QUANDO O DEUS SANTO VEM AO NOSSO ENCONTRO


 

1. Naquela manhã de há dois mil anos algo de extraordinário aconteceu para que alguns pescadores do lago da Galileia – o Evangelho de Lucas 5,1-11 destaca os nomes de Pedro, Tiago e João – tenham abandonado as barcas, as redes, os peixes acabados de pescar em grande quantidade, enfim, tudo, para seguir mais de perto Jesus.

 2. Pedro, sempre ele, diz-nos o porquê da revolução operada na sua vida: «Por causa da tua Palavra, Mestre, lançarei as redes». Por causa da tua Palavra. Naquela manhã, Jesus ensinava (edídasken) as multidões, sentado (kathísas) na barca de Pedro, que Jesus tinha pedido a Pedro para afastar um pouco da praia para a água. Bela forma encontrada por Jesus de obrigar Pedro a ter de escutar todo o seu ensinamento! E ensinava de forma continuada: assim o indica o imperfeito do verbo grego. Sentado: é a posição do Mestre que ensina na cátedra. É ainda sentado como Mestre na barca que Jesus ordena agora a Pedro: «Afasta (a barca) para o mar profundo, e lançai as vossas redes para a pesca!» Pedro mostrou a sua estupefacção de pescador experimentado: tinham trabalhado toda a noite e nada tinham pescado! Quanto mais agora, de dia, seria inútil fazê-lo! Lançou, porém, as redes, e pouco depois caiu de joelhos aos pés de Jesus, sempre sentado como Mestre na barca, e avançou um pedido: «Distancia-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador». Mas Jesus diz para Pedro: «Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens». E o narrador anota a fechar o episódio que «Tendo conduzido as barcas para terra, tendo deixado tudo, seguiram-no».

 3. Entenda-se bem que Pedro lançou as redes para a pesca, não baseado nas suas capacidades de pescador experimentado, mas por causa da Palavra de Jesus ou sobre a Palavra de Jesus. Palavra aqui diz-se rhêma, que tem o significado fortíssimo de «Palavra que acontece» ou de «Acontecimento que fala». Entenda-se também então que a nova missão de pescador de homens que Jesus lhe confia terá de ser também somente assente nesta Palavra de Jesus. A missão de Pedro e a nossa!

 4. Notem-se os sucessivos «afastamentos» que são, na verdade, «aproximações». Primeiro é Jesus que pede a Pedro que afaste a sua barca um pouco da terra, para poder, dessa cátedra improvisada, ensinar melhor as multidões. Note-se, todavia, que, com este recurso, Jesus põe Pedro bem junto dele! Quando Jesus pronuncia, pela segunda vez, o verbo afastar, fá-lo em imperativo dirigido ainda a Pedro, e é para aquela pesca milagrosa que aproximará ainda mais Pedro de Jesus! A terceira vez é a vez de Pedro. E é para fazer uma profissão de fé, reconhecendo em Jesus o Senhor, isto é, Deus. E decorre deste reconhecimento que Pedro se reconheça como pecador, que não pode estar na presença do Deus Santo. Daí, o grito: «Distancia-te de mim, Senhor… A última palavra é, como tinha de ser, de Jesus, que dá uma nova identidade a Pedro: «pescador de homens». E o episódio termina com o narrador a vincular radicalmente Pedro e os companheiros a Jesus com aquele dizer: tendo deixado tudo, seguiram-no».

 5. Entenda-se ainda bem que este seguimento de Jesus a que Pedro e nós somos convidados, não se destina a aprender uma doutrina ou uma ideia, mas a seguir de perto uma Pessoa, Jesus de Nazaré, e a sua maneira concreta de viver. É a adesão a uma Pessoa que está em causa para Pedro e para nós.

 6. De Pedro e dos seus companheiros é dito que deixaram barcas, redes, peixes, tudo, para seguirem Jesus (5,11), decisão radical que o Evangelho de Lucas continuará a salientar noutras passagens: «Se alguém quiser seguir-me, diga não a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-me» (9,23); «Vendei tudo o que tendes e dai-o em esmola» (12,33); «Aquele de vós que não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo» (14,33); «Vende tudo o que tens e distribui-o aos pobres» (18,21).

 7. É assim que Pedro se faz pescador de homens, lançando as redes da Palavra criadora de Deus até à sua morte, com o sangue, na cidade de Roma. Como memória eterna deste «pescador», ainda hoje, em todos os dias 28 de Junho, véspera da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, se coloca simbolicamente sobre a porta da Basílica de S. Pedro, em Roma, uma rede de ramos de buxo. Não uma coroa de louros, mas uma rede de louros!

 8. Em perfeita consonância com a cena do Evangelho, relatando-os o verdadeiro encontro de Pedro com o Deus Santo, o Antigo Testamento oferece-nos, neste Domingo V do Tempo Comum, o majestoso texto da vocação e missão de Isaías (6,1-8). No decurso de uma liturgia no Templo de Jerusalém, Isaías é investido como Profeta. Estamos por volta de 736 a. C., época provável da morte do rei Ozias, referida em Isaías 6,1. Perante a manifestação do Deus três vezes Santo, sentado no trono da graça que é o propiciatório da Arca da Aliança que ocupa o centro do Santo dos Santos do Templo, Isaías não tinha evasivas. Quando o Deus Santo se manifesta ao homem, provoca nele o mais intenso movimento de relação, movimento mortal, fulminante (Êxodo 33,20; Jeremias 30,21). Assim, Isaías, que tinha sido arrastado para um tão intenso movimento relacional, constata que devia estar morto, e, todavia, está vivo, vivificado! Milagre! E Isaías soube receber-se como dado, como filho da Palavra criadora de Deus e não já apenas dos seus pais ou da sua pátria, e doar-se, por sua vez, a Deus de acordo com a sua nova identidade, vocação e missão de Profeta. Como Pedro no Evangelho.

 9. A grande aclamação do «Santo, Santo, Santo» faz parte substancial e central da celebração de todas as Igrejas cristãs. Se virmos bem, também nós hoje e aqui estamos perante o «Santo, Santo, Santo». Exactamente no lugar de Isaías e de Pedro…

 10. A leitura semi-contínua do Apóstolo Paulo prossegue hoje com um texto de fundamental importância (1 Coríntios 15,1-11), um «credo» cujo conteúdo é o Evangelho (euaggélion) fielmente evangelizado (euaggelízomai) pelo Apóstolo e fielmente recebido (paralambánô) e guardado (katéchô) pela comunidade cristã de Corinto. O Apóstolo enuncia os dois grandes elos da genuina cadeia da Tradição: «Transmiti-vos (paradídômi) o que eu recebi (paralambánô)». Transmitir e receber e de novo transmitir sem interrupção. Os conteúdos da Tradição (parádosis) do Evangelho são: a) Cristo morreu pelos nossos pecados «segundo as Escrituras»; b) foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia «segundo as Escrituras»; c) o Senhor Ressuscitado fez-se ver a Cefas e aos Doze, depois a mais de quinhentos irmãos (a maioria dos quais ainda estavam vivos quando Paulo escrevia, podendo, por isso testemunhar), depois a Tiago, depois a todos os discípulos, e, por último, ao próprio Apóstolo Paulo que escreve e no qual opera a graça de Deus. Todos, o Apóstolo e os Apóstolos, anunciam (kêrýssô) este Evangelho, e todos, o Apóstolo, os Apóstolos e os fiéis, nós também, acreditámos (pisteúô) neste Evangelho e vivemos deste Evangelho, que é a nossa vida verdadeira (Gálatas 2,20; Filipenses 3,21).

 António Couto

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2 Responses to QUANDO O DEUS SANTO VEM AO NOSSO ENCONTRO

  1. E.Coelho diz:

    Hoje quero pensar nas dificuldades do caminho, (da pesca)… e sinto o quanto é complicado ler/viver a Escritura nos tempos de hoje.
    Assim, ao procurar colar este evangelho aos tempos actuais, que encontrei?
    Que é sempre estupefactos que fazemos o que Jesus nos diz; porque nos habituamos a desistir facilmente. Então fazemo-lo, apenas por fazer, para provar que não vale a pena… E quando nos encontramos com a realidade e descobrimos que temos que ser pescadores de homens, porque afinal até estamos enxertados no milagre, a coisa complica-se.
    Procuramos identificar os problemas que bloqueiam as nossas redes e não somos capazes de as consertar, ou não queremos fazê-lo. Então lançamos culpas aos outros, às situações, aos tempos, aos culpados, aos inocentes aos ricos e aos pobres, aos que trabalham e aos que nada fazem, à guerra; aos que vivem! Procurar culpados é regra comum, (e são sempre os outros) e as (pseudo)soluções que encontramos não são mais que pequenos disfarces com que pretendemos tapar a realidade. Então, angustiados dizemos, como Pedro:

    Distancia-te de mim, Senhor, porque a tua presença me incomoda, me desafia, me impele a SER diferente, igual a Ti! Distancia-te de mim porque posso cair na “tentação” de Te seguir…, porque a Tua PALAVRA se enterra na minha carne e me magoa e me prende e quer fazer de mim uma só carne Contigo. Como afastar-me na minha barca se tu estás lá, sentado calmamente, falando para que eu te ouça? Distancia-te de mim , Senhor, … mas não me deixes só;… porque tenho medo de não saber o que fazer…
    Fica comigo esta noite, fica comigo! Mais uma vez, fica comigo, e perdoa-me!
    Elisa

  2. jose oliveira diz:

    Ola.
    Que bom seria se a PALAVRA fosse nos dias de hoje tão válida como outrora! Da Palavra de DEUS eu não tenho dúvidas, mas a do homem está cada dia que passa mais pálida, sem cor e com pouco Amor.
    « Distancia-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador». Disse Pedro, mas estaremos nós também dispostos a largar tudo e Segui-lo. Que a Luz deste candelabro nos ponha o coração em chamas e nos faça mudar.
    Obrigado até sempre.

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