Nós, batendo no peito, reconhecendo que as suas chagas não são o seu castigo merecido, mas cura para a nossa malvadez. De facto, vendo bem aquelas chagas, temos mesmo de reconhecer que foi a nossa violência e malvadez que as produziu. Diagnosticada a doença, podemos lançar mão do remédio. Deus apresenta-o como aquele que, entregando a sua vida à nossa violência, atravessa a nossa violência, sofrendo-a e dissolvendo-a por amor: é assim que nos justifica, isto é, nos transforma de pecadores em justos: milagre do perdão e da recriação do nosso Deus.

 2. Faz-nos bem a seguir cantar demoradamente com o Salmo 33(32): «Desça sobre nós a vossa misericórdia», e contemplar com encanto e emoção o rosto do novo sumo-sacerdote, Jesus, Filho de Deus, posto por escrito diante dos nossos olhos no trono da Cruz (Gálatas 3,1), para o vermos bem e para nos vermos bem: outra vez um rosto desfigurado pela nossa violência e malvadez, e a ternura e daquele olhar de graça, que nos redime e salva. É a extraordinária lição de Hebreus 4,14-16.

 3. E voltamos ao CAMINHO com Marcos 10,35-45. É a vez de Tiago e João,zebedeu os filhos de Zebedeu, que vão no CAMINHO desde o princípio, agora que o CAMINHO se aproxima do seu termo, se aproximarem de Jesus com um estranho pedido. Vão de pé no CAMINHO, mas querem SENTAR-SE em lugares de destaque. O narrador diz-nos que os outros Dez ficaram indignados. Entenda-se: não tanto pelo pedido em si, mas porque também pensavam a mesma coisa, e se viram antecipados.

 4. Jesus chama-os todos para si, para lhes dizer ao coração que há os CHEFES deste mundo que mandam e tiranizam e tiram a vida, e há os SERVOS que servem e dão a vida por amor, isto é, justificam.

 5. E aí está Jesus a apresentar-se de novo como verdadeiro Mestre pró-activo, que sabe o CAMINHO, ensina o CAMINHO e faz o CAMINHO: veio para SERVIR e DAR A VIDA por amor.

 6. Mas tudo ficará mais claro, quando, no próximo próximo Domingo (XXX)bartimeu se vir bem o confronto produzido pelo episódio do Cego de Jericó (Marcos 10,46-52), paradigmaticamente colocado no termo do CAMINHO.

 7. O Cego está sentado (a posição ansiada por João e Tiago e pelos outros Dez) à beira do caminho. Grita porque, sendo cego, é um excluído. Mas aí está o Mestre pró-activo: PÁRA (descendo ao nível do cego) e CHAMA (incluindo o excluído). Sem hesitação, o cego atira logo fora o manto (a sua subsistência, a sua vida), e, com um salto, de forma decidida e enérgica, fica no lugar certo (junto de Jesus). Jesus faz-lhe a mesma pergunta que fez a João e a Tiago: «Que queres que Eu te faça?» Resposta óbvia do cego: «Que eu veja!» Ordem de Jesus: «VAI!»

 8. Poucos se apercebem. Mas «VAI!» não é a resposta adequada ao pedido do cego: «Que eu veja!» A resposta adequada seria: «Vê!», como está, de resto, no episódio paralelo de Lucas 18,42.

 9. Mas, de facto, o cego obedeceu à ordem nova de Jesus. Diz-nos o narrador que SEGUIA JESUS NO CAMINHO! Note-se o SEGUIA (imperfeito de duração). Modelo do discípulo de Jesus.

 10. Vejam-se atentamente os confrontos: 1) o cego está SENTADO, mas põe-se de pé; de pé vão os discípulos de Jesus, mas querem SENTAR-SE; 2) o cego deixa tudo (atira fora o manto), mas os discípulos querem saber o que ganham; 3) o cego está à beira do CAMINHO, mas entra no CAMINHO para seguir Jesus no CAMINHO; o homem rico de Marcos 10,17-22, que encontrámos no Domingo XXVIII, entra no CAMINHO, mas sai logo do CAMINHO…

 11. Tantos desafios e provocações, modelos e contra-modelos, para nós, discípulos que hoje seguimos Jesus no CAMINHO!

 12. Não nos esqueçamos ainda que passa hoje (18 de Outubro) o 83.º Diaglobeanim5b Missionário Mundial. Dia indicado para «CAMINHARMOS à sua LUZ» (tema da Mensagem do Papa), para compreendermos, com o Papa, que «A missão ad gentes deve ser a prioridade dos nossos planos pastorais», «que toda a Igreja se deve empenhar na missão ad gentes» e que «a tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja».

 13. Se vejo bem, para cumprirmos estes desideratos que o Papa lança à Igreja e a cada um de nós, temos mesmo de virar quase tudo do avesso! Exactamente como aqueles discípulos de Jesus no CAMINHO!

 António Couto

7 respostas a HESITAÇÕES E DECISÕES NO CAMINHO

  1. Luisinha diz:

    Fico a pensar de que outra forma eu poderia ter acesso a estas explicações sobre a Doutrina. Gosto muito da forma como falas, parece que contas uma história, despreocupadamente, gratuitamente, mas sempre com um fundo que pretende verdadeiramente cativar, ensinar, encaminhar. Como não podia deixar de ser, gostei muito desta explicação que me fez entender melhor esta passagem de Jesus e os seus Apóstolos. Acho incrível como cada passo, cada palavra que eles têm escondem um ensinamento que nos leva ao interior de nós mesmos e nos faz reflectir imenso na nossa vida, na nossa conduta e no próximo. Afinal não era isso que Jesus queria? A sua naturalidade divina conseguiu-o, acho que depende da nossa naturalidade de pecadores seguir o que Ele nos propõe! Para quem até há pouco tempo não sabia sequer procurar passagens na Bíblia, acho que aprendo muito aqui contigo! Obrigada!

    Paz e Bem
    Luisinha

  2. manuela diz:

    ” … Aquele que, entregando a sua vida à nossa violência, atravessa a nossa violência, sofrendo-a e dissolvendo-a por amor: é assim que nos justifica, isto é, nos transforma de pecadores em justos: milagre do perdão e da recriação do nosso Deus.”

    Nunca me canso de anunciar que Jesus porque muito nos ama entregou-se (morreu e ressuscitou) para nos suscitar, salvar. A morte/ressurreição de Jesus não é coisa do passado, ela acontece sempre que deixamos que o Reino de Deus cresça aqui e agora.
    Agradeço a possibilidade que me dá de me sentir cada vez mais pertinho de Jesus, mais atenta aos irmãos.

    Bem-haja, meu irmão, em Cristo.

  3. jose oliveira diz:

    Que feliz sou quando dou algo,sem receber nada em troca.
    Não! A verdade dou algo que me foi já concedido,por CRISTO.Tal é a Graça em ter saúde para poder partilhar esse acto.
    Como tal devemos continuar a partilhar,servir e dar tudo o que podermos, para que possamos ser servidores em CRISTO. E se nos desprendermos de algo que até queremos e gostamos por uma boa causa ,aí seremos Missionários.
    Como disse, (JOÃO PAULO II)« Pacem in terris»:um compromisso permanente.
    Um abraço fraterno e até Sempre.

  4. Emilia Mota diz:

    Sempre quis ser Missionária .Este dia , celebrado anualmente , vivo-o com uma espiritualidade muito especial. Hoje já com alguns anos contados e vividos sinto interiormente que a minha acção missionária passa somente por viver a grandeza do amor de Deus para comigo e ajudar aqueles aquem me dedico(doentes)a acolherem este Amor no seu coração , a viverem reconciliados com o sofrimento que a vida contem .
    Obrigada pelas suas palavras .
    Saudações em Cristo.
    A certeza da minha oração. Emília

  5. E.Coelho diz:

    Olá,
    Pois é. É preciso mesmo virar tudo do avesso!

    Mais ainda, precisamos de NOS virar do avesso, pois o que mostramos e fazemos é que devia estar no «avesso» do nosso ser, escondido porque impróprio do ser-de-Deus que cada um de nós é.

    O «direito» do nosso vestido, da «roupa» com que nos cobrimos, está espremido, encarcerado. Trocou de lugar com o avesso. À sua volta encontramos tudo o que nos esmaga. Condenamos a violência, batemos com a mão no peito, mas deixamo-nos estar; caminhamos(?) ao lado do Caminho ou contra ele, sem o querer ver, sem corrigir ou parar o passo, pois isso desviar-nos-ia da «corrente» e nós temos de seguir a corrente para não sermos esmagados. O remédio existe e sabemos que existe, mas exige esforço, e nós não queremos sair da posição em que estamos (sentados, deitados ou de pé).Na corrente!
    Somos preguiçosos, até para ir «seguindo» o mestre; dizemo-nos discípulos, mas queremos possuir ambas as faces da moeda, quando afinal ficamos com apenas uma delas, a do TER/PARECER. Não a do SER! Pois não vemos que apesar do remédio parecer ser amargo é nele que está a cura. E não o tomamos, com medo. Vemos a escuridão e nem sequer espreitamos a LUZ que a escuridão oculta. E tropeçamos e tornamos a tropeçar; e quantas vezes desistimos…

    Então, quando a corrente nos deixa no lamaçal, à margem, porque nem sequer a queríamos seguir, (simplesmente nos deixámos levar) lembramo-nos d’Ele. E batemos outra vez com a mão no peito porque sabemos e até acreditamos que Ele NUNCA abandona pois teve a coragem de nos mostrar que, afinal, nós podemos ir «contra a corrente», como Ele, nosso irmão o fez.

    Visto assim, isto é assustador… e impele-nos a nada fazer, a não dar a cara, a virá-la para o outro lado, para não ver, não escutar e assim não ter de decidir. O nosso umbigo continua a ser a parte mais importante de nós. Os nossos olhos fecham-se, a nossa Luz permanece escondida, … à espera de ser colocada no devido lugar.

    INSENSATOS! É o que somos! E, mesmo, irracionais!
    Abraço grande,
    Elisa

  6. Ed diz:

    Boa noite, D. António.

    É um prazer ver que partilha toda a sua sabedoria com o mundo, utilizando o que de bom tem a tecnologia. Da parte que me toca, muitíssimo obrigado.

  7. Elisa diz:

    Boa noite D. António.
    Que bom é, ter a possibilidade de ler estes palavras cheias de sabedoria!
    Obrigada pela partilha de tantos conhecimentos, neste espaço virtual!
    Bem haja.
    Elisa

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