METÁFORAS NO CAMPO E NA CIDADE


 

1. Falo do umbral do outono, de uma praça carregada de metáforas. Moro aqui debaixo deste céu. Claro que durmo ao relento. Sou pobre e puro. Pedinte apenas à porta do espírito. Como os plátanos no púlpito das praças, abrigo os pássaros. Atiram-me pedras os meninos. O meu lugar é aqui, de bruços nas palavras, pedra a pedra construindo o pátio do poema.

 2. Oiço bater à porta. Serás tu ainda? Que fruto trazes nas tuas mãos despidas? Um balde? O mar? O mar num balde? As rochas a estalar? O lume a arder em febre? Uma estrela cadente envolta em neblina?

 3. Trazes a história de uma semente pequenina, microscópica. Dizes, para espanto meu, que, lançada à terra, dela nascerá uma árvore grande, em cujos ramos vêm abrigar-se os pássaros do céu, fazendo dela uma lareira carregada de alegria. E dizes, outra vez para espanto meu, que a FÉ tem o tamanho e o virtuosismo dessa semente pequenina, que semeada no meu coração e no coração do mundo pode desenraizar o que nos parece seguro, sólido, assegurado, fazer ruir os nossos cálculos  mais estudados, fazer florir o alcatrão das nossas estradas, fazer sorrir a nossa história desgraçada, arrancar embondeiros, plantar no mar aquilo que parece só poder viver na terra.

 4. Acrescentas logo, sempre para espanto meu, que uma vida de serviço e da máxima simplicidade é a melhor. E que é também a melhor pregação. Servir por amor. Sem tempo nem contrato. Sem cláusulas. Doação total. Dar a vida como tu, Senhor e Servo.

 5. Para me dizeres tanto, foste buscar metáforas ao campo: a semente, as árvores e o servo (Lucas 17,5-10).  E do campo, levas-me a visitar o jardim de Habacuc. Poucos saberão, mas Habacuc é o nome de uma planta de jardim. Está de passagem. De manhã viceja, à tarde seca. É preciso ir depressa. Até porque Habacuc ainda tem de ir à cidade e escrever num grande painel publicitário que «o não-recto perecerá, mas o justo viverá pela FÉ» (2,4).

 6. A FÉ é a tal sementinha que pode virar do avesso a nossa vida, a nossa casa, a nossa rua, a nossa cidade, a nossa história.

 7. Corre e demora-te a ver esse painel, metáfora erguida na cidade, e aprende a FÉ, isto é, a FIDELIDADE. S. Paulo demorou-se longamente a contemplar esse painel, de tal maneira que gravou os seus dizeres na alma e em Romanos 1,17 e Gálatas 3,11.

 António Couto

7 Responses to METÁFORAS NO CAMPO E NA CIDADE

  1. E.Coelho diz:

    … e estava tão embalada por esta onda de poesia que era capaz de ficar aqui a ler pelo tempo fora, deliciada.
    Abraço,
    E.Coelho

  2. Manuel diz:

    Obrigado, Senhor, por este poema com que o nosso D. António sabe expor a beleza da tua Palavra para este 1º Domingo de Outubro!

  3. Dulce diz:

    “A FÉ é a tal sementinha que pode virar do avesso a nossa vida, a nossa casa, a nossa rua, a nossa cidade, a nossa história”

    Quanta verdade nestas Suas belíssimas palavras,
    D. António.

    A Fé numa sementinha é já uma certeza:

    A de não conseguirmos ficar indiferentes à Vida que nos acontece e que é ponto de encontro com outros irmãos.

    E a Vida acontecerá sempre, inquestionavelmente, em todo o Lugar onde a palavra de Deus for uma palavra amiga, um gesto de solidariedade,
    onde a palavra de Deus for um simples abraçar de esperança…,
    onde houver Alegria.

    Permita-me partilhar e tão a propósito as palavras que o nosso Pároco escreveu aquando da visita da imagem Peregrina do Cristo Sacerdote à nossa Comunidade…

    “Foram momentos de Deus e com Deus saber o empenho e dedicação com que a nossa comunidade preparou a Sua visita! São momentos de Deus e com Deus os cânticos entoados, as salvas de palmas, os sorrisos, os abraços, a mão que acena, as lágrimas derramadas, as visitas individuais, as preces escondidas, os corações que lá no fundo agradecem ao Cristo Bom Pastor a Sua presença entre nós!”
    (Padre Nuno Westwood, em “Zimbórios”, Março de 2010)

    Muito Obrigado D. António,
    por sentirmos a Fé ser em nós uma tão expressiva sementinha também pelas palavras,
    pelas Suas palavras que aqui sempre encontramos.
    Porque também são sempre momentos de Deus e com Deus.

    Dulce

  4. Paula Fernandes diz:

    É muito BELA, esta lição de Outuno, que agradeço.

    Qual o tamanho de um grão de mostarda?
    Que tamanho terá de ter o painel publicitário, para que se me fique gravado nos olhos?

    Até onde me será dado ir?
    Até onde me será dado caminhar, em fidelidade?

    Até onde quiseres …, Senhor.

  5. manuel baptista diz:

    Feliz de quem sabe e é capaz de lançar-se no infinito… Entendo a Fé como a luz que, lá longe, no túnel escuro da vida, nos continua a desafiar e motivar para não desistirmos. Mas e quando o túnel se enche de obtáculos e nós precisávamos que essa luz fosse mais forte para nos ajudar a ultrapassá-los e ela se transforma numa ténue penumbra e por vezes se esvai completamente?
    Onde estás Luz? Procuro-te e não te encontro… Não sei procurar ou escondeste-te de vez?… Vem… preciso de Ti.

    • mesadepalavras diz:

      Procure sempre, amigo. Mas, sobretudo, deixe-se encontrar, pois verdadeiramente é Ele que vem dar-nos a mão e segurar-nos. A fé não é uma luz distante. É uma Pessoa que se debruça sobre nós e nos segura, e a quem nós confiamos. Não acreditamos que… Acreditamos em…, firmamo-nos em… Que Deus o abençoe, amigo.

  6. manuel baptista diz:

    Obrigado por ter tido tempo…
    Talvez a minha dificuldade esteja aí: não querer (ou não conseguir) saber que Ele está, aqui ao lado, caminhando comigo. Resumo a Fé a uma comunhão de ideias e não de vida. Vivo a angústia de querer pôr em prática as ideias e não conseguir; quanto mais vezes digo que é desta, mais me estendo ao comprido… e depois volta a tristeza, o desânimo, uma certa angústia.
    Eu falo com Ele, digo-lhe dos meus problemas, tristezas e aspirações. Mas depois ponho-me a pensar: o que digo não será simples projecção num alter ego, desabafos de uma mente perturbada? Sei muita teologia mas… não sei se já encontrei a Pessoa.
    Obrigado e… desculpe o tempo e o espaço.

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