ESTA PARÁBOLA DA MISERICÓRDIA


 

1. Este Domingo XXIV do Tempo Comum oferece-nos a proclamação e audição integral (assim vivamente o espero) da grande parábola de Lucas 15. A página lucana tem lugar garantido em qualquer antologia dos mais belos textos de todos os tempos.

 2. É a história dos pecadores e dos publicanos, dos escribas e dos fariseus, de que todos temos um pouco. Todos se aproximam de Jesus: os primeiros para o escutar com alegria; os segundos para o criticar com azedume pelo facto de ele receber os primeiros e comer com eles. Há, portanto, aqui um comportamento novo, misericordioso, inclusivo e acolhedor por parte de Jesus. Por isso dele se aproximam os pecadores, até então marginalizados e hostilizados pela tradição religiosa vigente; por isso o criticam os fariseus e os escribas, os garantes da velha tradição religiosa, rigorosa e exclusivista.

 3. A estes últimos conta Jesus uma parábola. Note-se bem: uma parábola, «esta parábola» (taútên parabolên) (v. 3), no singular, e não três parábolas, como é usual dizer-se. Note-se também que, para escutarmos correctamente «esta parábola» de Jesus, é do lado dos fariseus e dos escribas que nos devemos postar, dado que é para eles que Jesus conta a parábola. Para eles e para o nosso lado orgulhoso e exclusivista. É notório que, dado o desenrolar da história contada por Jesus, gostemos mais de nos rever na ovelha perdida e encontrada do que nos noventa e nove fariseus cumpridores de ordens e que, por isso, se julgam justos com direitos sobre Deus, como também nos revemos habitualmente naquele filho que sai de casa e que acaba por voltar, sendo recebido por um Pai carinhoso que o espera de braços abertos. Mas, para que a história nos caia em cima, é do outro lado que nos devemos colocar.

 4. A eles e a nós mostra Jesus a premura do pastor que corre, ainda que seja a vida inteira, à procura da sua ovelha perdida. E mostra depois a alegria incontida que sente quando a encontra, e em que quer fazer participar os seus amigos e vizinhos. A mesma premura e alegria toma conta da mulher que procura e encontra a moedinha que perdeu no chão de terra e basalto negro da sua humilde casa.

 5. Mas já Jesus traz para a cena, sem deixar a audiência respirar, um Pai excepcionalmente maravilhoso e bom, em quem pulsa um imenso coração e vibram entranhas de misericórdia. Tem dois filhos, que nos representam a todos: um claramente pecador, que opta por sair de casa, depois de ter pedido ao pai a sua parte da herança. Note-se que todo o pai dá três coisas aos seus filhos: o pão, todos os dias; roupas novas, nos tempos festivos; a herança, uma única vez na vida, pouco antes de morrer. O pedido deste filho assume, portanto, um imenso dramatismo. Fazendo o pedido que faz, este filho como que mata o pai, ao mesmo tempo que morre como filho! Não quer mesmo mais ser filho nem depender de nenhum pai.

 6. Parte para longe, gasta tudo, torna-se um assalariado desamparado, guarda porcos, vive abaixo de porco (não lhe é sequer permitido comer com os porcos, como os porcos!). É o seu ponto mais baixo. Pensa então em voltar para casa, mas como assalariado, não como filho. É então que a surpresa enche outra vez a cena. Quando nós regressamos a casa, a Deus, nunca encontraremos um Pai distraído, ou que mudou de residência, ou que responde de forma brusca e fria. Está lá sempre à nossa espera, de braços abertos, reabilita-nos como filhos fazendo-nos vestir «o primeiro vestido», o que tínhamos abandonado, o de filhos, faz uma festa, mata o vitelo gordo, prepara um banquete, chama uma orquestra! Alegria excessiva deste Pai pródigo de amor e misericórdia!

 7. É aqui que surge o outro filho, retratado como um bom cumpridor de ordens, um «justo» fariseu, igualzinho aos fariseus »justos» que tinham aparecido no início da história. Tal como estes, também este filho se acha com direitos sobre Deus. Em Deus não vê um Pai, mas um patrão que tem de lhe pagar, pois «nunca transgrediu uma ordem dele». Sempre igualzinho aos fariseus que no início da história citicavam Jesus porque acolhia e comia com os pecadores, também este filho critica o seu pai por acolher e ter tudo preparado para comer com um pecador! O Pai implora-lhe que entre para o banquete da alegria. Mas a história termina sem nos dizer se este filho, que somos também nós, entra ou não entra. Final estratégico. Afinal a história de Jesus foi contada para os fariseus, e nós devemos ter compreendido que devemos tomar lugar ao lado deles, para sermos atingidos em cheio pela história. A história termina sem nos dizer se aquele filho, fariseu, entrou ou não entrou na sala da alegria. Não nos esqueçamos que a história foi contada para nós. É então a nós que cabe tomar a decisão! Como vemos Deus? Como um Pai ou um patrão? E os nossos irmãos são para nos alegrarmos com eles ou para os insultarmos?

 8. É também interessante notar que os dois filhos desta história falam ao Pai, ao seu Pai comum, como fazem os cristãos. Como fazemos nós. Mas em nenhum momento da história se falam um ao outro. Se calhar, também como nós. Só sabemos falar por trás, entre raivas acumuladas e insultos. Parece que também neste aspecto a história de Jesus põe a nossa vida a descoberto!

 9. Por último, a história que ouvimos mostra-nos e adverte-nos que tanto nos podemos perder lá longe, no deserto, como a ovelha e como o primeiro filho, como nos podemos perder em casa, como o segundo filho. Atenção, portanto: podemos andar perdidos em casa, numa casa fria, sem Pai e sem irmãos, sem lareira, sem mesa e sem alegria! Todos os cuidados, portanto!

 António Couto

8 respostas a ESTA PARÁBOLA DA MISERICÓRDIA

  1. Pe Joéds diz:

    Caro, Bispo lusitano, aqui do nosso Brasil faz-se ouvir forte a Palavra do Senhor. Como outrora já fora dito a ressurreição de Jesus é importantissima, mas para descobrir-lhe é preciso deixar-se chamar, como a cada domingo o Senhor nos chama a sua misericordiosa acolhida, que a todos atrai a secúlos sem fim!
    Obrigado e fique com Deus!
    Pe Joéds

  2. E.Coelho diz:

    Olá.

    A ovelha perdida que se sabe perdida procura o caminho de volta, acaba por escutar a voz que a chama.
    A verdadeira «ovelha perdida», aquela que precisa de ser trazida de novo ao rebanho, deve ser procurada-encontrada por cada um de nós e por nós conduzida ao caminho certo.
    Precisamos de deixar de olhar para nós como «a ovelha perdida» e de esperar que o outro nos venha salvar.

    Abraço

  3. Pe. Isidro,mbn diz:

    É muito bom saber que, o Amor de Deus nos renova, faz-nos novas criaturas, reintegra-nos, purifica-nos e dá-nos a possibilidade de construirmos a nossa história de um jeito diferente. Nada melhor que um abraço de Deus Pai. Obrigado dom Couto, pelas suas reflexões.

  4. JOSÉ OLIVEIRA diz:

    Olá,de facto estamos sempre a espera do próximo texto, próxima lição,porque todos temos um pouco de ovelha perdida ou de Fariseu.
    Quando todos, começarmos a por o próximo a frente de nos mesmos ai SIM,todas as PALAVRAS,Caridade, misericórdia,fraternidade, humildade que se resume numa só AMOR.
    Se a encontrarmos seremos Felizes.
    Muito Obrigado Dº António e até sempre.

  5. Manuel diz:

    D. António,

    A clareza da exposição da mensagem da Palavra de Deus neste Domingo, que o capítulo 15 de S. Lucas contém, desperta em nós a alegria de viver, ao tornar-nos conscientes de como o nosso Deus não só cuida de cada um de nós, mas de que Ele mesmo, saindo ao nosso encontro, vem à nossa procura, esperando que abramos o nosso coração ao cultivo da confiança filial n’Ele.

    Muito obrigado, D. António, pela sua magnanimidade para com seus irmãos, no serviço à Mesa da Palavra.
    Seu em Cristo,

    Manuel.

  6. Dulce diz:

    “Feliz o que nos lábios,
    No coração, na mente põe teu nome,
    E só por ele cuida entrar cantando
    No seio do infinito.”
    (Machado de Assis)

    D. António, esta é para mim uma parábola maravilhosa e as palavras que aqui nos deixa são disso absolutamente elucidativas.

    É sempre tão importante virmos a esta Mesa e numa partilha da palavra de Deus sentirmos a Vida acontecer mais de perto, porque sempre há algo que explica e que nos “acorda” num sentido não antes entendido.

    Que consigamos permanecer em muitos dos nossos dias bem atentos, quer comunicando com outros, vivendo uma vida de maior cumplicidade com muitos nossos irmãos, quer, por outro lado e não menos importante, mantermos em nós acesa a luz de encontro com Deus, só através desta consciência deste encontro, acreditando, poderemos não nos “perder em casa”.

    Sentirmo-nos com Deus num acalentado Abraço é afinal vivermos uma grande ternura numa cada vez maior proximidade em nossa casa e na comunidade onde estamos, por onde passamos na vida e onde nos sentimos Ser, precisamente, nessa fé de que nos escreve Machado de Assis.

    Mais um Obrigado D. António pelas palavras que nos implicam numa maior motivação.
    E num abraço amigo permita desejar-Lhe uma semana feliz.

    Dulce

  7. Carolina Rosa diz:

    O Senhor
    na Sua maravilhosa e infinita Omnipotência
    deixou o Seu trono de Glória e majestade e veio sentar-se à nossa mesa
    na mais comum e vulgar substância: o pão…
    pão do trabalho e da partilha
    pão do silêncio e da comunicação
    pão do cântico e da palavra… …
    Sentado à nossa mesa
    o Senhor
    inspira e orienta
    nossos planos e projectos
    esperanças e alegrias
    para que a nossa vida
    seja à Sua imagem.
    D.António,obrigada por me permitir partilhar este pequeno texto, que, surgiu antes de ler a sua reflexão… o Espírito sopra por todo o lado,nos corações. Abraço. Carolina

  8. José Manuel diz:

    Amigo, acabo de descobrir o sítio onde reza com as suas reflexões. Obrigado pela possibilidade que dá de nos sentarmos à MESA DE PALAVRAS.
    Graças a Deus já tive a felicidade de o ouvir algumas vezes (sempre poucas) a “discorrer” sobre a PALAVRA DE DEUS.
    Talvez seja abusivo trata-lo por amigo mas o certo é que um Bispo é muito mais que um mero homem…Se olhassemos o bispo como alguém muito especial e numa missão tão especial que só Deus confere, tudo seria muito diferente.
    Obrigada pelas (quem sou eu para ajuizar) sábias palavras!
    Que Deus o abençoe!

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