É OUTRA VEZ NOVEMBRO


1. O tempo em que vamos parece o de Thomas Hobbes, quando, em 1651, deixou escrito no seu famoso Leviatã, que «tudo o que existe tem três dimensões, a saber, comprimento, largura e altura, e aquilo que não tem três dimensões não existe nem está em parte alguma». Com este procedimento, Hobbes, e alguns dos nossos contemporâneos com ele, reduzem o homem a um objecto, sem alma nem emoções, sem alegria nem tristeza, sem encanto e sem sonho, sem Deus. É um homem à medida do cadáver, e um mundo à medida do cemitério, tudo formatado e tresandando a amoníaco. É o mundo do «dois vezes dois são quatro», de que fala Dostoievski nos seus Cadernos do Subterrâneo, acrescentando logo, em jeito de confissão: «O homem sempre teve medo deste dois vezes dois são quatro, e eu também tenho».

 2. Na esteira do grande escritor russo, vale a pena mostrar aqui um extracto das recentes e densas análises de O Método, de Edgar Morin: «O dogma da simplificação que contém a morte continua a impor-se por aí como verdade científica (…), e continua a rejeitar para fora do saber aquilo que resiste ao seu controlo. E os defensores deste dogma – continua Edgar Morin – vêem-nos como miseráveis, pedintes, esgadanhando os dejectos das suas lixeiras». E acrescenta depois de forma contundente: «Num sentido, eles têm razão: nós queremos recuperar e reciclar os dejectos que a sua ciência expulsa: não apenas o incerto, o impreciso, o ambíguo, o paradoxal, a contradição, mas também o ser, a existência, o indivíduo, o sujeito. Julgam deitar fora os excrementos do saber: não sabem que atiram para o lixo o ouro do tempo».

 3. Nada de novo. Seis séculos a. C., já o filósofo grego Heraclito deixava escrito, no seu Fragmento 9, que «Os burros preferem a palha ao ouro». E já no nosso tempo, Martin Heidegger, debruçando-se, nos seus Ensaios e Conferências, sobre a referida sentença de Heraclito, pôde lê-la para nós, explicitando que este «ouro» depreciado é «o brilho não visto da claridade, e não se deixa agarrar, porque ele próprio não agarra», porque não é do domínio da posse, não obedece à regra das três dimensões.

 4. Anda hoje outra vez por aí muito badalada a cultura das três dimensões. E é nesse sentido que dos hospitais se pretende retirar os capelães, porque aos doentes, reduzidos a três dimensões, bastam os cuidados técnicos que lhes são prestados por técnicos, da mesma forma que das escolas se pretende retirar os crucifixos, porque às crianças basta o alfabeto, a tabuada e a fita métrica, e a Igreja deve ser marginalizada, silenciada e banida como verdadeira fonte de ignorância, dado que o que diz e faz está para além das três dimensões, e já se decretou que o que não tem três dimensões não existe nem está em parte alguma.

 5. Mas Novembro entra-nos outra vez em casa. E, não se sabe bem porquê, também os defensores da cartilha das três dimensões aparecem a visitar o cemitério e a depor flores nos túmulos dos seus familiares e amigos. E até, muito provavelmente, entrarão em alguma Igreja. Novembro é habitado por um silêncio gritante. Um silêncio que nunca se calou. E as flores, carregadas de sentido, mas silentes, são sempre as últimas a deixar o cemitério. Sim, porque, que se saiba, o sentido nunca fez barulho, nunca faz barulho. Um texto, por exemplo, é letra e som. Mas quando o interpretamos, não é a letra e o som que captamos, mas o sentido que habita essa letra e esse som. Afinal, por mais esforço que se faça, não é possível reduzir o homem a três dimensões. Há sempre uma flor ou uma lágrima, cujo sentido se chama amor, e que não é redutível a três dimensões.

 6. Novembro lembra-nos outra vez que passamos muito tempo e que talvez gastemos até muitas energias a deitar para o lixo o ouro do tempo! Lembra-te, meu irmão de Novembro, que és pó e amor. E o amor não volta ao pó.

 António Couto

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6 Responses to É OUTRA VEZ NOVEMBRO

  1. Ed diz:

    Boa noite D. António.

    Porque não tenho outro meio, tenho de utilizar este… Embora eu conheça a sua cara, o D. António duvido que conheça a minha (o que não é nada de estranho…)

    Cá em Melgaço publicamos um jornalzito (Zebrisco do Alto Mouro)cujo número 9 irá sair brevemente (em Dezembro). Gosto imenso das suas reflexões, mas gostei muito deste ‘post’ porque refuta a tese das ‘três dimensões’e enquadra-se bem no espírito da dita publicação.

    Gostaria de o publicar no dito jornal. Mas claro, depois de obter a sua autorização.

    Obrigado desde já e bem haja pela sua clareza de mente…

  2. E.Coelho diz:

    Boa noite,

    Depois de ter lido, de rajada, esta reflexão, não tenho nada a dizer. Nem me atrevo ainda a comentar… Vou digerir com calma…

    Abraço

  3. Luisinha diz:

    Olá António Couto!
    Sobre a teoria das 3 dimensões, penso que já li alguma coisa sobre isso… Mas como sou um bocado cabeça de vento já não me lembro… Acho que é um tema com muitas coisas envolventes a serem reflectidas. Gostei muito de ler!
    Fizeste-me reflectir numa coisa que tem relação directa na minha vida com esta frase: “Novembro lembra-nos outra vez que passamos muito tempo e que talvez gastemos até muitas energias a deitar para o lixo o ouro do tempo!”
    Prometo que vou tentar melhorar…

    Obrigada!
    Paz e Bem
    Luisinha

  4. Dulce diz:

    (…) Um texto, por exemplo, é letra e som. Mas quando o interpretamos, não é a letra e o som que captamos, mas o sentido que habita essa letra e esse som (…) Há sempre uma flor ou uma lágrima, cujo sentido se chama amor, e que não é redutível a três dimensões (…)

    Olá.
    Boa Noite, D. António Couto.

    É tão verdadeiro o que escreve (!) e, ressalta ao lermos as palavras que supra transcrevi do Seu texto, e a propósito permita-me dedicar este poema, belíssimo, ao Irmão de Novembro,
    a Todos

    “Urgentemente

    É urgente o amor
    É urgente um barco no mar

    É urgente destruir certas palavras,
    ódio, solidão e crueldade,
    alguns lamentos, muitas espadas.

    É urgente inventar alegria,
    multiplicar os beijos, as searas,
    é urgente descobrir rosas e rios
    e manhãs claras.

    Cai o silêncio nos ombros e a luz
    impura, até doer.
    É urgente o amor, é urgente
    permanecer.”

    (Eugénio de Andrade)

    É urgente lembrarmos..o amor,
    em Novembro
    e Sempre,

    E Sempre permanecer.

    (Gostei especialmente desta vela, da LUZ que aqui nos Ilumina)

    Obrigada pelas palavras tão significativas e neste tempo tão dignas à nossa melhor reflexão.
    Dulce

  5. joaquim diz:

    Muito Bom Dia!

    «Num sentido, eles têm razão: nós queremos recuperar e reciclar os dejectos que a sua ciência expulsa: não apenas o incerto, o impreciso, o ambíguo, o paradoxal, a contradição, mas também o ser, a existência, o indivíduo, o sujeito. Julgam deitar fora os excrementos do saber: não sabem que atiram para o lixo o ouro do tempo».

    Hoje são os pobres, os deserdados, os ignorados, os que vemos – os que ainda temos a coragem de olhar – a prescrutar os caixotes de lixo na ânsia encontrar algo de material para matar a fome.
    Amanhã – veremos concerteza – não os pobres, mas os “perdidos”, a esgadanhar nos “excrementos” à procura da “luz” para encontrarem tudo aquilo que deitaram fora. E não encontrarão nada.
    Então perguntarão pelos pobres… pela misericórdia, pelo Amor, pela Salvação…
    Hão-de olhar para o Céu.

    Shalôm!

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