TOMÉ, CHAMADO GÉMEO!

Abril 9, 2010

 

(Para melhor compreensão deste texto, comece por ler o post anterior, intitulado TANTOS SINAIS)

1. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-29). Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, que nada pode reter, vem e fica no MEIO deles e saúda-os: «A paz esteja convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o crucificado, e agrafa-os à sua missão: «Como o Pai me enviou, também Eu vos envio». O envio dele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (ideîn) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador, com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento!

 2. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé, chamado Gémeo, não estava com eles quando veio Jesus. Mas os outros dez anunciam-lhe com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos o Senhor!» Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir nas suas mãos a marca dos cravos, e meter o meu dedo na marca dos cravos e meter a minha mão no seu lado, não acreditarei».

 3. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!». Aí está Tomé adivinhado e desarmado. Também ele podia ter pensado: e como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo? Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado. Não quer tirar mais provas. Diz de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!», uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (tempo perfeito), acreditaste; felizes os que, não tendo visto na história (tempo aoristo), acredditaram!» Esta felicitação é para nós.

 4. Notável o percurso dos Discípulos: fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e anunciá-lo. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, entregou-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

 António Couto


TANTOS SINAIS

Abril 9, 2010

 

1. O Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor oferecia-nos o grande texto de João 20,1-10, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada!, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2), impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram uma presença nova que somos convidados a descobrir.

 2. O texto imenso de João 20,1-10 colocava-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não: A) assim, a Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e de longe, com um olhar normal (verbo grego blépô), a pedra retirada, e corre logo, equivocada, a levar uma notícia, que não teve o cuidado de comprovar; ela anda ainda no escuro, e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido. B) Pedro e o Outro Discípulo correm juntos, mas o Outro discípulo vai à frente e chega primeiro ao túmulo, e Pedro segue-o e chega depois; portanto, os dois correm juntos: não um ao lado do outro, mas um atrás do outro. Não é questão de idade, como pensam e dizem vulgarmente as pessoas. Na verdade, o discípulo é aquele que segue o Mestre até ao fim, sempre. E apenas o Outro Discípulo seguiu o Mestre até ao fim, até à Cruz e ao túmulo; Pedro não foi até ao fim: ficou com os guardas no pátio do sumo sacerdote (João 18,18). Como não seguiu Jesus até ao fim, tinha agora de seguir alguém que tinha seguido Jesus até ao fim! Pedro está a fazer o seu percurso guiado pelo Outro Discípulo, que indica o caminho e o túmulo a Pedro. C) Pedro entra no túmulo e , com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), os panos de linho no chão e o sudário cuidadosamente enrolado… Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada tão em ordem! Por isso, Pedro vê com o olhar de quem fica a pensar no que se terá passado… Talvez seja coisa de Deus… D) O Outro Discípulo entrou, viu, com um olhar histórico (tempo aoristo) de quem vê por dentro a identidade (verbo grego ideîn), e acreditou. É o olhar da fé.

 3. A Madalena continua o seu percurso em João 20,11-18. Aparece junto do túmulo a chorar, inclina-se e , agora com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, porque choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte… Voltando-se para o jardim, , outra vez com um ver ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, porque choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras? Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, que bem pode pensar assim: e como é que ele sabe que eu procuro alguém? É assim que, adivinhando-a e antecipando-se a ela, Jesus se dá a conhecer à Madalena. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado! Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, enviada pelo Ressusciatado: «Vi (heôraka) o Senhor!». Mas mudou de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, na tempo perfeito. É o olhar da testemunha. Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

 António Couto

(Leia a sequência deste texto no post seguinte, intitulado TOMÉ, CHAMADO GÉMEO!)