É SEMPRE TÃO NOVO TUDO O QUE DEUS FAZ!


 

1. A «caminhada« quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), baptizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Act 2,32-33; Jo 19,30 e 34; 7,37-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Baptismal.

 2. É desmedido quanto vem de Deus. Brota do excesso de Deus, que supera em muito as nossas necessidades. Aí está, neste Domingo, a imensa lição do Evangelho de João 8,1-11. Jesus SENTA-SE como MESTRE, para ensinar, e SENTADO como MESTRE permanece na cena até ao fim. Apenas se inclina para o chão e se endireita. Portanto, permanecendo SENTADO, está sempre a ensinar. São uma lição os seus gestos; são uma lição as suas palavras.

 3. Entram na cena os «impecáveis» do costume: os escribas e os fariseus. Desta vez não vêm sós. Trazem uma mulher apanhada em flagrante adultério. Eles conhecem a Lei de Moisés, que citam a propósito, para dizer que tais mulheres devem ser apedrejadas. Mas, roídos de malícia, querem saber o que, sobre o assunto, tem a dizer o MESTRE Jesus. Só isto: permanecendo SENTADO como MESTRE, inclinou-se, e, COM O DEDO, escrevia no chão. Os escribas e fariseus tinham compreendido mal a Lei, citando só metade, pois a Lei diz que, em caso de adultério, morrerão os dois: o homem e a mulher (Levítico 20,10; Deuteronómio 22,22). Tão-pouco estavam a compreender a resposta do MESTRE Jesus ao parecer jurídico que lhe pediram. E era clara a lição: na verdade, há apenas outra circunstância na Escritura Santa em que alguém escreve COM O DEDO: as tábuas de pedra escritas pelo DEDO DE DEUS no Sinai (Êxodo 31,18; Deuteronómio 9,10). Claramente: o MESTRE que escrevia COM O DEDO era Deus! Conhecia a Lei e conhecia os homens por dentro (João 2,24-25). Permanecendo SENTADO, endireitou-se e disse-lhes: «Aquele que estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra!». Inclinou-se outra vez e continuava a escrever. Saíram todos, a começar pelos mais velhos. Acusaram a mulher, mas sentiram-se acusados, desvendados no seu pecado! A mulher era um objecto de que falavam. Nunca falaram para ela. É o MESTRE Jesus o primeiro na cena que fala para a mulher, colocando-a no caminho novo da liberdade: «Vai e não tornes a pecar».

 4. O anónimo profeta do exílio, o chamado «Segundo Isaías» (Isaías 40-55) põe hoje Deus a interpelar-nos assim directamente, como Jesus no Evangelho: «Eis que vou fazer uma coisa nova! Ela já desponta: não a compreendeis?» A nós compete entender a obra sempre nova e surpreendente de Deus, que ultrapassa sempre o nosso número de coração e de compreensão! Pode o deserto florir, encher-se de água, e o mar de caminhos. Pode a semente germinar antes do tempo, e a espiga amadurar antes do campo!

 5. Paulo pode bem ser hoje o modelo a seguir (Filipenses 3,8-14): esquecendo o que fica para trás, atira-se todo para a frente, para Cristo.

 

Quando Jesus irrompe na vida de alguém,

interrompe a normalidade de um percurso,

e rompe essa vida em duas partes desiguais:

uma que fica para trás,

outra que se abre agora à nossa frente,

recta como uma seta directa a uma meta,

a um alvo, um objectivo intenso e claro,

tão intenso e claro que na vida de cada um

só pode haver um!

 

António Couto

Uma resposta a É SEMPRE TÃO NOVO TUDO O QUE DEUS FAZ!

  1. Paula Fernandes diz:

    ” … Recta como uma seta directa a uma meta …”

    Esta frase ficou-me solta, mas de forma intensa, desde o encontro com S. Paulo n.º …, em que D. António a referiu pela 1.ª vez.

    Para surpresa minha (bem agradável) a 2.ª leitura da liturgia de ontem relembrava incisivamente o desafio radical da vida de Paulo: rasgar com o passado, começar uma vida nova, de entrega total à Boa Nova da Ressureição de Cristo, recomeçar cada dia como se fosse o primeiro, procurar sempre a luz que ofusca, que ama, que perdoa, que ampara, que fortalece, que tranquiliza …

    Obrigada Jesus, que não condenaste a Mulher e não nos condenas, que lhe recomendaste que fosse e não tornasse a pecar, que nos perdoas todos os dias e nos amas sem cessar.

    Muito obrigada.

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