A ÁRVORE FRUTÍFERA E A PALHA ESTÉRIL


 

1. Conta-nos S. Lucas que Jesus foi à MONTANHA para ORAR, e passou a noite inteira em ORAÇÃO (6,12). Quando amanheceu, continua S. Lucas, Jesus chamou os discípulos e escolheu «Doze» a quem chamou Apóstolos, seguindo-se logo a lista dos seus nomes (6,13-16).

 2. Depois desceu com eles para um lugar plano – e é aqui que entra o Evangelho deste Domingo VI do Tempo Comum (Lucas 6,17.20-26) –, que não tem de ser necessariamente a planície ao nível do mar da Galileia; pode muito bem tratar-se de um planalto acessível a uma grande multidão, doentes incluídos.

 3. É significativo que o evangelista descreva esta grande multidão como POVO (laós) oriundo de toda a Judeia, Jerusalém, Tiro e Sídon (6,17), que veio para escutar Jesus e ser curado por ele (6,18). Ao contrário dos outros evangelistas que praticamente o ignoram, Lucas introduz este POVO (laós) profusamente no seu Evangelho. Este POVO (laós) tem conotação religiosa: é o Povo de Deus que o II Concílio do Vaticano consagrará. O que faz e define este POVO (laós) não é nenhum elemento étnico, nacionalista ou histórico, mas a eleição e a graça de Deus. Qualquer pessoa, de qualquer língua, nação, raça, cultura, que oiça a Palavra de Deus e lhe responda passa a fazer parte deste Povo. Neste sentido, esta multidão pode ter no seu seio elementos estrangeiros (Tiro e Sídon), mas não deixa, por isso, de ser um POVO (laós), o Povo de Deus. É igualmente significativo que todos tenham vindo ouvir Jesus! Aos olhos dos Apóstolos, que Jesus acabara de escolher, está ali o caminho da futura evangelização.

 4. Então, Jesus «ergueu os olhos» como um profeta (em Mateus «sentou-se» como um mestre), e declarou de forma directa e incisiva, em 2.ª pessoa, como fazem os profetas (Mateus usa a 3.ª pessoa, estilo sapiencial, sereno e pedagógico), bem-aventurados por Deus os POBRES, os FAMINTOS de agora, os que CHORAM agora, os REJEITADOS de agora. Lucas é mais radical e directo do que Mateus. Às quatro bem-aventuranças junta, em contraponto, quatro mal-aventuranças, declarando malditos por Deus os RICOS de agora, os FARTOS de agora, os que RIEM agora, os que RECEBEM APLAUSOS agora. As mal-aventuranças são introduzidas por um «Ai», fórmula técnica para introduzir anúncios de desgraça no discurso profético.

 5. Lucas esclarecerá mais à frente, quando for contada a história do RICO FARTO e do POBRE LÁZARO (16,19-31), que os FARTOS não são demovidos pelos profetas nem tão-pouco por um morto que ressuscite!

 6. Jeremias 17,5-8 faz boa companhia ao Evangelho de hoje. O profeta expõe em discurso profético, abrindo com a clássica fórmula do mensageiro que soa: «Assim disse o Senhor»,  um refrão de tipo sapiencial que percorre toda a Escritura de lés a lés: «MALDITO o homem que confia no homem, afastando-se do Senhor;/ BENDITO o homem que confia no Senhor, pondo nele toda a sua confiança». O primeiro assemelha-se ao tamarisco do deserto, mirrado e amargo, que mora numa terra salitrada e estéril; o segundo é como uma árvore viçosa plantada junto da água boa.

 7. A mesma temática e até as mesmas imagens vegetais enchem o Salmo Responsorial de hoje (Salmo 1): o homem que recita a instrução do Senhor dia e noite é como a ÁRVORE plantada e que dá fruto; o malvado é como a PALHA que o vento dispersa. A ÁRVORE plantada está de pé, respira o vento, como o homem, e dá fruto; a PALHA não respira o vento, mas é levada pelo vento; e não dá fruto, mas é a casca do fruto. É também fácil entender que é a mesma lição que encontramos na antítese das «bem-aventuranças / mal-aventuranças» do Evangelho de hoje.

 8. A leitura semi-contínua do Apóstolo (1 Coríntios 15,12.16-20) prossegue hoje com a temática fundamental da ressurreição, tratada de forma notável em 1 Coríntios 15, cuja primeira parte foi lida no Domingo passado. Aí, Paulo expunha o acontecimento da Ressurreição de Jesus Cristo como centro da pregação apostólica e da fé das comunidades cristãs.

 9. Hoje, Paulo começa por constatar que alguns membros da comunidade de Corinto não dão ouvidos aos conteúdos da pregação apostólica e negam simplesmente a ressurreição. E fazem-no em nome da mentalidade platónica, que considera a «carne» como elemento mau e desprezível, condenado à destruição, sendo a «alma» um elemento divino que, libertado da «carne», voltará a formar uma espécie de deus cósmico. Vê-se bem que segundo esta concepção errónea, a criação é má, ao contrário da declaração de Deus (Génesis 1). Paulo reage vigorosamente contra esta mentalidade instalada na comunidade, e prega aquilo que os Padres chamarão a «Economia da carne». «Cristo ressuscitou, primícias dos que adormeceram». Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro, então constitui certeza para os «outros» depois dele, que abre a série. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro AT, à Igreja e à vida dos homens.

 10. É este acontecimento fundante que a Igreja Una e Santa, Esposa do Senhor, celebra jubilosamente Domingo após Domingo. Também hoje, portanto.

 António Couto

Uma resposta a A ÁRVORE FRUTÍFERA E A PALHA ESTÉRIL

  1. E.Coelho diz:

    A Palavra de Deus, lida, ouvida ou explicada, como aqui, desperta sempre em mim o desejo de me enfrentar a ela.
    No Caminho do Evangelho deste domingo, aparecem-me as bem-aventuranças como ícones com os quais tenho de me confrontar, como imagens num espelho a que tenho que ajustar a minha imagem.
    E que vejo? Um Projecto de vida a que tenho que adaptar o meu projecto de vida; vejo-me um indivíduo que deve ajustar-se a um POVO. Vejo ao fundo o Ressuscitado, o Profeta, o Senhor, indicando-me um caminho, indicando-Se a Si mesmo, iluminando-me.
    Vejo-me, no mundo, árvore que pode dar bons frutos e vejo e sinto na cara o vento forte carregado de pó e de palha seca da qual me devo desviar. Vejo-me e vejo irmãos meus, e mais irmãos que como eu podem descer da Montanha para, num lugar plano, ser ouvinte, faminto, com capacidade para acolher.
    Vejo-me olhada por Deus, que com olhos penetrantes aguarda a minha resposta, a minha decisão. E basta-me dar um passo para sair para a Luz, para deixar o vento sujo de palha seca que me fere os olhos e me impede de ver e de escutar. Vejo a saída deste deserto onde me encontro. Vejo a Água e não a miragem!
    De pé com as sandálias calçadas, pronta para andar, olho para trás e vejo Jesus, Pastor, orientando-me. Olho para os lados e vejo-O, sorridente, desafiante Companheiro. Olho em frente e vejo-O à minha espera, paciente, cheio de Amor, esperando os frutos que eu posso dar. O Ressuscitado, Aquele que não me deixa dormir. Não tenho nada… E Tenho Tudo!
    Elisa (de Elyasa)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: