UM CAMINHO DIRECTO AO CORAÇÃO


 

1. O Evangelho do Domingo II do Advento (Lucas 3,1-6) rasga este mundo ao meio de forma clara e impiedosa. Diz o narrador, com a precisão do bisturi, que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tibério César, Herodes Antipas, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás, e nós podemos sempre actualizar esta lista, incluindo nela outros nomes e o nosso também. Aí está o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que é a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Hebreus 4,12): a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e poderoso, impiedoso e insensível, e, para espanto nosso, vai cair sobre um pobre, João Baptista, que não habita em palácios, mas no deserto!

 2. No deserto nada é obra das mãos do homem. Nada é idolátrico, portanto. É tudo obra das mãos de Deus. Nova criação à vista, onde irrompe outra vez a voz de Deus: uma voz que nunca se ouviu, um silêncio que nunca se calou! Caminhos novos, rectificados, plenificados. Pura engenharia divina. A salvação de Deus ao alcance de todos. Universalidade. É significativo que, ao contrário de Mateus 3,3, de Marcos 1,3 e de João 1,23, que citam apenas Isaías 40,3, Lucas cita Isaías 40,3-5, para incluir que «toda a carne verá a salvação de Deus». «Toda a carne», isto é, toda a humanidade. Como habitualmente, Lucas é universalista e missionário (Evangelho missionário), e quer que a voz criadora de Deus desenhe caminhos novos para todos, retina em todos os ouvidos e leve a salvação a todos os corações.

 3. Este Domingo II do Advento serve-nos também a delícia de Baruc 5,1-9, isto é, todo o Capítulo 5 do Livro deuterocanónico de Baruc. Baruc passa por ser o secretário de Jeremias. Mas o Livro de Baruc, só conhecido em grego, é tardio. E canta, de forma esplendorosa, a cidade de Jerusalém personificada como Esposa e como Mãe. Esposa de Deus, e como tal maravilhosamente vestida e adornada, e como Mãe dos filhos de Deus, que regressam festivamente a Casa, vindos dos quatro cantos do mundo, unidos e reunidos, livres e felizes, saídos de todas as opressões.

 4. Por detrás desta Esposa bela e Mãe radiante, aí está a Noiva do Apocalipse, bela como uma Esposa adornada para o seu Esposo, a Igreja nossa Mãe. No texto de Baruc, esta Esposa-Mãe recebe um nome novo, dado por Deus. Quando é Deus a dar o nome, isso significa criar: nova criatura, dilecta, imagem perfeita de Deus, filha do amor, mãe do amor. Nós, que formamos esta Igreja, Esposa bela e Mãe radiante, não podemos hoje deixar de cantar bem alto a nossa gratidão e a nossa alegria. Impõe-se ainda que façamos da nossa Igreja local, da nossa Paróquia, onde nos reunimos, a Casa carinhosa e acolhedora de Deus no meio das casas dos seus filhos e das filhas.

 5. Para dizer esta alegria baptismal, temos de cantar que «o Senhor fez maravilhas em favor do seu povo». É o Salmo 126(125), o canto do regresso a Casa, de um sonho feliz, da estação das canções e das colheitas. Verdadeiramente Deus cuida de nós.

 6. E aí está o princípio da Carta de S. Paulo aos Filipenses (1,4-6.8-11). Filipos foi a primeira comunidade cristã fundada por Paulo em solo europeu, aí pelo ano 49 ou 50. Quanta alegria, quanta ternura, quanto amor, quanta sensibilidade cristã perpassa esta bela página de S. Paulo. Deliciemo-nos. Ser cristão, filho de Deus, membro desta Igreja Esposa e Mãe, é ser delicioso. Este é o caminho novo que urge abrir direitinho ao nosso coração e ao coração da humanidade.

 António Couto

2 respostas a UM CAMINHO DIRECTO AO CORAÇÃO

  1. Dulce diz:

    “Ser cristão, filho de Deus, membro desta Igreja Esposa e Mãe, é ser delicioso. Este é o caminho novo que urge abrir direitinho ao nosso coração e ao coração da humanidade.”

    As palavras são-no importantes ao sentirmos toda a verdade nelas implícita. E sê-lo-ão motivadoras de novas atitudes, novos caminhos que se vislumbram e nos implicam.
    Renovados numa nova esperança.

    Não que não estivessem já antes lá, estas palavras, mas agora trazendo-as para aqui, lembramos toda a ternura toda a cúmplicidade dessa Casa tão grande, dessa Casa de Deus, que o é de inclusão. Essa Casa que o é já, aqui na nossa Paróquia tão acolhedora e carinhosa, conciliadora.

    Ou noutro lugar, onde for. Precisamos de o Estar neste espírito de fé no Sermos hoje Cristãos de verdade (!)

    D. António Couto,
    Neste tempo de reflexão e de renovação, estas palavras são-no imprescindíveis a podermos promovê-las, na nossa mais expressiva vontade e sentida Fé.
    Obrigada por no-Las promover.
    Dulce.

  2. JOSE OLIVEIRA diz:

    Olá, boa tarde.
    DEUS, não exclui ninguém como tal estando todos incluídos temos responsabilidades de fazer e trazer os que se acham “excluídos”ao caminho da igreja.
    As cidades de hoje tem incluídas de facto prédios a que lhe chamam arranha CÉUS, e provavelmente é um facto porque parte das pessoas que lá habitam não se falam, ou não se conhecem, tornam-se gélidas, despidas por dentro e valorizam mais o vestidas por fora. Vamos todos alterar o sentido de despidos por dentro para vestidos por dentro, em gratidão, humildade, partilha, fraternidade e então sim, sim estaremos vestidos com o traje de GLÓRIA a DEUS. Então assim como diz Dº António Couto será um caminho directo ao Coração. Também como disse o saudoso Papa João Paulo II ” Os que têm bens devem abrir o seu coração aos pobres, numa mudança interior, sem a qual não se alcançará uma ordem social e estável”.
    Obrigado e até sempre

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