VERDADE, SIMPLICIDADE, PAZ, RESPEITO E HARMONIA


 

1. No meu diário consta esta página que hoje aqui transcrevo.  Acabo de regressar da Tailândia, onde tive o grato prazer de participar, de 24 a 29 de Janeiro (2004), nos arredores de Bangkok, em Sampram, num Congresso Internacional de Sociedades Missionárias de Vida Apostólica, de que faz parte também a Sociedade Missionária da Boa Nova. O tema do encontro era o diálogo inter-religioso.

 2. Não me vou aqui referir aos assuntos tratados na sala do Congresso. Apraz-me simplesmente registar a beleza edénica do lugar, a limpeza inexcedível e a gentileza inultrapassável dos tailandeses com quem nos relacionámos.

 3. Visitámos lugares históricos e museus. Registo aqui apenas a visita à cidade de Ayutthaya, berço do cristianismo na Tailândia, levado pelos missionários portugueses em 1511, os primeiros ocidentais a chegar à Tailândia. Há lá hoje muito poucos cristãos, mas a memória dos portugueses está lá bem assinalada. E o respeito por essa memória também.

4. Visitámos uma comunidade budista em Nakorn Pathom, onde fomos recebidos com toda a simpatia do mundo. Dos monges e das monjas que nos receberam transparecia uma imensa harmonia. A base da sua vida é a verdade mais simples, a paz mais profunda, a simplicidade mais estreme, o respeito inteiro pela vida humana e animal, o trato afável com a natureza.

 5. Os monges vivem sem nada. Sem dinheiro. Sem relógio. Sem mobília nem adornos. Apenas possuem uma tigela em que recebem o arroz que os camponeses lhes dão para comer e uns panos traçados que lhes guardam e protegem o corpo de noite e de dia. Dormem sobre a madeira lisa do chão dos seus pequenos aposentos. Tomam apenas uma refeição por dia. São contra toda a violência. Não matam nenhum animal. Nem sequer o mosquito. Não fumam. Não consomem álcool nem drogas. Vivem sem nada? Não. Porque deixam transparecer um grande desprendimento, uma imensa paz e serenidade interior, transbordante harmonia com a natureza. Cuidam do coração. Depuram-no. Retiram dele, dia após dia, todos os venenos e ervas daninhas, que tornam a nossa vida amarga e violenta. Sem o peso desse lixo, podemos pôr os pés no caminho da felicidade. É assim que vivem, e é isso que ensinam às pessoas que os procuram ou simplesmente os visitam.

6. Num mundo atravessado por ódios e guerras e toda a espécie de violência, o que vi e vivi na Tailândia, o país da orquídea real, representa um oásis de paz, de beleza e de delicadeza. Fomos lá, de diversos pontos do mundo, para estudar o diálogo inter-religioso e partilhar pontos de vista. Estudámos, partilhámos e vimos. Tudo passa por uma vigilância apertada sobre nós mesmos e por um infinito respeito pelos outros.

 7. Luta contigo, dialoga com os outros, meu irmão de Fevereiro.

 António Couto

4 respostas a VERDADE, SIMPLICIDADE, PAZ, RESPEITO E HARMONIA

  1. Pedro Hugo Mesquita Oliveira diz:

    Caríssimo Prof. D. António Couto

    Que bela e riquíssima experiência essa na Tailândia! O seu diário deve estar repleto de testemunhos como este que nos moldam e enchem o espírito, para aquilo que é, verdadeiramente, essencial…

    A minha singela Dissertação de Licenciatura na UCP versou precisamente sobre a temática da Interreligiosidade. Por isso o diálogo inter-religioso constitui para mim um assunto de muito interesse.

    Todas as referências bibliográficas, recensões, artigos, etc, que me possa facultar para me permitir continuar a “expandir horizontes” nestas matérias da Interreligiosidade, serão bem acolhidas! Cada frase sua que leio são como uma torrente de água pura e refrescante que me ajudam a saciar a sede de Saber…

    Conto sempre consigo.
    Um abraço fraterno do seu – sempre aluno – Pedro+

  2. Angelina Ferreira diz:

    Já lá vão vinte anos e, no entanto, ainda recordo a experiência com assombro. E esta partilha D António, veio dar vida à recordação, pois como se diz: recordar é viver!
    Também foi na Tailândia, numa aldeia de monges budistas e numa tarde de verâo.
    Andava eu agitada, buscando, buscando, sem saber bem o que buscava, mas alguém se apercebeu da minha agitação, e, foi quando surgiu um monge que discretamente se sentou perto de mim (claro,com a distância regulamentar…). Quase não falou,apenas deu breves respostas às minhas confusas perguntas. Olhava-me com tanta bondade. Havia tanta luz nos seus olhos, tanta suavidade nas suas palavras, tanta harmonia naquela pessoa,que saí dalí curada dos meus males. Só sei que regressei a casa pacificada, vivificada. senti que o peso que transportava no meu coraçâo(e era muito!)ficou naquele encontro. Sim, porque eu sei que há encontros que não são casuais…Pois como se lê em textos do D António Couto “Já sei que não sabeis pedir o pão, tereis de aprender com os meninos”

    Muito obrigada D António,por tanta generosidade, por tanta sabedoria, que tão generosamente partilha connosco.
    Até sempre.

    Angelina

  3. Elisabete Puga diz:

    Caríssimo D. António Couto.
    Mais uma vez me aproximei desta Mesa, e sinto que saio daqui com as forças retemperadas e com mais um forte desafio a estar vigilante…
    Obrigada pela riqueza abundante que coloca à nossa disposição e que nos impele a SER sempre mais! Saibamos aproveitar e ser agradecidos por tantos Dons que recebemos!
    Um abraço amigo e agradecido!
    Elisabete

  4. Paula Fernandes diz:

    A forma como descreve a experiência desta viagem transporta-nos e faz-nos desejar estar lá, num qualquer lugar onde se viva assim: em VERDADE, com SIMPLICIDADE, PAZ, RESPEITO E HARMONIA.

    Os crentes de outras confissões religiosas também nos ensinam muito. Saibamos ouvi-los, tentando compreende-los …

    Tenho aprendido imenso, a respeito destas máximas de vida e de outras, desde que comungo desta Mesa de PALAVRAS.

    Bem haja D. António.

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