SEGUIR JESUS

Junho 26, 2010

 

1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum proclama-se (o Evangelho é sempre proclamado, e não simplesmente lido) o Evangelho de Lucas 9,51-62, página sublime e sobrecarregada de cenários sucessivos e desconcertantes, que não podem deixar sossegado e de braços cruzados nenhum dos discípulos de Jesus.

 2. O primeiro é a anotação radical de que Jesus «tornou o seu rosto duro como pedra na direcção de Jerusalém» (Lucas 9,51). A expressão «tornar o rosto duro como pedra» provém do terceiro canto do Servo do Senhor (Isaías 50,7), e serve para assinalar uma atitude firme e decidida da qual não se pode voltar atrás. Ainda que, no contexto do Evangelho de Lucas, esta anotação marque a viragem geográfica de Jesus da Galileia para Jerusalém, a anotação é sobretudo de ordem teológica, salientando a total confiança de Jesus no Pai, tal como o Servo confia no seu Deus.

 3. O segundo é a ilusão do poder de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que propõem a Jesus dizimar uma povoação samaritana só porque recusa acolher Jesus. Os dois discípulos, que ainda não entenderam o caminho manso e humilde de Jesus, como o do Servo do Senhor, são duramente repreendidos (Lucas 9,55) com o mesmo verbo com que Jesus estigmatiza os espíritos impuros (cf. Lucas 4,35).

 4. O terceiro fixa a nossa atenção em alguém que se propõe seguir Jesus, com estas palavras: «Seguir-Te-ei para onde quer que vás!» (Lucas 9,57), logo seguidas da declaração de Jesus: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça!» (Lucas 9,58). Note-se bem que o texto diz o essencial e omite o circunstancial, deixando-nos sem saber quem era o homem, o que é que o levou a propor-se seguir Jesus, de onde veio, e como terá reagido à declaração de Jesus: seguiu-o no caminho? Foi-se outra vez embora? Com este procedimento escorreito, a intenção do narrador é certamente apresentar a força do seguimento de Jesus enquanto tal, não o fazendo depender desta ou daquela circunstância. Seguir Jesus é um absoluto, sem condições, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus não ter eira nem beira, o que torna incontornável a transparência da sua confiança no Pai. Sua e daqueles que o querem seguir.

 5. O quarto é o apelo limpo, igualmente despido de acessórios, de Jesus a alguém: «Segue-me!», a que o visado responde imediatamente: «Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai!» (Lucas 9,59). E a resposta, quase escandalosa de Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu vai anunciar o Reino de Deus!» (Lucas 9,60). Estas imensas palavras de Jesus ganham ainda maior acutilância se soubermos que a mentalidade e a sabedoria judaicas davam enorme importância ao dar sepultura a um familiar. Era uma acção de tal monta e de tal conta que dispensava da oração do Shema‛, da oração das dezoito bênçãos e de todos os preceitos da Lei (Mishnah Berakhot 3,1a). Mas o caminho novo de Jesus inverte o normal caminhar da experiência humana da vida para a morte. O caminho de Jesus e segundo Jesus é da morte para a vida: «nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3,14). Quem quiser seguir Jesus tem, portanto, de apostar tudo no novo sentido que Jesus imprime à existência.

 6. O quinto e último é igualmente forte, igualmente desconcertante. Põe diante de nós alguém, também sem a anotação de circunstâncias, que está disposto a seguir Jesus, desde que Jesus lhe conceda apenas despedir-se dos seus familiares. Digamos que pede apenas para dar um pequeno passo atrás, e logo se voltará todo para a frente. Elias fez esta concessão a Eliseu (1 Reis 19,20), Antigo Testamento de hoje. Mas Jesus é mais do que Elias, e não faz qualquer concessão: «Aquele que deita as mãos ao arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus!» (Lucas 9,62).

 7. Já se vê que é a cena de Elias e de Eliseu, narrada em 1 Reis 19,19-21, que faz de eco ao Evangelho de hoje. Simbolicamente, Elias atira o seu manto sobre Eliseu, maneira de fazer dele seu seguidor. Eliseu andava a lavrar um grande campo, agarrado ao arado, puxado por doze juntas de bois. Sentindo o chamamento de Elias, Eliseu apenas pede o tempo necessário para ir abraçar o seu pai e a sua mãe. Elias concede. Eliseu despede-se de forma radical, sagrada e festiva. Matou uma junta de bois, e assou a sua carne com a madeira do arado. Queimando o arado, é todo um mundo que deixa para trás, sem retorno. Enceta depois um caminho novo atrás de Elias.

 8. Dia de Domingo, Dia do Senhor, doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distracções, sem nostalgias, sem saídas de segurança!

 António Couto

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«Como Eu vos fiz, fazei vós também». Para um rosto missionário da Igreja em Portugal

Junho 21, 2010

 

Introdução

 1. O Congresso Missionário Nacional, realizado em Fátima, de 3 a 7 de Setembro de 2008, pediu à Conferência Episcopal Portuguesa a elaboração de um documento-base que possa servir de orientação à Missão em Portugal, e que vá no sentido de avivar a vocação missionária de todos os cristãos.

 2. Prestamos homenagem a todos aqueles que em tempos passados animaram o nosso país com o seu fulgor missionário. É, porém, um dado adquirido que tal fulgor se esvaneceu, e hoje Portugal «faz parte daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além de uma nova evangelização, se requer, em determinados casos, a primeira evangelização», dado que, «mesmo no velho continente, existem extensas áreas sociais e culturais, onde se torna necessária uma verdadeira e própria “missão ad gentes”»[1]. Esta declaração formal qualificando também a Europa como espaço da «missão ad gentes» faz evoluir o antigo quadro de terras cristãs e terras de missão para uma nova inter‑eclesialidade missionária, onde todos somos chamados a viver e a transmitir, com ardor sempre original, os dinamismos que o encontro com o Ressuscitado e Senhor da História em nós desperta.

 3. É visível, de facto, que atravessamos hoje um mundo em profunda mudança. Na cidade hodierna cruzam-se pessoas de diferentes cores, culturas, línguas e credos. A busca de melhores condições de vida tão depressa traz para a cidade pessoas de outros países e de diferentes situações sociais, culturais e religiosas, como faz partir também muitos dos seus anteriores habitantes. Dado o crescente pluralismo cultural e religioso, aliado a uma onda de secularização e individualismo e a um crescente relativismo e indiferença, já não são os campanários das igrejas que marcam o ritmo da vida das pessoas. O Evangelho de Jesus Cristo é cada vez menos conhecido. E para uma parte significativa daqueles que dizem conhecê-lo, é notório que já perdeu muito do seu encanto e significado. Este cenário é preocupante e pede, com urgência, à Igreja presente na cidade dos homens uma nova cultura de evangelização, que vá muito para além de uma simples pastoral de manutenção. Deve notar-se que, nas comunidades cristãs primitivas, o termo «Evangelho» é um nome de acção e não de estado, significa «anunciar a notícia feliz da Ressurreição de Jesus», pelo que não pode ser confundido com um livro colocado na estante que gera vidas colocadas na estante; «Evangelho» significa então «evangelização», e evangelização implica movimento e comunicação, e requer tempo, formação, inteligência, entranhas, mãos e coração.

 4. O Papa Bento XVI, que em boa hora, entre os dias 11 e 14 de Maio passado, tivemos a dita de receber em Visita Apostólica ao nosso país e como peregrino de Nossa Senhora de Fátima, já nos tinha dito com suficiente clareza que não é uma ideia, ainda que seja grande a ideia, que leva alguém a fazer-se cristão, mas um encontro decisivo com a Pessoa de Cristo[2]. E nesse sentido, também nos disse o Papa que a Missão não se baseia em ideias nem em territórios (não parte de territórios nem se dirige a territórios), mas «parte do coração»[3] e dirige-se ao coração, uma vez que são «os corações os verdadeiros destinatários da actividade missionária do Povo de Deus»[4]. Neste contexto novo, alargam-se os horizontes da missão ad gentes a todas as latitudes, mas é forçoso reconhecer também que é necessário lançar mão de novos métodos.

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PARA TODOS, TODOS OS DIAS

Junho 19, 2010

 

1. Este Domingo XII do Tempo Comum oferece-nos a imensa utopia messiânica que atravessa a profecia de Zacarias 9-14, um povo pobre, explorado, combatido e assassinado, mas que é a«pupila dos olhos do Senhor» (2,12), que tem nele colocados os seus olhos (9,1 e 8). Este povo pobre e mártir tem direito à sua esperança e ao seu rei diferente, pois se apresenta pobre e pacífico, montado num jumento, animal de paz e não de guerra, e que porá fim aos instrumentos de guerra (9,9-10). O texto deste Domingo (12,10-12) faz-nos chorar este povo pobre e mártir personificado num filho único martirizado, mas faz-nos ver também, e fixa o nosso olhar nesta figura desfigurada e transpassada, mas transfigurada, pois se tornará numa fonte de água pura, salvadora e salutar (13,1; 14,8). Neste sentido, «hão-de olhar para aquele que transpassaram» (12,10). Cruzamento de olhares: olha Deus para ele, por ele; olhamos agora também nós para ele, por ele! É sabido que João, vendo Jesus e relendo este texto de Zacarias, fixa o nosso olhar em Jesus crucificado, transpassado, desfigurado, transfigurado (19,37). Então o crucificado ressuscitado que preside à nossa assembleia dominical e à nossa vida deixa de ser uma u-topia [= sem lugar], para se transformar numa eu-topia [= lugar feliz]. Olhar fixo n’Ele! Mãos abertas em concha para Ele, para as encher nessa fonte de graça e de saúde! Sim, somos chamados a transformar o «sem-lugar» deste mundo em «lugar feliz»!

 2. Faz equilíbrio com este texto de Zacarias o Evangelho de Lucas 9,18-24. Começa por nos apresentar Jesus a rezar sozinho, o que acontece imensas vezes em Lucas, que é, por isso, também chamado o «Evangelho da oração». E «orar» é, em sentido genuíno, etimológico, orientar a nossa vida toda para Deus, entregar a Deus a nossa vida toda, para que seja Ele a olhar para nós, por nós! É importante sabermos, informa-nos o narrador, que os seus discípulos estavam com Ele. Estar com Ele é o «lugar feliz» do discípulo de todos os tempos. Estar sem Ele é sempre um «não-lugar». Se for este o caso, temos rapidamente de mudar de lugar!

 3. Também ficamos a saber, pela informação dos discípulos de então, que as multidões dizem Jesus com o passado, vendo-o na esteira das figuras do passado, não contendo nada de novo. Em contraponto com as multidões, Pedro diz que Jesus é o Cristo de Deus, sem, todavia, com este dizer, renovar a sua vida, sem fixar n’Ele os olhos e sem encher as mãos em concha com a água viva que d’Ele vem.

 4. É Jesus, e só podia ser Jesus, que se auto-apresenta aos seus discípulos de ontem e de hoje, como tendo de sofrer, ser morto, e ressuscitar. Aí está o transpassado, desfigurado, transfigurado, fonte única de água viva para nós, fonte da nossa vida. Dizemos muitas coisas. É necessário ouvir Jesus dizer. Porque só Ele se diz e nos diz. Para o discípulo, escutar é deixar-se dizer! Para o discípulo, dizer é redizer o dito de Jesus. Eis o Mestre. Eis o discípulo.

 5. Ainda duas coisas únicas deste Evangelho, duas pérolas, portanto: «Dizia Ele a todos: “Se alguém quer vir atrás de mim, diga não a si mesmo, e tome a sua cruz todos os dias, e siga-me» (9,23). A primeira pérola está em que Jesus diz para todos. O dizer de Jesus, o seu ensino novo, não é para elites, para alguns iluminados. É para todos. Entenda-se que a escola de Jesus está aberta a todos, ricos e pobres, maus e bons, especialistas e ignorantes. Já se sabe que o ignorante é aquele que não sabe; de resto, também o especialista não sabe, mas não sabe com grande autoridade e competência! Ainda bem, portanto, que Jesus diz para todos. A segunda pérola é que a vida cristã, seguir Jesus, é coisa quotidiana, de todos os dias. Não é só para alguns dias de festa. Não pode ter pausas.

 6. Dizer não a si mesmo é pensar ao contrário do que estamos habituados. Pensamos sempre primeiro em nós, em salvar-nos a nós mesmos. Para nos salvarmos a nós mesmos, temos de nos anteciparmos aos outros, sermos mais espertos que os outros, passar à frente dos outros. Exactamente o contrário de Jesus, que não quis salvar-se a si mesmo. Quis salvar-nos a nós, pôr-se ao nosso serviço, fazer-se fonte de água viva para nós. «Salva-te a ti mesmo, e desce da Cruz!» (Lucas 23,35-39). Se se tivesse salvo a si mesmo, não nos salvava a nós! Lógica nova do «quem perde, ganha», jogo novo do cristianismo.

 António Couto


HOMEM DO SÉCULO XXI, TENHO UMA COISA PARA TE DIZER!

Junho 13, 2010

 

1. À boca da cena do Evangelho deste Domingo XI do Tempo Comum (Lucas 7,36-8,3) perfilam-se três personagens: o fariseu Simão, Jesus, e uma mulher pecadora. Ao fundo da cena estão ainda os convidados, que só intervêm no final do relato. Todos, menos a mulher, estão recostados à mesa, em casa do fariseu Simão, pois foram por ele convidados.

 2. As primeiras atenções dirigem-se para a mulher, introduzida pelo narrador com aquele: «E EIS uma mulher…», que passa claramente por uma fórmula de atenção. Também não deve o leitor estranhar muito esta súbita, e parece que não desejada, entrada desta mulher em casa alheia. No mundo oriental, as portas das casas permaneciam abertas, e qualquer pessoa podia espreitar pela porta para ver o que lá dentro se passava, sobretudo quando eram perceptíveis movimentações fora do habitual. Estranho, neste caso, foi que a mulher se tenha aventurado a entrar na sala, e não apenas a espreitar à porta!

 3. Uma vez lá dentro, é a pessoa de Jesus o centro único do seu interesse (vê-se que foi unicamente por causa d’Ele que entrou), vão para Ele todas as suas atenções, em relação a Ele cumpre SEIS ACÇÕES simbólicas e grandemente significativas, sempre sem dizer uma palavra:

A) vem e traz um frasco com perfume;
B) coloca-se por detrás dos pés de Jesus;
C) chorando, com as lágrimas banha os pés de Jesus;
C’) e com os cabelos da sua cabeça enxugava-os;
B’) e beijava os pés de Jesus;
A’) e ungia-os com perfume.

 4. Enquanto isto acontecia em silêncio, aberto, portanto, à interpretação de todos, também à nossa, diz-nos o narrador que o fariseu murmurava acerca de Jesus, que seguramente não seria um profeta, pois se o fosse, saberia certamente que era uma pecadora que o tocava, e teria impedido tal procedimento.

 5. Assim pensava o fariseu, quando Jesus mostra que é, de facto, profeta, interceptando-lhe e corrigindo-lhe os pensamentos enviesados e retorcidos, apontando-lhe o essencial, que é a GRAÇA, e pondo-o a falar bem e abertamente. «Simão, tenho uma coisa para te dizer». «Fala, Mestre», respondeu ele. «Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, fez graça (charízomai) a ambos. Qual dos dois o amará (agapáô) mais?». Simão respondeu: «Suponho que aquele a quem fez mais graça (charízomai)». Jesus disse: «Julgaste bem» (Lucas 7,40-43).

 6. Neste momento, há já na sala um excesso de luz. Salta à vista que as SEIS ACÇÕES da mulher apontam para a SÉTIMA, que enche agora a cena toda e prende todos os pensamentos: é a ACÇÃO DE DEUS, a ACÇÃO DA GRAÇA concedida por Deus e actuante nos dois devedores que não tinham com que pagar (Lucas 7,41-42). Este relevo da ACÇÃO DA GRAÇA está bem marcado, de resto, pelas únicas ocorrências em Lucas do verbo charízomai [= fazer graça] (Lucas 7,21b.42-43).

 7. Vendo que os seus pensamentos tinham sido interceptados por Jesus, o fariseu responde cautelosamente à pergunta formulada por Jesus: «SUPONHO que…». Ao contrário da mulher, que arrisca tudo, expondo-se a todos os olhares, pensamentos e dizeres. O fariseu é mesmo apresentado como o homem do NÃO, ao contrário da mulher: «TU NÃO me deste água para os pés; ELA, AO CONTRÁRIO, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos; TU NÃO me deste um beijo; ELA, AO CONTRÁRIO, desde que entrei, não cessou de me beijar os pés; TU NÃO me ungiste a cabeça com óleo perfumado; ELA, AO CONTRÁRIO, ungiu-me os pés com perfume» (Lucas 7,44-46).

 8. Em suma, esta mulher pecadora arriscou tudo por amor. Foi perdoada e ganhou a GRAÇA de uma vida nova (Lucas 7,48-50).

 9. E esta mulher pecadora e silenciosa é, para todas as gerações, um imenso discurso sobre a GRAÇA e a ACÇÃO DA GRAÇA de Deus, que nos precede e acompanha sempre. GRAÇA preveniente, concomitante, consequente.

 António Couto


QUANDO DEUS ESTÁ DE VISITA AO SEU POVO

Junho 5, 2010

 

1. Abraão, em idade avançadíssima, estava sentado numa esteira na sua tenda de chefe tribal, quando vislumbrou ao longe, sobre o caminho arenoso do deserto, a figura de um dos anjos que, alguns anos antes, o tinham visitado para lhe dar a notícia feliz do nascimento do seu filho Isaac. Mas, quando o anjo se aproximou um pouco mais, Abraão sentiu um calafrio e compreendeu que este não era o anjo da vida, mas o anjo da morte, que se aproximava para lhe levar a vida. Mal o anjo chegou junto dele, Abraão encheu-se de coragem e disse-lhe: «Anjo da morte, tenho uma pergunta para te fazer; eu sou o amigo de Deus; responde-me: já algum dia viste um amigo desejar a morte do seu amigo?». O anjo, então, respondeu: «Também eu te farei uma pergunta: já algum dia viste um enamorado recusar encontrar-se com a pessoa amada?». Neste momento, Abraão exclamou: «Anjo da morte, leva-me!». Este delicioso apólogo da tradição mística muçulmana, que tem como protagonista Abraão, o «pai na fé», comum às três grandes religiões monoteístas (hebraica, cristã e muçulmana), traduz luminosamente os dois rostos da morte: o monstruoso e o angélico, o da separação e o do encontro.

 2. Estas duas facetas atravessam os textos deste Domingo X do Tempo Comum. Desde logo, o Evangelho de Lucas 7,11-17, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Naim», e 1 Reis 17,17-24, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Sarepta». Parecem, à primeira vista, dois textos paralelos: ambos falam de uma viúva e da morte e do regresso à vida do seu filho único, num caso por obra de Elias, no outro por obra de Jesus. Mas as diferenças são mais do que as semelhanças.

 3. Comecemos, como é de bom tom, pelo relato do Evangelho. Eis-nos de imediato perante uma pobre mãe, viúva, que acompanha, chorando, o seu filho único ao cemitério. Acompanha-a uma grande multidão, mas aquela pobre mãe, atravessada pela dor mais profunda, atravessa também a mais cruel solidão. É o cortejo da morte. Vem ao seu encontro, em contraponto, o cortejo da vida: Jesus, acompanhado pelos seus discípulos e também por uma grande multidão. Ao ver a pobre viúva que chorava, Jesus COMOVEU-SE, e ordenou à mulher: «Não chores!». Depois, tocou o esquife aberto, como é usual no oriente, e ordenou: «Jovem, eu te digo, LEVANTA-te!» O jovem SENTOU-se, sinal narrativo de que o esquife ia, de facto, aberto, e começou a FALAR, e Jesus DEU-o à sua mãe. E só agora reage a multidão, que ficou tomada de temor e glorificava a Deus, dizendo: «Um profeta grande se LEVANTOU entre nós, e Deus VISITOU o seu povo!».

 4. Notas a considerar: 1) Jesus comove-se (verbo grego splagchnízomai), comoção entranhada, maternal, divina; 2) Jesus intervém por pura graça: não responde a nenhum queixume nem a nenhum pedido; 3) Jesus ordena àquela mãe que não chore: como Deus que enxuga as lágrimas dos nossos olhos (cf. Isaías 25,8; Apocalipse 17,7; 21,4); 4) Jesus ordena, em primeira pessoa, ao jovem que se levante da morte (não invoca Deus para que dê a vida ao jovem, como faz Elias no relato da viúva de Sarepta); 5) Jesus dá o filho àquela mãe: importante lição para nós que pensamos que os filhos são nossos, e não dados! 6) a multidão reage no final: enche-se de temor [= vê com maravilha cair as certezas em que até então se agarrou, e nasce de novo de acordo com a novidade boa que vê vir de Deus], e proclama a VISITA boa, com bons olhos (grego episképtomai, donde vem o nosso termo «Bispo»), de Deus: Deus-connosco! Tantas Maravilhas a descobrir com um bom olhar! Tantas maravilhas a fazer acontecer com um bom olhar!

 5. A narrativa de 1 Reis 17,17-24, da ressurreição do filho da viúva de Sarepta, não fala de multidão. Passa-se tudo em casa. O milagre vai realizar-se como prémio da generosa hospitalidade daquela viúva, que expõe a sua queixa a Elias. E, sobretudo, Elias não é Jesus. Não ordena o regresso à vida do rapaz. Invoca-o de Deus por mais de uma vez…

 6. Mas nós somos do tempo novo da novidade e da beleza do Evangelho, e bem sabemos que o Senhor está no meio de nós. Então, rejubilemos!

 António Couto


ATITUDES FUNDAMENTAIS DA EUCARISTIA

Junho 2, 2010

 

INTRODUÇÃO

Que a Eucaristia é uma Festa é um dado adquirido. Mas é igualmente seguro que a Festa, biblicamente falando, é uma roda de alegria, um círculo aberto. Na verdade, na Bíblia, uma Festa é um encontro marcado (mô‘ed) , plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro], com Deus e com os outros[1]. Sendo um encontro marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a Festa é de peregrinação, como são a Páscoa, as Semanas ou Pentecostes e as Tendas –, então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que Festa de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E hag deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida[2].

Os verbos implicam acção, traduzem atitudes, desenham passos e gestos. É, por isso, importante, neste estudo sobre a Eucaristia, começar por mostrar os verbos que lhe servem de suporte no Novo Testamento. Percorremos, para o efeito, todos os textos significativos que a manifestam: a) os cinco textos que se referem à instituição da Eucaristia (Mt 26,26-27; Mc 14,22-23; Lc 22,17-20; 1 Cor 11,23-26; 1 Cor 10,16), a que acrescentaremos ainda um texto do Livro dos Actos (27,35); b) os seis textos que habitualmente são mencionados a propósito da chamada «multiplicação dos pães» (Mt 14,19; 15,36; Mc 6,41; 8,6; Lc 9,16; Jo 6,11), a que acrescentaremos um sétimo (Lc 24,30), que também poderíamos catalogar na secção da instituição da Eucaristia. Apresentamos primeiro os verbos tal como aparecem no texto grego do NT, logo seguidos da respectiva versão em língua portuguesa. No que se refere à instituição da Eucaristia, apresentamos primeiro o pão, depois o cálice. No que diz respeito à chamada «multiplicação dos pães», apresentamos em primeiro lugar a primeira e depois a segunda, sendo que Lc 24,30 ocupa aqui o lugar da segunda, que falta em Lucas. João conta apenas uma.

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