DEIXA VIR O TEU CORAÇÃO À SUPERFÍCIE

Outubro 23, 2010

 

1. Domingo XXX do Tempo Comum. Aí está mais uma parábola de Jesus direitinha ao nosso orgulhoso coração (Lucas 18,9-14). Um fariseu cheio de si, afogado em si. Já a água lhe dá pelo pescoço, mas nem assim «põe o coração» na situação limite em que se encontra. Para espanto nosso, não pede auxílio, não estende a mão; antes, procede a um estranho ritual de autoincensação e debita facturas e palavras que não atravessam as nuvens. Mais parecem pedradas no charco em que alegre e orgulhosamente se afunda, agora já com a água a entrar-lhe pela boca adentro. Em breve as velas do coração ficarão encharcadas, e a embarcação afundar-se-á. À superfície, a boiar, antes de se afundarem também, um monte de facturas e de palavras inchadas. É assim que vive e reza o fariseu que há em nós.

 2. Ao fundo, sempre ao fundo, vislumbra-se um verdadeiro e assumido pecador. Coisa tão rara e, por isso, tão cara. Sim, é um traidor, um vendido, um ladrão. Mas tem ainda coração. Por isso, bate com a mão no peito, e pede a Deus a esmola do perdão. É assim que pôe a andar a sua pobre embarcação. É assim que reza o publicano que há em nós. É a verdadeira respiração ou oração do nosso coração. Parafraseando Jesus, «pela sua oração os conhecereis».

3. O precioso Livro de Ben-Sirá, que uma vez mais temos a graça de folhear, ler e escutar, mostra-nos como Deus está atento ao indigente, à viúva, ao órfão, ao deserdado, ao humilde, e diz-nos que a sua oração atravessa as nuvens (Ben-Sirá 35,15-22). Belíssima expressão que se cruza com a palavra fecunda de Deus que, como a chuva, atravessa as nuvens para baixo e para cima, enchendo de alegria a nossa terra abençoada (Isaías 55,10-11).

4. Diz ainda o sábio que a viúva, o pobre, o órfão, o humilde não dão descanso ao seu coração em oração enquanto Deus não olhar para eles com olhos de bondade. É exactamente o modo como reza o publicano: Ó Deus, olha para mim com a bondade do perdão, com aquele olhar maternal da bênção sacerdotal (Números 6,25-26).

5. E aí está hoje também o 84.º Dia Missionário Mundial. Para nos lembrarmos que somos muitos irmãos. E que este mundo poderá ser muito mais belo se todos dermos as mãos, tecendo uma grande rede de comunhão, como resposta à Mensagem do Papa Bento XVI para este Dia, que tem por título: «A construção da comunhão eclesial é a chave da missão». E para isso ser verdade, o Papa pede «uma profunda conversão pessoal, comunitária e pastoral».

6. Mãos à obra, à comunhão, à oração, ao coração. Pois é verdade que «se um rio de água abrisse a aridez desta planície,/ decerto que este mundo mudaria,/ e uma imensa hemorragia traria o teu coração à superfície».

António Couto

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