DEIXA VIR O TEU CORAÇÃO À SUPERFÍCIE


 

1. Domingo XXX do Tempo Comum. Aí está mais uma parábola de Jesus direitinha ao nosso orgulhoso coração (Lucas 18,9-14). Um fariseu cheio de si, afogado em si. Já a água lhe dá pelo pescoço, mas nem assim «põe o coração» na situação limite em que se encontra. Para espanto nosso, não pede auxílio, não estende a mão; antes, procede a um estranho ritual de autoincensação e debita facturas e palavras que não atravessam as nuvens. Mais parecem pedradas no charco em que alegre e orgulhosamente se afunda, agora já com a água a entrar-lhe pela boca adentro. Em breve as velas do coração ficarão encharcadas, e a embarcação afundar-se-á. À superfície, a boiar, antes de se afundarem também, um monte de facturas e de palavras inchadas. É assim que vive e reza o fariseu que há em nós.

 2. Ao fundo, sempre ao fundo, vislumbra-se um verdadeiro e assumido pecador. Coisa tão rara e, por isso, tão cara. Sim, é um traidor, um vendido, um ladrão. Mas tem ainda coração. Por isso, bate com a mão no peito, e pede a Deus a esmola do perdão. É assim que pôe a andar a sua pobre embarcação. É assim que reza o publicano que há em nós. É a verdadeira respiração ou oração do nosso coração. Parafraseando Jesus, «pela sua oração os conhecereis».

3. O precioso Livro de Ben-Sirá, que uma vez mais temos a graça de folhear, ler e escutar, mostra-nos como Deus está atento ao indigente, à viúva, ao órfão, ao deserdado, ao humilde, e diz-nos que a sua oração atravessa as nuvens (Ben-Sirá 35,15-22). Belíssima expressão que se cruza com a palavra fecunda de Deus que, como a chuva, atravessa as nuvens para baixo e para cima, enchendo de alegria a nossa terra abençoada (Isaías 55,10-11).

4. Diz ainda o sábio que a viúva, o pobre, o órfão, o humilde não dão descanso ao seu coração em oração enquanto Deus não olhar para eles com olhos de bondade. É exactamente o modo como reza o publicano: Ó Deus, olha para mim com a bondade do perdão, com aquele olhar maternal da bênção sacerdotal (Números 6,25-26).

5. E aí está hoje também o 84.º Dia Missionário Mundial. Para nos lembrarmos que somos muitos irmãos. E que este mundo poderá ser muito mais belo se todos dermos as mãos, tecendo uma grande rede de comunhão, como resposta à Mensagem do Papa Bento XVI para este Dia, que tem por título: «A construção da comunhão eclesial é a chave da missão». E para isso ser verdade, o Papa pede «uma profunda conversão pessoal, comunitária e pastoral».

6. Mãos à obra, à comunhão, à oração, ao coração. Pois é verdade que «se um rio de água abrisse a aridez desta planície,/ decerto que este mundo mudaria,/ e uma imensa hemorragia traria o teu coração à superfície».

António Couto

Uma resposta a DEIXA VIR O TEU CORAÇÃO À SUPERFÍCIE

  1. Dulce diz:

    “Deixa vir o teu coração à superficíe”

    Porque só assim conseguiremos transformar um dia cinzento..um dia de chuva num novo dia…
    de muito Sol.
    Num novo dia de uma maior alegria…!

    D. António, olá.

    Mais uma página absolutamente cativante de tão interpelativa, de tão certa nas palavras que nos trazem sempre a possibilidade de abrirmos mais ainda o nosso coração à oração com Deus.

    E que bom que isso é e quanto representa na vida dos que acreditam na beleza de um mundo onde muitos mais possam dar as suas mãos num renovado olhar hoje de esperança.

    Para Si D. António um abraço amigo,
    de esperança.

    Dulce

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