ENTRAS OU NÃO NA CASA DA ALEGRIA?


 

1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, baptizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: MEMÓRIA do baptismo [= execução do programa filial baptismal] para os baptizados, PREPARAÇÃO para o baptismo por parte dos catecúmenos (Sacrosanctum Concilium, 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

 2. O Evangelho (Lc 15,1-32) é uma janela sublime e sempre aberta com vista directa para o coração de Deus, exposto, contado por Jesus. Mas antes de Jesus começar a contar Deus, o narrador prepara cuidadosamente o cenário, dizendo-nos que os PUBLICANOS e PECADORES se aproximavam de Jesus para o escutar, em claro contraponto com os ESCRIBAS e FARISEUS que estavam lá, não para o escutar, mas para criticar o facto de Jesus acolher e comer com os pecadores. Eles achavam que os pecadores eram merecedores de castigo severo e não de misericórdia, pois eram amplamente devedores a Deus, e não credores como os fariseus pensavam que eram.

 3. É por isso que Jesus lhes conta «ESTA PARÁBOLA» (15,3). Sim, o texto diz expressamente «ESTA PARÁBOLA», o que quer dizer que tudo o que Jesus vai contar até ao final do Capítulo é uma só parábola, e não três como vulgarmente se pensa e diz. A parábola é contada para os escribas e fariseus, e é desse lado do auditório que nós nos devemos colocar.

 4. O primeiro quadro mostra-nos a OVELHA PERDIDA lá longe e por amor PROCURADA e ENCONTRADA, e que dá azo à ALEGRIA condividida com os amigos e vizinhos. E Jesus conclui que é assim no céu sempre que um PECADOR se converte. Ao fundo da cena estão noventa e nove JUSTOS que não precisam de conversão. Era o que pensavam os fariseus e nós também!

 5. O segundo quadro mostra-nos a DRACMA PERDIDA em casa e cuidadosamente PROCURADA e ENCONTRADA, e que também dá azo à ALEGRIA condividida com as amigas e vizinhas. E também aqui Jesus conclui que é assim no céu sempre que um PECADOR se converte. Neste segundo quadro não se faz menção dos noventa e nove JUSTOS ao fundo da cena, que não precisam de conversão. Ora bem, quando na Bíblia dois retratos parecem iguais, a chave de compreensão está naquilo que neles é diferente. São, portanto, os noventa e nove JUSTOS, que somos nós, que estamos em causa!

 6. O terceiro quadro mostra-nos um PAI maravilhoso com dois filhos que parecem diferentes. Ora bem, quando na Bíblia dois retratos parecem diferentes, a chave de compreensão reside naquilo em que são iguais.

 7. Vejamos então: o filho mais novo faz ao seu PAI um estranho pedido: pede a parte da herança que lhe toca. Note-se bem que se trata de um pedido fatal. O PAI dá o pão todos os dias, dá roupa nova pelas festas, mas há uma coisa que só dá uma vez na vida, e em circunstâncias fatais, de morte próxima: a herança! Ao pedir a herança, este filho como que mata o PAI e morre como filho. Em boa verdade, ele não quer mais ter PAI e não quer mais ser filho. Por isso, junta tudo, parte para longe e gasta tudo. Desce abaixo de porco, pois nem o que os porcos comem lhe é permitido comer. Decide então voltar para casa, e prepara um discurso com três pontos: 1) PAI, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou digno de ser chamado teu filho; 3) trata-me como um dos teus assalariados. Vê-se bem que não quer voltar mais a ser filho. Também não quer mais ter PAI. Quer ser um assalariado. Quer ter um patrão.

 8. Voltou. O PAI viu-o ao longe, as suas entranhas moveram-se de compaixão, correu ao encontro do filho, abraçou-o e beijou-o. Note-se bem que a iniciativa é do PAI. O filho começa a debitar o discurso preparado em três pontos. Diz o primeiro. Diz o segundo. Não diz o terceiro, que era outra vez fatal, não porque o não quisesse dizer, mas porque o PAI o interrompe, dizendo para os criados: Depressa! Trazei o «primeiro vestido» e vesti-lho! Entenda-se que o «primeiro vestido» é o vestido de antes, o de filho! Manda matar o vitelo gordo e prepara-se para fazer em casa um FESTA de arromba. Note-se que, tal como Jesus, este PAI acaba de acolher um PECADOR e prepara-se para COMER com ele. Há ALEGRIA no céu.

 9. O filho mais velho estava no campo. Era, portanto, um dia de semana, de trabalho. Este PAI não escolhe fins-de-semana para fazer FESTA! E FESTA excessiva. Mandou matar o vitelo gordo! Trouxe uma orquestra musical para animar a FESTA! O filho mais velho, ao aproximar-se de casa, ouviu música e danças. Esta «música» diz-se em grego symphônía. Ora, symphônía é uma orquestra.

 10. O PAI sai ao encontro do filho mais velho, para o instar a entrar para a FESTA, tal como o pastor que encontra a ovelha perdida e a mulher que encontra a dracma perdida convidaram os amigos e os vizinhos para a ALEGRIA. Mas este filho mais velho acusou o PAI de acolher um pecador e de se preparar para comer com ele. Exactamente o que faziam os ESCRIBAS e FARISEUS, que criticavam Jesus por acolher os pecadores e comer com eles. Este filho mostra-se, portanto, um puro FARISEU, que sempre cumpriu as ordens do PAI (patrão), achando-se credor e não devedor!

 11. Quando duas figuras parecem diferentes, é naquilo em que se assemelham que reside a chave de compreensão. O que assemelha estes dois filhos é que ambos se sentem assalariados (e não filhos) e ambos olham para o PAI como para um patrão.

 12. Todavia, o filho mais novo deixou-se mover pela compaixão do PAI. Estava MORTO e VOLTOU a VIVER, estava PERDIDO e FOI ENCONTRADO! Tal como a ovelha PERDIDA e ENCONTRADA, como a dracma PERDIDA e ENCONTRADA.

 13. Afinal «ESTA PARÁBOLA» em três quadros foi contada por Jesus aos ESCRIBAS e FARISEUS, ao FILHO MAIS VELHO, a NÓS. Mas ficamos sem saber, no final, se o FILHO MAIS VELHO entrou ou não entrou em casa, para a FESTA. O narrador não o diz, porque essa decisão de entrar ou não, somos NÓS que a temos de tomar. Afinal foi para NÓS, TU e EU, ecolocados, na estratégia narrativa, do lado dos ESCRIBAS e FARISEUS e do FILHO MAIS VELHO (única posição correcta para sermos interpelados pela parábola), que Jesus contou a parábola.

 António Couto

Uma resposta a ENTRAS OU NÃO NA CASA DA ALEGRIA?

  1. E.Coelho diz:

    Olá, boa noite,

    Entrar na “casa da alegria” equivale a entrar no Reino de Deus, onde acreditamos que tudo é belo e bom e perfeito e justo…, a vida por que todos aspiramos.

    Não deixa de ser interessante verificar que, apesar da porta dessa Casa estar sempre aberta, raramente, muito raramente, aparece alguém com vontade de passar por ela e lá permanecer, na “Casa da Alegria”. Donde se conclui que temos medo de sair da nossa casa, dos nossos laços, das nossas coisas, do nosso bem-estar, deste lugar efémero onde julgamos poder ser felizes.

    Dizemos ter fé, dizemos acreditar no que está para além de nós, na Festa, mas temos medo de deixar esta estadia, com as suas “alegrias”, “felicidades” e pequenos nadas que nos dão(?) prazer. Não deixamos a “segurança” do que temos para procurar aquilo (Aquele) que é a própria segurança.

    No fundo somos o “filho mais velho”, aquele que vive bem, tem tudo e não arrisca e que pensa ter mais direitos a receber mais do que os outros – aqueles que abrem as mãos para pedir, aqueles que baixam os olhos envergonhados, aqueles que acham não ter direito a nada.
    Mesmo sabendo que estes é que terão tudo e que possuirão a terra, continuamos a querer ser o irmão do pródigo, e ter tudo, … sem querer acreditar que não temos nada.

    Abraço,
    Elisa

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