INUNDAÇÃO DE LUZ


 

1. O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém, introduzindo lá cultos pagãos. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, em 164 a.C., Judas Macabeu procede à purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. Este acontecimento deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir de 25 do mês de Kisleu, que, no ano em curso de 2010, corresponde ao nosso dia 1 de Dezembro.

 2. É no ambiente desta Festa anual da Dedicação do Templo que se situa a perícope do Evangelho de João 10,27-30 (veja-se 10,22), proclamado neste Domingo IV da Páscoa, também Domingo do Bom Pastor e 47.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, sob o tema, proposto por Bento XVI: «O testemunho suscita vocações».

 3. A Festa da Dedicação, em hebraico hanûkkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmud que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas, encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder diante do Deus Vivo. Todavia, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respectivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial e cultural. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz

 4. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece descontruir-se, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivante. E está em maravilhosa sintonia com a mensagem de Bento XVI para este 47.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, salientando a importância do testemunho.

 5. O resto é a força e a beleza da imagem do Bom Pastor, que dá a Vida Eterna às suas ovelhas, que as segura pela mão, que as conhece, enquanto elas escutam a voz do Bom Pastor e o seguem. Maravilhosa Comunhão.

 6. Maravilhosa Comunhão também entre este Bom Pastor, que é o Filho, e o Pai. Texto imenso e intenso, de grande alcance trinitário: «Eu e o Pai uma Realidade somos». Deixem-me pôr aqui o texto grego: egò kaì ho patêr hén esmen. O verbo está no plural: somos. Junta «Eu» e «o Pai», duas Pessoas. O predicativo, porém, não está na forma masculina, mas na forma neutra: uma Realidade (hén). Donde: o Filho e o Pai não são uma só Pessoa, mas são uma única Realidade (não coisa!, como se vê em algumas pobres traduções), uma única Substância (ousía), como diziam bem os Padres gregos. Ó música insondável do Amor de Deus, ó admirável comunhão de três Pessoas iguais, mas distintas, ó Vida Plena e Verdadeira a nós acessível! Basta, para tanto, conhecer, escutar e seguir o Bom Pastor.

 António Couto

3 respostas a INUNDAÇÃO DE LUZ

  1. E.Coelho diz:

    Olá,
    Já não é novidade ouvir-me dizer que nos falta a todos uma formação do estilo desta, pois compreendendo como as coisas foram, é-nos mais fácil perceber porque são assim hoje.
    E garanto que esta formação falta na Igreja e falta na nossa «cultura geral»
    Obrigada por mais esta lição, Pastor, em dia do Bom Pastor
    Bom Domingo
    E.Coelho

  2. Abílio Barros diz:

    Caro D. António,

    Muito obrigado pelas suas palavras. São sempre uma oportunidade de aprender mais um bocadinho…

    Um abraço,

    Abílio Barros

  3. Lurdes Rosa diz:

    Quero agradecer estas reflexões que partilha com todos.
    Confesso, que a meio de cada sábado começo a consultar “mesa de palavras” para ler o texto dessa semana.
    É sempre uma novidade.
    É sempre uma confrontação com a nossa vida e a nossa fé.
    Obrigada
    Lurdes Rosa

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