A LUZ, A VOZ, A PRAIA, O LUME, O PÃO, O PEIXE, A REDE E O AMOR


 

1. A oposição luz – trevas atravessa de lés a lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, com Nicodemos, que anda de noite (João 3,2), com Judas, o homem da noite que tudo anoitece à sua volta (João 13,30; 18,3), com os sete dicípulos da cena de hoje que trabalharam toda a noite, sem sucesso (João 21,3).

 2. Mas Jesus aparece de madrugada na praia, no limiar do dia e da alegria, aqui perto, a cem metros de nós. Com os olhos embotados pela doença do escuro, não O reconhecemos à primeira. Mas ouvimos a Sua voz carregada de verdade, que nos desvenda («Não tendes nada para comer, pois não?» (João 21,5) e nos aponta rumos verdadeiros («Lançai a rede para a direita da barca, e encontrareis») (João 21,6). Não o reconhecemos à primeira. Mas vemos e lemos os Sinais. «É o Senhor», diz para Pedro o discípulo, aquele que Jesus amava (João 21,7). E Pedro correu na direcção de Jesus. Os outros seis vieram também, arrastando a barca carregada de peixes.

 3. E sobre a praia o lume novo e a refeição nova, cuidadosamente preparada por Jesus (João 21,9). Agora Pedro está no lugar certo, com Jesus, e aquece-se no lume vivo, que é Jesus. Belo e exemplar contraponto: pouco antes, narrativamente falando, Pedro estava com os guardas, que andavam na noite, e aquecia-se a outro lume, aceso na noite, pelos guardas (João 18,18). Tinha rompido a sua intimidade com Jesus. Mas agora arrasta a rede cheia com 153 grandes peixes. E o narrador refere, reclamando a nossa atenção, que, embora fossem muitos, a rede não se rompeu (João 21,11). «Romper» traduz o verbo grego schízô, donde vem etimologicamente “cisma”. É, portanto, de comunhão e de unidade que se trata, e não de «cismas» e divisões. O número 153 ajuda a ler esta «comunhão», se quisermos ver nesse número a gematria, ou tradução em números, da locução hebraica qahal ha’ahabah [= «comunidade do amor»], excelente maneira de dizer a realidade nova da Igreja.

 4. E é sobre o amor o diálogo que se segue entre Jesus e Pedro: «Pedro, amas-me…?», pergunta Jesus por três vezes. E por três vezes Pedro responde que sim, ouvindo de Jesus, também por três vezes a nova missão de «Pastor» que lhe é confiada: «Apascenta as minhas ovelhas» (João 21,15-17). Entenda-se bem que as ovelhas nunca deixam de ser pertença de Jesus Ressuscitado. E a afirmação por três vezes do amor de Pedro a Jesus recompõe a intimidade rompida por Pedro com aquelas três negações um pouco antes narradas (João 18,17-27).

 5. Senhor, ensina a tua Igreja de hoje outra vez a ver e a ler os Sinais da Tua presença na madrugada e na praia, novo limiar de luz e de esperança que orienta a nossa vida toda para Ti, referência fundamental do amor e da comunhão que deve unir como uma rede a Tua Igreja. Precede-nos e preside-nos sempre. Não nos deixes perdidos no nevoeiro e na confusão, na noite e no frio, a orientar-nos por outro farol, a aquecer-nos a outro lume. Faz que reconheçamos sempre a Tua voz de Único Verdadeiro Pastor, e ampara os pastores que incumbiste de apascentar as tuas ovelhas.

 António Couto

6 Responses to A LUZ, A VOZ, A PRAIA, O LUME, O PÃO, O PEIXE, A REDE E O AMOR

  1. E.Coelho diz:

    Olá,

    Acabo de lembrar-me que há alguns anos, (não direi quantos), no dia de hoje, 18 de Abril, uma mãe feliz dava à luz um filho a quem poria o nome de António José, hoje, bispo de Azura.
    Desejo felicitá-la (à mãe), e agradecer-lhe por nos ter entregue o seu filho, a todos quantos com ele aprendemos a amar a Deus e a reconhecer a Sua voz.
    A ti, Bispo, Pastor, peço-te: Apascenta as ovelhas do Teu Senhor, e continua a mostrar-nos como Ele é. Ensina-nos a amá-Lo como tu o amas.
    As minhas mais sinceras felicitações,
    Abraço grande,
    E-Coelho

  2. Arnaldo vareiro diz:

    Em primeiro lugar, D. António, quero felicitá-lo por mais um aniversário! Que Deus o cumule das suas bênçãos! Parabéns!
    Em segundo lugar, partilhar a minha admiração pela figura de Pedro, pois retrato-me, e penso que a maior parte de nós, nele. Sempre muito decididos e convictos, mas, na hora da verdade, assaltam-nos as dúvidas, as perplexidades, o desânimo, a traição. O Jesus Ressuscitado está connosco! Esta é a nossa grande certeza! Alegre-mo-nos e digamos-lhe que o amamos!

  3. Fátima Teixeira diz:

    Desejo que mais um ano connosco, seja ajuda para a leitura de sinais de Jesus,na Sua Igreja. Especialmente para mim que me sinto “meio perdida”, naquilo que a Igreja quer que eu faça. Espero, que as
    suas palavras sejam luz e ajuda, como tem sido até agora.
    Bem haja.

    Fátima

  4. Paula Fernandes diz:

    D. António,

    que alegria grande poder felicitá-lo pelo extraordinário DOM da VIDA, agradecendo, particularmente, a Sua VIDA, Feliz dádiva de Deus ao mundo, especialmente a todos quantos temos o privilégio de aprender consigo a beleza imensa das Escrituras e do mistério grande que é Jesus ressuscitado.

    Embora um pouquinho atrasada, desejo-lhe um feliz aniversário, mais um excelente ano de VIDA, pedindo que conte muitos, sempre abençoados pela alegria contagiante da luz divina, que é Jesus.

    Nas suas orações, peça por todos nós, pela Igreja, pelos seus pastores e pelas ovelhas, sobretudo as que andam na noite escura e fria …

    Ave Maria, Gratia Plena.

  5. Dulce diz:

    “Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na dor, no fracasso, na incompreensão”

    D. António,
    Olá.
    Boa noite.

    Venho dizer-Lhe um sentido Obrigado felicitando-O pelo Seu aniversário.
    Ainda em tempo: Muitos Parabéns!

    Que o novo ano Lhe permita continuar este Caminho que para nós que aqui vimos é já um caminhar de que não prescindimos. É vida é paz é alegria é um sentir Jesus Ressuscitado no dia e na noite dos nossos dias.

    É um querer implicarmo-nos sempre com muita ternura.
    É um sentir forte cá dentro de uma imensa gratidão.
    É sempre voltar e gostar sempre de lêr a Palavra de Deus, de vêr as ilustrações que sempre trata com tanta dedicação. E são também importantes no contexto das palavras que nos deixa a reflexão.

    Jesus Vive e é Vida em nós num Querer forte e sentido em implicarmo-nos em muitos momentos de vida com outros Irmãos, sempre com muita ternura.

    Muito Obrigado pelas Palavras que são Vida e são também grande alento.
    Um abraço Amigo.

    dulce

  6. Glória diz:

    Uma rede com 153 peixes! Que conta bicuda! Sempre me perguntei que quereria aquilo dizer. Quando o Mar deixa de nos meter medo, percebemos que a grande riqueza do nosso viver e crescer cristão passa pela Amor, pela alegria pela partilha que acontecem quando a aposta se faz em comunidades de vida fraterna- Comunidades de Amor.

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