NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

 

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto que, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

 2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Baptista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

 3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registrada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Baptista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

 4. Maria correndo sobre os montes: feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…»; evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» = «Bendita tu e bendito Deus» lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor» remete para o atónito dizer de David: «E donde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus.

 5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?” Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

 6. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus proclama e vive com amor esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser excepção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

 7. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de Outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

Senhora da Visitação ou da Saudação,
que corres ligeira sobre os montes,
Senhora da Assunção ou da Dormição,
Santa Maria Rainha,
vela por nós, fica à nossa beira.
É bom ter a esperança como companheira.

 António Couto

2 Responses to NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

  1. Dulce diz:

    “Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.”

    D. António,
    Bom dia.

    Mais uma página tão perfeita, tão animada, também pelas maravilhosas ilustrações,
    importante reflexão nesta Festa da Assunção de Nossa Senhora,
    Festa também da Palavra que vem do coração de Deus

    Que a vivamos Todos, esta Festa
    com a Esperança a que nos alude
    que é, indubitavelmente, uma boa companheira

    Salve Rainha
    Nossa Senhora
    Querida Mãe,

    Persevera
    nesta grande Festa nos nossos corações
    ensinando-nos a paciência, humilde
    no caminho rumo à paz de espírito
    que tanto desejamos

    Ilumina-nos
    para que quando o vento passar
    e nos trouxer a melodia da Vida
    saibamos recebe-la num novo alento
    Caminho para Todos
    de uma vida mais feliz

    E num abraço Amigo, de Esperança,
    desejo-Lhe um fim de semana de muita paz e alegria.

    Dulce

  2. Manuel diz:

    D. António,
    Obrigado por este seu lindo texto, todo movido pela ligeira suavidade do sopro do Espírito, que não cessa de obrar maravilhas em favor dos pequenos, a todos fazendo saltar de alegria, porque a vitória de Cristo sobre a morte, que o mistério da Dormição de Maria nos revela, é penhor da nossa também. Não admira por isso que este mistério que na Assunção celebramos faça o nosso coração exultar de alegria da Esperança, que à Acção de Graças nos move.

    Manuel

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