A QUARESMA É UMA TERRA NOVA QUE DÁ FLOR E FRUTO

Fevereiro 17, 2010

 

1. Aproximou-se um homem habituado ao uso inveterado da verdade, o seu olhar varrendo toda a fraude das palavras. Aproximou-se firme e impoluto. Esquadrinhou as faces oxidadas da mentira. Olhou depois o chão como quem abre um sepulcro, e lentamente desenhou o puro rosto da verdade sobre a areia.

 2. «Por toda a parte procurais o reino de Deus», disse. Disse. E desdobrando largamente as mãos como quem dá à luz o coração, preparou uma mesa no deserto, acomodou a multidão à roda do silêncio, repartiu a palavra pelas mãos, rugosas e sedentas e abertas, carregadas de terra e de verdade, os olhos vergados sobre as mãos, o coração rendido à flor dos lábios.

 3. «Olhai! Um camponês pegou numa semente pequenina. Pequenina. Olhou-a em suas mãos deitada. Acariciou-a. Enterrou-a no campo mais verde, no campo mais ao sol das suas terras. Da semente nasceu uma planta. A planta cresceu. A planta deu flor. A planta cresceu, floriu, vestiu-se de festa. Em seus verdes, verdes ramos vinham abrigar-se os pássaros do céu. O nosso camponês foi de visita à sua planta. Tinha crescido. Levantou os olhos. Ficou extasiado. Era agora uma casa habitada com luzes em todas as janelas. Baixou os olhos, debruçado sobre a vida, extasiado com a vida, reconciliado com a vida. Pegou nas suas mãos de outrora, no seu coração de outrora. Era uma semente pequenina. Pequenina. Acariciou-a. Virou-a e revirou-a à outra luz do coração. Amou-a de preferência ao oiro, à luz do sol, às espigas mais loiras da seara. «É aqui que tudo principia», disse. Disse. «A primeira manhã autêntica do mundo. É como se tivesse nascido hoje».

 4. Regressou feliz a sua casa. Entrou em sua casa. Sentou-se comovido à lareira. Aproximou-se um homem habituado ao uso inveterado da verdade. Bateu à porta e disse: «Hoje quero ficar em tua casa, cear contigo a ceia da amizade! Sabes: nas minhas mãos ardentes e despidas, há um fruto de lume e de alegria que não pode esperar que nasça o dia».

 5. «O reino de Deus não está aqui ou ali», disse. Disse. «Os mais belos lugares do mundo: onde estão os mais belos lugares do mundo? Onde mora a esperança? Que língua fala a paz? Que avião tomar para a justiça? Que moeda vigora no amor? Onde estão as fronteiras da alegria? Que cores tem a bandeira da verdade?»

 6. Pegou depois numa criança, num pedaço de pão e numa taça. Levantou os olhos e as mãos onde nitidamente pulsava um coração. E ergueu um brinde ao céu. Baixou depois os olhos e as mãos, ungidos já para a dádiva suprema. E ardentemente desejou o vinho novo do reino a chegar. Requisitou, por isso, para isso, o coração, as mãos, a boca, de quantos o estavam a escutar. E antes de partir e de ficar, definitivamente Deus Connosco, abriu ainda à multidão novos caminhos, diurnos, matutinos: «Já sei que não sabeis pedir o pão; tereis de aprender com os meninos».

 7. «Traz as tuas mãos pequenas e abertas, onde caiba só o coração. Sabes? O coração é uma cidade. Ou se preferes: o coração é a última cidade. Ou ainda: no coração começa a liberdade. Ou se preferes: no coração começa a tempestade».

 8. A multidão levou as mãos à boca, ao coração. Restaram doze cestos de palavras.

 António Couto

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