OPERAÇÃO DE CORAÇÃO ABERTO


 

1. Desde Lucas 9,51 que Jesus está decididamente A CAMINHO de Jerusalém. E assim continuará até 19,28. Com este belo recurso à tipologia do CAMINHO (hodós) e do verbo CAMINHAR (poreúomai), Lucas exemplifica e clarifica o modo cristão de viver. Porque todo o CAMINHO abre o mundo ao meio, ao mesmo tempo que vai desenhando e actualizando a nossa vida em duas partes: «para a frente» e «para trás». Note-se que Lucas é, de longe, o Autor do Novo Testamento que mais vezes usa estes vocábulos, sensivelmente 40 em 100 vezes (hodós) e 88 em 150 vezes (poreúomai). Num mundo plano como o nosso, o Evangelho de Lucas rasga CAMINHOS e procede a verdadeiras operações de CORAÇÃO aberto. CAMINHO que abre CAMINHOS novos, novas maneiras de viver, com Jesus, que é o CAMINHO, sabe o CAMINHO, mostra o CAMINHO e faz o CAMINHO, a enxertar a plenitude nesta nossa imensa e chata planitude.

 2. E aí está o Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum (Lucas 14,25-33) a abrir com a indicação de que «CAMINHAVAM com Ele multidões numerosas» (Lucas 14,25). E Jesus, sempre com tempo, a voltar-se para nos dizer palavras cortantes como bisturis: «Se alguém vem ter comigo e não odeia (miséô) o próprio pai e a mãe e a mulher e os filhos e os irmãos e as irmãs, e até a própria vida, não pode ser meu discípulo» (Lucas 14,26-27). O que se diz aqui da família mais directa e da própria vida, dir-se-á um pouco mais à frente dos «próprios bens» (Lucas 14,33).

 3. Compreenda-se, antes de mais, o sentido daquele «odiar» (miséô). É óbvio que não se trata de ódio em sentido próprio. Colidiria, por exemplo, com Lucas 18,20, em que Jesus, citando os mandamentos ao homem rico, refere a «honra devida ao pai e à mãe». O «odiar» acima referido é, na verdade, a tradução do modo de dizer aramaico, hebraico e semítico em geral, línguas que não têm outro verbo para dizer «preferir». Vê-se melhor com exemplos: em Génesis 29,31, lê-se literalmente: «O Senhor viu que Lia era odiada», e em Génesis 29,33, após ter concebido Simeão, lê-se literalmente: «O Senhor viu que eu era odiada». Em Deuteronómio 21,15-17, lê-se literalmente: «Se forem para um homem duas mulheres, e ele amar uma e odiar a outra, e gerarem para ele filhos a que é amada e a que é odiada, e se for o filho primogénito da odiada…». Nos dois textos do Génesis, a locução era odiada aparece sempre traduzida por não era amada. No texto do Deuteronómio, que apresenta o contraponto entre a mulher amada e a mulher odiada, a mulher odiada é a não amada ou de que não gosta. Portanto, é facilmente compreensível que o sentido do texto acima não passa por «odiar» a família e a própria vida, mas por alguém «preferir» ou «pôr antes» do seguimento de Jesus a família, a própria vida ou os bens.

 4. Posto isto, entenda-se bem que o CAMINHO de Jesus é um CAMINHO de decisões fortes. Sendo que «decisão» deriva de «decidere», cuja etimologia remete para «cortar». Aí estamos outra vez então no domínio do bisturi e da operação de CORAÇÃO aberto que tem de fazer todo o discípulo de Jesus.

 5. Sendo um CAMINHO de decisões fortes, de cortes, é também um CAMINHO de ponderação e deliberação atenta e serena. Por isso, por duas vezes, o dizer de Jesus convida a «sentar-se primeiro» (Lucas 14,28 e 31).

 6. A Assembleia Dominical é um tempo extraordinariamente denso e intenso, em que os discípulos de Jesus e as multidões se sentam para ouvir a Palavra de Deus, e para tomar as decisões consentâneas com a força da Palavra que escutamos. Decisões são cortes. Todos os discípulos de Jesus se devem sujeitar urgentemente a esta operação de CORAÇÃO aberto.

 7. Não é necessário «odiar» ninguém. Mas é preciso, é decisivo, «amar mais», para sermos e termos «mais» irmãos. Ainda há muitos «Onésimos» à espera de um amor novo que os liberte, que nos liberte.

 António Couto

3 respostas a OPERAÇÃO DE CORAÇÃO ABERTO

  1. Angelina Ferreira diz:

    Muito obrigada D. António por este esclarecimento. Porque, na verdade,o modo como está nas truduções correntes, fere-nos os ouvidos. E, mais que isso,fere a nossa sensibilidade. Aliás, eu sempre acreditei que a mensagem estaria exagerada por inadequação de vocabulário, e tinha esperança de vir a compreende-la.

    Com amizade

    Angelina Ferreira

  2. conceição silva diz:

    Bem haja, senhor D. António Couto, pela mesa que nos oferece.
    São palavras vividas que nos enriquecem e ajudam a caminhar decididos por Jesus Cristo.
    Que Deus o abençoe

  3. Dulce diz:

    D. António,
    Olá.

    Mais uma página maravilhosa que tanto nos implica
    e nos permite reflectir…

    Uma cruz que nos mostra um Amor incondicional a Jesus.
    E um coração que bate forte num pulsar de Vida que importa sintamos dentro de nós.

    “O CAMINHO de JESUS é um CAMINHO de decisões fortes”, escreve D. António,
    e eu reflicto…

    e a mim…
    o que me move neste CAMINHO que decido tomar…?!

    E logo surge clara a resposta:

    o que me move…?!

    é um sentimento sincero e consciente
    de inteira confiança de humildade
    que me impele a “criar laços”

    e a verdade é que em alguns dos meus dias este Estar se torna tão visível, precisamente
    quando o coração não aguenta tamanha ternura
    e cresce para fora de mim…

    e Sou aí, inequivocamente
    a melhor expressão da Fé que me habita

    Num abraço amigo, desejo-lhe D. António
    um dia muito feliz.

    Dulce

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