A SENHORA DONA MARTA E A DISCÍPULA MARIA


 

1. Imediatamente a seguir ao belo trabalho de amor do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), eis-nos a braços com outra cena de excepção do Evangelho de Lucas: Jesus, Marta e Maria (Lucas 10,38-42).

 2. A primeira anotação do narrador é para nos comunicar que, estando Jesus em viagem, uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Acrescenta logo que Marta tinha uma irmã, chamada Maria, e começa de imediato a desenhar o retrato das duas irmãs.

 3. De Maria, diz-nos que se SENTOU aos pés de Jesus e que ESCUTAVA a sua Palavra. O leitor apercebe-se de imediato que Maria assume a figura de discípula atenta, dedicada e deliciada: SENTADA perto do Mestre, ESCUTAVA… O narrador usa outras tintas para pintar o retrato de Marta. Começa por nos dizer que andava DISTRAÍDA (verbo grego perispáô) com muito trabalho. Aproximando-se, porém, disse a Jesus com um certo ar de reprovação: “Senhor, a ti não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a trabalhar?” E, sem esperar pela resposta, como quem está cheia de razão, acrescenta logo, como quem tem autoridade para dar ordens até a Jesus: “Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!” É aqui que intervém Jesus, com a sua Palavra serena e soberana, para lhe dizer: “Marta, Marta, andas PREOCUPADA (verbo grego merimnáô) e ÀS VOLTAS (verbo grego thorybázô) com MUITAS COISAS, quando UMA SÓ é necessária”. E conclui, para total espanto nosso e de Marta: “Maria ESCOLHEU a parte BOA (e bela), que não lhe será tirada”.

 4. Importa ver já, com clareza, que Maria não diz uma palavra em todo o episódio. Não se ouve a sua voz. Ela está tranquilamente SENTADA e totalmente concentrada na ESCUTA de outra VOZ. Maria é a mulher de UMA COISA e de UMA PESSOA. Por isso, na base da sua vida, tem de haver uma ESCOLHA. Nas páginas da Escritura Santa, é normalmente Deus o sujeito do verbo ESCOLHER. Quando também nós ousamos ESCOLHER, então já se percebe que deixamos muitos mundos para trás e que nasce em nós um mundo novo.

 5. Marta começa por receber Jesus na casa dela. É a senhora dona Marta. Olha de soslaio para a sua irmã Maria que acusa de não fazer nada, e repreende Jesus por não se importar com isso, e acaba dando ordens a Jesus, para que, por sua vez, dê ordens a Maria para a ir ajudar. É a senhora dona Marta. Manda, ou pensa que manda, em casa, na sua irmã e em Jesus! O quadro que aqui vemos desenhado por Lucas vai muito para além da nossa simplista e velha dicotomia entre vida activa e vida contemplativa. Querer entrar por aqui é mesmo ficar fora da porta!

 6. A sua vida é uma azáfama, anda às voltas, ocupada por preocupações e preconceitos, descentrada e desconcentrada. O seu fazer é tradicional e convencional. Nunca ESCOLHEU. O narrador diz-nos que anda DISTRAÍDA, e Jesus diz-lhe que anda PREOCUPADA e ÀS VOLTAS… Vocabulário importante. Um pouco adiante, Jesus adverte os seus discípulos para não se PREOCUPAREM com a vida, quanto ao que hão-de comer, nem com o corpo, quanto ao que hão-de vestir (Lucas 12,22), e acrescenta logo que isso são coisas dos pagãos! (Lucas 12,30). E põe-nos diante dos olhos este tesouro evangélico e poético: “Considerai os lírios do campo, que não fiam nem tecem!…” (Lucas 12,27).

 7. Ao contrário da senhora dona Marta, que nunca abriu mão da sua condição de dona, Maria percebeu bem que não é dona, mas simplesmente hóspede. Não da sua irmã Marta, mas de Jesus. Maria está, na verdade, hospedada em casa de Jesus. Por isso, está assim serena e tranquila. Entregou-lhe tudo: o coração, as mãos, os olhos, o cofre, a chave do cofre, a chave de casa. Marta não é apresentada como sendo má pessoa, mas não compreendeu que, quando Jesus entra em nossa casa, é dele a casa, e nós simplesmente seus hóspedes, tranquilamente sentados junto dele! Ai esta nossa entranhada tentação patronal (!), que atenta contra a declaração fundamental de Deus: «A terra é minha, e vós sois para mim estrangeiros e hóspedes» (Levítico 25,23).

 8. Dizia um velho rabino acerca de um seu colega: “anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!” Convenhamos que se trata de um esquecimento desastroso…

 9. Veja-se bem a simplicidade, a prontidão e a candura desarmantes do velho Abraão do Antigo Testamento de hoje! (Génesis 18,1-10).

 António Couto

2 respostas a A SENHORA DONA MARTA E A DISCÍPULA MARIA

  1. Carolina Rosa diz:

    Sento-me à tua Mesa
    não tanto para comer
    uma refeição frugal
    ou até mesmo festiva,
    mas para me alimentar
    da Palavra
    que sacia
    o mais profundo do ser.

    Sento-me à tua Mesa
    e que maravilha de “alimento”!
    Palavra
    cheia de sabedoria
    profundidade
    comunhão e intimidade
    com o mistério de Deus
    com o mistério do homem!

    Sento-me à tua Mesa
    e como queria absorver
    tanta beleza
    tanto conhecimento!
    Mas a Palavra
    é sempre nova
    em cada momento
    que se lê,
    que se escuta!
    Então,
    a absorção
    terá de ser constante.
    E é nessa constante
    que a vida
    se transforma
    e se renova.

    D. António,
    “Um” Obrigada profundo e amigo
    pela partilha que faz,que,por sua
    vez me levou a comunicar deste
    modo.
    Carolina

  2. Da Silva Luis diz:

    Ainda bem que existe um bispo António Couto que nos desperta deste “esquecimento desastroso…”
    desta azáfama estonteante de “fazer coisas” que não servem para nada.
    Bem haja! Pela disponibilidade e pelo acolhimento
    Luís Tabor

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