TÃO POBRE, TÃO POBRE, TÃO POBRE…, QUE SÓ TINHA DINHEIRO!


 

1. O uso cristão da riqueza preenche quase por completo o Capítulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo «quase», porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a lei (Lucas 16,16-17) e outra, brevíssima, sobre o divórcio (Lucas 16,18). Dividindo o Capítulo em duas grandes partes, ficamos então com duas incisivas parábolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como «O administrador desonesto», será proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como parábola do «Rico avarento e do pobre Lázaro», será proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.

 2. A parábola do Administrador desonesto, que ouviremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os ouvintes que a lêem ou ouvem com simplicidade, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos. E o problema reside nisto: é possível que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?

 3. Os exegetas enveredam muitas vezes, para atenuar o mal-estar sentido, pelos costumes em uso na Palestina, em que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que deixavam no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entrgassem ao senhor o que tinham acordado. Neste sentido, é facilmente compreensível que o administrador ou feitor, de acordo com os negócios feitos, podia também obter licitamente os seus lucros, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta parábola.

 4. Explicação aparentemente fácil, mas que não pode ser levada em conta. Em boa verdade, a parábola não chama a atenção para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade não interessa a Jesus: não a condena, nem recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa atenção para a rapidez e a inteligência com que o administrador procede, sem permitir que o assalte sequer um momento de hesitação.

 5. É verdade que o administrador e o discípulo de Jesus pertencem a duas maneiras  diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece à lógica do mundo; o segundo à do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. Não obstante, o discípulo de Jesus, de acordo com o andamento da parábola, deve aprender do administrador a capacidade de decidir e a habilidade. É isto que está em causa. Face ao Reino de Deus, o discípulo de Jesus deve ser igualmente rápido e hábil em tomar decisões. Não há, de facto, urgência maior. É quanto resulta do ensino de Jesus no caminho.

6. A parábola contada por Jesus permite ainda uma correcta compreensão sobre a função do dinheiro. O dinheiro é para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual nos prostramos, segurança enganadora, falso sucedâneo de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5).

 7. Daí a muito bíblica e oriental advertência de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores», donde: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lucas 16,13).

 8. De notar que o Livro de Ben-Sirá já advertia com sabedoria: «Muitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas». E ainda: «Como se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra» (Ben-Sirá 27,1-3).

 9. O livro de Amós, que hoje ouvimos também, caustica asperamente a exploração dos pobres, a corrupção e o lucro fácil. O mundo de Amós é de oito séculos antes de Cristo. Mas parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda actualidade.

 10. Mas nunca nos esqueçamos que não pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da história daquele fulano que era tão pobre, tão pobre, tão pobre…, que só tinha dinheiro!

António Couto

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6 Responses to TÃO POBRE, TÃO POBRE, TÃO POBRE…, QUE SÓ TINHA DINHEIRO!

  1. José Manuel diz:

    Mesmo sem ilustrações, obrigado pela palavra. Bem haja e Deus o abençoe e ajude sempre! É fabolosa a frase “tão pobre, tão pobre, tão pobre…que só tinha dinheiro”.
    Obg D. António Couto

  2. Quem tem seu coração ligado ao dinheiro ,será sempre pobre de Deus,pois nunca terá tempo para servi-lo na guarda dos seus mandamentos. .
    Quem tem seu coração ligado sómente a D´US,sempre estará a disposição de DEUS para o cumprimento dos seus deveres como servo obediente,e DEUS sempre o suprirá em suas necessidades.

  3. JOSÉ OLIVEIRA diz:

    Olá,numa só frase”quanto mais Dou mais tenho.”
    Temos que por em pratica esta frase e alcançaremos misericórdia. Obrigado Dº António por mais uma vez por a sua sabedoria em prol dos outros.Até sempre.

  4. glória diz:

    O escritor Mia Couto escreveu um “suspiro” que diz assim “pobres dos nossos ricos”! Quanto ao ter só é mau se com ele não formos capazes de fazer nada de bom.Ter não é, à partida, nem bem nem mal e o bem ou o mal não está em ter muito ou ter pouco, está sim no muito ou no pouco que fazemos com o muito ou pouco que temos…D. António Couto, passo por aqui todas as semanas. Obrigada

  5. João Manuel diz:

    Dá-nos Senhor a Luz e a Força nas asas do Teu Espírito para que, como brisa suave, sejamos o discípulo hábil e rápido na decisão de servirmos, na pobreza, a riqueza que é o Dom que de Ti nos fazes. Nele, sejamos para o mundo, o desafio do Teu Reino. Aumenta-nos a Fé, fortalece-nos na Esperança. Assim, caminhemos esperançados porque, como responde Jeremias — e o nosso D. António o assume – “vejo um ramo de amendoeira!”
    Obrigado D. António. Felicidades nos parabéns deste dia!

  6. Iris Noronha diz:

    Como foi dito: Nós não temos nada,tudo pertense a Deus,pois tudo que temos é ele que nos entrega para administrar para ele, e se nos não soubermos administrar,ele nos tiras das nossas mãos.

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