A PRIORIDADE DA PASSIVIDADE E DA RECEPTIVIDADE


 

1. Pelo nascimento, escrevia Paul Ricoeur já em 1950, «fui posto no mundo de uma vez por todas e fui posto no ser antes de poder pôr voluntariamente algum acto […]. Eu sou sempre depois do meu nascimento». Trata-se de um dado iniludível: quando tomamos consciência de nós (o célebre cogito de Descartes), já temos um pai e uma mãe, já somos filhos. E ser filho, antes de implicar qualquer encargo ou função, significa reconhecer ter recebido a vida através de um acto que precedeu a nossa vontade. Temos atrás de nós uma origem e um nascimento que não tivemos ocasião de querer ou não querer: está fora do âmbito da nossa vontade. Nesse sentido, reconhecermo-nos como filhos, é descobrirmo-nos como recepção originária da vida proveniente de um amor (ou não) que nos precede.

 2. Muitas vezes, só quando somos seriamente abanados pela doença, é que tomamos consciência desta nossa condição passiva originária, dado que a doença mostra violentamente que o corpo precede a vontade e o desejo, sendo já dado antes que se possa querê-lo.

 3. A filósofa espanhola María Zambrano, que foi aluna de Ortega e de Zubiri, e que faleceu em Madrid em 1991, mostrou de maneira clara esta nossa passiva e receptiva condição originária inscrita na nossa própria fisiologia. Basta saber ler a simbologia inscrita nos nossos órgãos fundamentais, tais como o coração, os pulmões, o estômago, os intestinos, o cérebro. Todos sabemos que é o seu bom funcionamento que nos mantém vivos, mas tal funcionamento deriva do facto de serem cavos, ocos, receptivos. Claramente: se nada receberem, não funcionam. São passivos e receptivos antes de serem activos. A sua passividade e receptividade é mesmo condição necessária para a sua actividade.

 4. O que acabámos de mostrar contrasta de maneira séria e significativa com o estilo muito executivo, super-activo e super-produtivo do homem de hoje, sempre a correr e com horas marcadas para tudo. Se somos prioritariamente passividade e receptividade, é então fundamental – até para a saúde – adoptar um novo estilo de vida, marcado também e mesmo prioritariamente pela recepção [de si mesmo e do Outro/outro], meditação, oração, silêncio, tranquilidade, serenidade. Por outras palavras: é necessário viver mais na forma passiva e menos na activa.

 5. Neste sentido, a Bíblia dá-nos uma ajuda. De facto, as principais personagens aí apresentadas – como o «Messias» (mashîah), o «profeta» (nabî), o «príncipe» (nasî), o «consagrado» (nazîr), o «líder» (nagîd), o homem «bom» (hasîd), até o «pobre» (anî) – são pessoas que vivem na passiva, sempre dependentes de Deus e por conta de Deus, e não na activa e por conta própria. Gramaticalmente, os nomes hebraicos referidos são mesmo formas nominais passivas, chamadas qatîl.

 6. Temos necessariamente de continuar a aprender a ser homens, meu irmão sentado às portas de Dezembro, do frio e da neve, do lume a arder no coração, das crianças felizes, do sentido em brasa do Natal!

 António Couto

3 Responses to A PRIORIDADE DA PASSIVIDADE E DA RECEPTIVIDADE

  1. Luisinha diz:

    Olá António Couto!
    Será que conseguimos ser passivos na activa? É que a universidade dá tanto que fazer… É inevitável dar por mim sem muito tempo para as coisas que gosto e que pertencem muito a essa passividade…
    Às vezes tenho medo de não conseguir, porque é o último ano… Mas se Deus quiser vai correr tudo bem!
    Que lindas as imagens que escolheste para pôr aqui!

    Paz e Bem
    Luisinha

  2. JOSE OLIVEIRA diz:

    Olá,
    Reflexão e pensamento!
    Como humano que sou,pecador e sendo filho,lendo e reflectindo o texto,passo a falar na primeira pessoa.
    Estou,”estamos”a passar por esta crise e sinto se não tivesse passado de passivo(um pouco indiferente) para mais activo diligente,zeloso par com DEUS, provavelmente não aguentaria tal crise,pois como sinto que já recebi a GRAÇA de SER Filho e também Pai.Sou um privilegiado.E como tal
    Quero espero e Amo,peço perdão pelos que não crêem não adoram e não O AMAM.
    Até sempre.

  3. E.Coelho diz:

    Boa Noite.
    Poderá então dizer-se que esta RECEPTIVIDADE decorre necessariamente de uma «paragem», de uma ida ao nosso próprio «deserto» para aí, sem «distracções» nem afadigamentos mundanos, recuperarmos a nossa capacidade de abrir as mãos, para RECEBER.
    Receber de Graça, pois será de Graça que teremos de repartir o que nos foi dado. Este estado de Receptividade é, assim, a condição obrigatória para o reconhecimento-interiorização da nossa condição humana de SER HUMANOS de Deus e para Deus. Só depois poderemos ser ACTIVOS na participação-criação-comunhão, continuando a ser e a querer ser PASSIVOS na recepção do dom, de todos os dons. Até porque, só na serenidade dos nossos corações, nesse estado de «passividade» conseguiremos alguma vez descobrir-aceitar o dom como DOM (que não deve ser enterrado…), a graça de sermos «filhos» desejados-queridos por Deus.
    É assim que passamos pela oração, pelo tempo (kairós) dado (devolvido) a Deus. Arrisco a dizer ainda que, neste caso, o tempo (kronos) deixa de importar e de fazer efeito.Simplesmente desaparece!(afinal não é ele já uma invenção do homem?)
    Abraço grande
    Elisa

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