NÓS E OS OUTROS

 

1. A profecia de Isaías (66,18-21), hoje lida, rompe os nossos estreitos e falsos privilégios e alarga em muito a estrada da salvação, pondo todos os povos, como NOSSOS irmãos, festivamente a caminho de Jerusalém! Para espanto nosso, o grande Isaías tinha já posto Deus a pronunciar a seguinte bênção: «Bendito o meu povo, o Egipto e a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (19,25).

 2. O Evangelho hoje proclamado (Lucas 13,22-30) dirige-se a NÓS, os de dentro, e continua a desconcertar a nossa miopia no que às coisas de Deus diz respeito. «Comemos e bebemos contigo», «ouvimos os teus ensinamentos»! É como quem diz: frequentámos as Igrejas, comungámos tantas vezes, ouvimos proclamar a tua palavra, conhecemos-te muito bem, somos praticantes de longa data e até talvez beatos!

 3. Ficaremos espantados quando percebermos bem que os títulos que orgulhosamente ostentamos são falsos, há muito caducados, e não garantem o acesso a lugar nenhum no Reino dos Céus, pois não basta dizer «Senhor, Senhor!» É preciso «fazer a vontade do meu Pai que está nos céus!», diz-nos Jesus (Mateus 7,21).

 4. Assim, mais espantados ficaremos quando virmos gente de todas as nações (é o que significa a menção dos quatro pontos cardeais: norte, sul, este e oeste) a vir sentar-se à mesa do Reino dos Céus, e nós, sem bilhete, a ficarmos fora!

 5. É, portanto, urgente começar a compreender qual é o bilhete verdadeiro que dá acesso ao Reino dos Céus. A compreender e a fazer. Jesus manda-nos «lutar»: «Lutai com todas as forças (verbo agonízô) por entrar» (Lucas 13,24). Podemos ouvi-lo, de outra maneira, da boca de Pedro em Cesareia Marítima: «Na verdade, Deus não faz acepção de pessoas, mas em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça é bem aceite por Ele» (Actos dos Apóstolos 10,34-35).

 6. Hoje, como sempre, é de santos e de justos que o nosso mundo precisa. Deles é o Reino dos Céus. E NÓS? Eles não perdem tempo em acudir às necessidades dos seus irmãos, sejam eles quem forem. E NÓS? Alguém dizia, não há muito tempo, que «os cristãos meramente praticantes estão em fim de linha. Hoje, precisamos de cristãos enamorados!» O cristão meramente praticante é que está sempre a dizer: «Posso estar descansado: já cumpri todos os meus deveres». O cristão enamorado é aquele que está sempre a dizer: «Ainda tenho tanta coisa para fazer!»

 7. Lutai com todas as vossas forças em todos os momentos. A porta é estreita e está aberta pouco tempo. É o espaço e o tempo da nossa vida. Sede cristãos enamorados!

 António Couto

One Response to NÓS E OS OUTROS

  1. Paula Fernandes diz:

    “Lutai com todas as vossas forças em todos os momentos.

    A porta é estreita e está aberta pouco tempo.

    É o espaço e o tempo da nossa vida.”

    Acutilante, este apelo.

    Mas, também, sábio e, se bem aplicado, fazedor de “milagres” …

    Devíamos grava-lo numa mão, nós cristãos predominantemente praticantes e visitá-lo
    minuto a minuto.

    Talvez assim os nossos dias fossem mais “de simplesmente dar” e não tanto “de conquistar, ostentar, esperar em troca”.

    Talvez assim a nossa verdadeira conquista fosse
    o tal bilhete de entrada, no Reino dos Céus.

    Pela infinita GRAÇA de DEUS é possível.

    Façamo-lo HOJE, que se faz tarde e a VIDA são dois dias.

    É bom saborear as palavras desta “Mesa de Palavras”, na recta final das férias, em preparação de mais um ano de trabalho.

    Obrigada sempre, D. António.

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