QUANDO DEUS ESTÁ DE VISITA AO SEU POVO


 

1. Abraão, em idade avançadíssima, estava sentado numa esteira na sua tenda de chefe tribal, quando vislumbrou ao longe, sobre o caminho arenoso do deserto, a figura de um dos anjos que, alguns anos antes, o tinham visitado para lhe dar a notícia feliz do nascimento do seu filho Isaac. Mas, quando o anjo se aproximou um pouco mais, Abraão sentiu um calafrio e compreendeu que este não era o anjo da vida, mas o anjo da morte, que se aproximava para lhe levar a vida. Mal o anjo chegou junto dele, Abraão encheu-se de coragem e disse-lhe: «Anjo da morte, tenho uma pergunta para te fazer; eu sou o amigo de Deus; responde-me: já algum dia viste um amigo desejar a morte do seu amigo?». O anjo, então, respondeu: «Também eu te farei uma pergunta: já algum dia viste um enamorado recusar encontrar-se com a pessoa amada?». Neste momento, Abraão exclamou: «Anjo da morte, leva-me!». Este delicioso apólogo da tradição mística muçulmana, que tem como protagonista Abraão, o «pai na fé», comum às três grandes religiões monoteístas (hebraica, cristã e muçulmana), traduz luminosamente os dois rostos da morte: o monstruoso e o angélico, o da separação e o do encontro.

 2. Estas duas facetas atravessam os textos deste Domingo X do Tempo Comum. Desde logo, o Evangelho de Lucas 7,11-17, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Naim», e 1 Reis 17,17-24, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Sarepta». Parecem, à primeira vista, dois textos paralelos: ambos falam de uma viúva e da morte e do regresso à vida do seu filho único, num caso por obra de Elias, no outro por obra de Jesus. Mas as diferenças são mais do que as semelhanças.

 3. Comecemos, como é de bom tom, pelo relato do Evangelho. Eis-nos de imediato perante uma pobre mãe, viúva, que acompanha, chorando, o seu filho único ao cemitério. Acompanha-a uma grande multidão, mas aquela pobre mãe, atravessada pela dor mais profunda, atravessa também a mais cruel solidão. É o cortejo da morte. Vem ao seu encontro, em contraponto, o cortejo da vida: Jesus, acompanhado pelos seus discípulos e também por uma grande multidão. Ao ver a pobre viúva que chorava, Jesus COMOVEU-SE, e ordenou à mulher: «Não chores!». Depois, tocou o esquife aberto, como é usual no oriente, e ordenou: «Jovem, eu te digo, LEVANTA-te!» O jovem SENTOU-se, sinal narrativo de que o esquife ia, de facto, aberto, e começou a FALAR, e Jesus DEU-o à sua mãe. E só agora reage a multidão, que ficou tomada de temor e glorificava a Deus, dizendo: «Um profeta grande se LEVANTOU entre nós, e Deus VISITOU o seu povo!».

 4. Notas a considerar: 1) Jesus comove-se (verbo grego splagchnízomai), comoção entranhada, maternal, divina; 2) Jesus intervém por pura graça: não responde a nenhum queixume nem a nenhum pedido; 3) Jesus ordena àquela mãe que não chore: como Deus que enxuga as lágrimas dos nossos olhos (cf. Isaías 25,8; Apocalipse 17,7; 21,4); 4) Jesus ordena, em primeira pessoa, ao jovem que se levante da morte (não invoca Deus para que dê a vida ao jovem, como faz Elias no relato da viúva de Sarepta); 5) Jesus dá o filho àquela mãe: importante lição para nós que pensamos que os filhos são nossos, e não dados! 6) a multidão reage no final: enche-se de temor [= vê com maravilha cair as certezas em que até então se agarrou, e nasce de novo de acordo com a novidade boa que vê vir de Deus], e proclama a VISITA boa, com bons olhos (grego episképtomai, donde vem o nosso termo «Bispo»), de Deus: Deus-connosco! Tantas Maravilhas a descobrir com um bom olhar! Tantas maravilhas a fazer acontecer com um bom olhar!

 5. A narrativa de 1 Reis 17,17-24, da ressurreição do filho da viúva de Sarepta, não fala de multidão. Passa-se tudo em casa. O milagre vai realizar-se como prémio da generosa hospitalidade daquela viúva, que expõe a sua queixa a Elias. E, sobretudo, Elias não é Jesus. Não ordena o regresso à vida do rapaz. Invoca-o de Deus por mais de uma vez…

 6. Mas nós somos do tempo novo da novidade e da beleza do Evangelho, e bem sabemos que o Senhor está no meio de nós. Então, rejubilemos!

 António Couto

2 respostas a QUANDO DEUS ESTÁ DE VISITA AO SEU POVO

  1. E.Coelho diz:

    Olá, boa noite,

    Acabo de ler o texto e não pude deixar de atender àquela frase: “VISITA boa, com bons olhos (grego episképtomai, donde vem o nosso termo «Bispo»), de Deus: Deus-connosco! Tantas Maravilhas a descobrir com um bom olhar! Tantas maravilhas a fazer acontecer com um bom olhar!”!..-
    … e fiquei a pensar no quanto tem de ser BOM o olhar de um Bispo para poder, também ele, fazer acontecerem maravilhas. Depois, aquele “Deus connosco” transportou-me ao Pastor, ao Bom Pastor e ao que tem sido dito a propósito deste Ano Sacerdotal. MISSÃO, sempre missão, sempre connosco, sempre em festa, pois em festa se recebe e se partilha, em família, tudo o que é BOM.
    Seja-nos dado poder olhar por esse «olhar»,do Pastor, para entendermos o desejo do enamorado que quer encontrar-se com a pessoa amada!
    Abraço grande,
    E.Coelho

  2. JOSE OLIVEIRA diz:

    OLÁ BOA TARDE!
    Ler este texto e olhar para esta imagem da senhora que chora, gostaria de partilhar, sentimentos em momentos vividos em caminhada em PEREGRINAÇÃO à Cova de Iria FÁTIMA.Quando rezamos o Terço a maior parte das vezes eu choro,mas este choro é de Alegria, Compaixão e por vezes sinto que choro pelos que não podem chorar.Será este sentimento digno?
    Faço esta pergunta porque um dos peregrinos veio ter comigo e pediu-me para não o fazer, porque, disse ele, podia magoar os outros.A verdade é que este sentimento é mais forte do que eu, e, nesta vida terrena, só tenho a dar GRAÇAS a DEUS por intermédio de MARIA, nossa MÃE.
    Obrigado e até sempre.

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