É POR AQUI A ETERNIDADE

Novembro 2, 2010

 

Aqueles que passam por nós
não vão sós,
não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
levam um pouco de nós.
(Antoine de Saint-Exupéry)
 
Brotou água onde tudo era secura.
Paz onde morava a solidão.
E a certeza de que a sepultura
é uma cova onde não cabe o coração.
(Eugénio de Andrade)

 1. O louvor é para sempre, mas interrompe-se, pois o homem que canta os Salmos e se canta e decanta nos Salmos é o que menos se parece com a eternidade. Porque morre. E mesmo quando se salva da morte, é sempre antes de morrer que tal sucede. Se não fosse assim, como poderia dizer o seu louvor? Cristo, porém, levou até à morte as palavras dos Salmos que tinham sido ditas deste lado da morte. E ao ressuscitar, como primogénito de entre os mortos, devolveu-nos essas palavras que nos tinha pedido emprestadas, carregadas «agora» do louvor verdadeiro e eterno. Só uma novidade que nunca será substituída por outra novidade introduz no mundo um «agora» permanente.

2. Ao vinco da página, que representa a súplica no louvor, podemos agora acrescentar o sulco da morte. E devemos saber que, quando nos fixamos no passado, esquecendo a novidade da salvação, aí não está Deus. Mas se se tratar de uma salvação que apague o vinco da súplica ou o sulco da angústia e da morte, também aí não está Deus e tão-pouco há salvação. Não há salvação mais além da nossa morte se ela não arrebatar também o mais aquém da nossa morte.

António Couto

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