OS NOSSOS REINOS E O REINO DE DEUS

Novembro 21, 2009

1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de acção, que já tinha fundado a Acção Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se dos valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

 2. «O Senhor Reina!» (Salmo 93(92),1). É assim que, no Antigo Testamento, o Deus bíblico se apresenta em acção reinando, isto é, salvando, justificando, perdoando, criando. Na verdade, Reinar é Salvar, isto é, trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade ao seu Povo. É esta a missão do Rei. Salvar é justificar, o que implica a extraordinária acção de transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, Perdoar. Neste profundo sentido, Justificar e Perdoar são acções que só Deus pode fazer, dado que, transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar. E da acção de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o activo «Deus Reina» no mais abstracto «Reino de Deus».

 3. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respectivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes (Babilónia, Média, Pérsia, Grécia), por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1). Aí está o domínio dos animais, entenda-se, da animalidade, que é confiado ao Homem (à distância surge o Filho do Homem) logo desde o Génesis 1,26-28.

 4. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor frágil, forte, que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa prepotência!

 5. Tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a nossa violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, dissolvendo-a. É assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Judeus e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência, orgulho e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.

 6. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras do nosso coração empedernido. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta bravia que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro. Bem visto por Judas na sua pequena Carta (apenas um Capítulo), infelizmente pouco lida e meditada: «Aqueles que seguem o caminho de Caim são como animais sem palavra» (Judas 10-11).

 António Couto