«Como Eu vos fiz, fazei vós também». Para um rosto missionário da Igreja em Portugal

Junho 21, 2010

 

Introdução

 1. O Congresso Missionário Nacional, realizado em Fátima, de 3 a 7 de Setembro de 2008, pediu à Conferência Episcopal Portuguesa a elaboração de um documento-base que possa servir de orientação à Missão em Portugal, e que vá no sentido de avivar a vocação missionária de todos os cristãos.

 2. Prestamos homenagem a todos aqueles que em tempos passados animaram o nosso país com o seu fulgor missionário. É, porém, um dado adquirido que tal fulgor se esvaneceu, e hoje Portugal «faz parte daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além de uma nova evangelização, se requer, em determinados casos, a primeira evangelização», dado que, «mesmo no velho continente, existem extensas áreas sociais e culturais, onde se torna necessária uma verdadeira e própria “missão ad gentes”»[1]. Esta declaração formal qualificando também a Europa como espaço da «missão ad gentes» faz evoluir o antigo quadro de terras cristãs e terras de missão para uma nova inter‑eclesialidade missionária, onde todos somos chamados a viver e a transmitir, com ardor sempre original, os dinamismos que o encontro com o Ressuscitado e Senhor da História em nós desperta.

 3. É visível, de facto, que atravessamos hoje um mundo em profunda mudança. Na cidade hodierna cruzam-se pessoas de diferentes cores, culturas, línguas e credos. A busca de melhores condições de vida tão depressa traz para a cidade pessoas de outros países e de diferentes situações sociais, culturais e religiosas, como faz partir também muitos dos seus anteriores habitantes. Dado o crescente pluralismo cultural e religioso, aliado a uma onda de secularização e individualismo e a um crescente relativismo e indiferença, já não são os campanários das igrejas que marcam o ritmo da vida das pessoas. O Evangelho de Jesus Cristo é cada vez menos conhecido. E para uma parte significativa daqueles que dizem conhecê-lo, é notório que já perdeu muito do seu encanto e significado. Este cenário é preocupante e pede, com urgência, à Igreja presente na cidade dos homens uma nova cultura de evangelização, que vá muito para além de uma simples pastoral de manutenção. Deve notar-se que, nas comunidades cristãs primitivas, o termo «Evangelho» é um nome de acção e não de estado, significa «anunciar a notícia feliz da Ressurreição de Jesus», pelo que não pode ser confundido com um livro colocado na estante que gera vidas colocadas na estante; «Evangelho» significa então «evangelização», e evangelização implica movimento e comunicação, e requer tempo, formação, inteligência, entranhas, mãos e coração.

 4. O Papa Bento XVI, que em boa hora, entre os dias 11 e 14 de Maio passado, tivemos a dita de receber em Visita Apostólica ao nosso país e como peregrino de Nossa Senhora de Fátima, já nos tinha dito com suficiente clareza que não é uma ideia, ainda que seja grande a ideia, que leva alguém a fazer-se cristão, mas um encontro decisivo com a Pessoa de Cristo[2]. E nesse sentido, também nos disse o Papa que a Missão não se baseia em ideias nem em territórios (não parte de territórios nem se dirige a territórios), mas «parte do coração»[3] e dirige-se ao coração, uma vez que são «os corações os verdadeiros destinatários da actividade missionária do Povo de Deus»[4]. Neste contexto novo, alargam-se os horizontes da missão ad gentes a todas as latitudes, mas é forçoso reconhecer também que é necessário lançar mão de novos métodos.

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