PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA!


 

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 24,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, as mesmas palavras são repetidas no refrão do Salmo responsorial. Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Erguei-vos e levantai a cabeça» (Lucas 21,28). É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

 2. «Orando em todo o tempo», diz, a terminar, a lição do Evangelho deste Primeiro Domingo do Advento (Lucas 21,25-28 e 34-36). «Orar em todo o tempo» significa não se deixar enterrar na lama dos caminhos banais e fúteis deste tempo, de qualquer tempo, e que o Evangelho mostra que a busca desenfreada do sucesso e das falsas soluções da devassidão, da embriaguez e das preocupações da vida é uma teia que nos enreda e não nos deixa ver bem, belo e bom. Andamos sempre tão atarefados com inúmeros afazeres, campos, bois, negócios, casamentos, que ficamos com o «coração pesado» e insensível, incapaz de ver o Filho-do-Homem-que-vem, a qualquer hora, nos nossos irmãos mais pequeninos! Ora, o Advento é o Filho do Homem que vem, para que nós o acolhamos. Se o acolhermos, saímos fora da teia dos nossos afazeres que nos sufoca, o penúltimo, e entramos no mundo maravilhoso do Último, do Amor, da Liberdade, que rompe as nossas cadeias.

 3. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

 4. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde com novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Dar nome é criar e recriar. Obra só de Deus. Que Deus faça nascer um «rebento» novo em cada um de nós e em toda a parte. Jeremias vê sempre bem, belo e bom! (Jeremias 33,14-16).

 5. Paulo passa por Tessalónica, ou pela nossa terra, e ensina-nos a levantar a nossa vida para Deus, para dele acolhermos o alento criador, e a rivalizarmos no pagamento das dívidas de amor que dia-a-dia vamos contraindo uns para com os outros. O exemplo é sempre o amor que Deus nos tem, e de que Paulo é testemunha qualificada.

 6. Vem, Senhor Jesus! Vem, vem, que Te esperamos!

 António Couto

2 Responses to PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA!

  1. E.Coelho diz:

    Olá,
    Se pensar um pouquinho, … poderei dizer,
    – Se há caminhos fúteis, é agora (no Advento-Natal-Epifania) que estes se mostram como avenidas, auto-estradas da loucura humana, da desordem , do desequilíbrio , da des+humanização.
    – Em João 1, 51 é colocada na boca de Jesus a frase, “Vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”, concordando com o sonho de Jacob em Betel, onde uma escada unia o céu à terra e onde os anjos de Deus subiam e desciam, numa evidente prefiguração da união do Princípio com Fim, (Alfa e Omega).
    – Principio do homem dado a si mesmo por Deus, por amor (citei A. Couto), tornado realidade no Emmanuel (Deus connosco), Jesus, um Menino que desperta em nós(ou deveria despertar) toda a ternura, toda a nossa atenção.
    – Quando pensamos «escada» pensamos em subida, mesmo sabendo que por ela também se desce. A Escada deste Advento, aponta-nos para o DESCER, para o cumprimento da promessa d’Aquele que quis descer, passando entre os animais, acariciado e aquecido por eles, para viver connosco, para nos dar a mão pela mão de Sua mãe. – — Assim, por amor, todos recebemos o convite de, mão na mão com Jesus, passar também pela singeleza da estrebaria, pelos animais, (sem bezerros de ouro -Ex 32), para com Ele subirmos, pela mesma escada, até ao Princípio, à Sua-nossa casa, ao mundo maravilhoso do Pai.
    – O Advento-Natal deveria ser apenas aquele que permitisse subir e descer por uma escada NOVA e BOA, como os anjos e com eles, e de mão dada com o Filho do Homem. Então não teríamos espaço para nos sentirmos abandonados, pois Deus prometeu a Jacob e a todos nós: “Eu estou contigo e proteger-te-ei (…) não te abandonarei enquanto não tiver cumprido o que prometi.”
    – Saibamos conservar a escada no seu lugar, renovando-a, reforçando-a, olhando para ela, USANDO-a! Mesmo tendo a certeza, que vamos tentar levar connosco algo desnecessário, se calhar um coração mais pesado do que deveria.
    Que o Natal não sirva para «camuflar» a falta de Amor de todo um ano. Que ele sirva para ver, ouvir, cheirar e beijar, ACOLHER, de mãos abertas, Aquele que vem, aqueles que vêm.
    – Cantemos Glórias, não Oh Oh Oh!
    Abraço
    Elisa

  2. Dulce diz:

    “É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!”

    Jesus disse um dia aos Seus discípulos, “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei(!)”

    A verdade é penso-o de que quem se compromete pelo Amor,sentirá a grandeza da sua vida, a certeza de cada a vida é um milagre, nada nos é impossível, desde que com Deus na nossa vida.
    Jesus irá nascer e trar-nos-á tão grande alegria,sê-lo-á a presença de Deus junto de nós. E o mais importante: que saibamos comprometer-nos nesta vida cristã pela aproximação ao outro que sei que precisa e vai gostar tanto. E a presença de Deus em cada um de nós será então mais forte.

    Não devemos fechar esta alegria da vinda de Jesus dentro de nós, temos de a trazer para as ruas, onde quer que estejamos, para as nossas vivências do dia a dia.

    E estes dias de festa e de alegria, sê-lo-ão de encontro, inquestionávelmente, sê-lo-ão: a melhor expressão viva da nossa Fé!!

    D. António Couto,
    Para Si um abraço neste tempo que o é
    de Esperança.

    Dulce

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