A PRIORIDADE DA PASSIVIDADE E DA RECEPTIVIDADE

Dezembro 1, 2009

 

1. Pelo nascimento, escrevia Paul Ricoeur já em 1950, «fui posto no mundo de uma vez por todas e fui posto no ser antes de poder pôr voluntariamente algum acto […]. Eu sou sempre depois do meu nascimento». Trata-se de um dado iniludível: quando tomamos consciência de nós (o célebre cogito de Descartes), já temos um pai e uma mãe, já somos filhos. E ser filho, antes de implicar qualquer encargo ou função, significa reconhecer ter recebido a vida através de um acto que precedeu a nossa vontade. Temos atrás de nós uma origem e um nascimento que não tivemos ocasião de querer ou não querer: está fora do âmbito da nossa vontade. Nesse sentido, reconhecermo-nos como filhos, é descobrirmo-nos como recepção originária da vida proveniente de um amor (ou não) que nos precede.

 2. Muitas vezes, só quando somos seriamente abanados pela doença, é que tomamos consciência desta nossa condição passiva originária, dado que a doença mostra violentamente que o corpo precede a vontade e o desejo, sendo já dado antes que se possa querê-lo.

 3. A filósofa espanhola María Zambrano, que foi aluna de Ortega e de Zubiri, e que faleceu em Madrid em 1991, mostrou de maneira clara esta nossa passiva e receptiva condição originária inscrita na nossa própria fisiologia. Basta saber ler a simbologia inscrita nos nossos órgãos fundamentais, tais como o coração, os pulmões, o estômago, os intestinos, o cérebro. Todos sabemos que é o seu bom funcionamento que nos mantém vivos, mas tal funcionamento deriva do facto de serem cavos, ocos, receptivos. Claramente: se nada receberem, não funcionam. São passivos e receptivos antes de serem activos. A sua passividade e receptividade é mesmo condição necessária para a sua actividade.

 4. O que acabámos de mostrar contrasta de maneira séria e significativa com o estilo muito executivo, super-activo e super-produtivo do homem de hoje, sempre a correr e com horas marcadas para tudo. Se somos prioritariamente passividade e receptividade, é então fundamental – até para a saúde – adoptar um novo estilo de vida, marcado também e mesmo prioritariamente pela recepção [de si mesmo e do Outro/outro], meditação, oração, silêncio, tranquilidade, serenidade. Por outras palavras: é necessário viver mais na forma passiva e menos na activa.

 5. Neste sentido, a Bíblia dá-nos uma ajuda. De facto, as principais personagens aí apresentadas – como o «Messias» (mashîah), o «profeta» (nabî), o «príncipe» (nasî), o «consagrado» (nazîr), o «líder» (nagîd), o homem «bom» (hasîd), até o «pobre» (anî) – são pessoas que vivem na passiva, sempre dependentes de Deus e por conta de Deus, e não na activa e por conta própria. Gramaticalmente, os nomes hebraicos referidos são mesmo formas nominais passivas, chamadas qatîl.

 6. Temos necessariamente de continuar a aprender a ser homens, meu irmão sentado às portas de Dezembro, do frio e da neve, do lume a arder no coração, das crianças felizes, do sentido em brasa do Natal!

 António Couto