SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, RAINHA DA PAZ

Dezembro 31, 2010

 

1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2011, tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

 2. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

 3. É assim que a encontramos no Leccionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos dizer pobre, com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus mandou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Nesta linha breve e densa aparece compendiado o mistério da Incarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada, nossa mãe na fé e na esperança. Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza.

4. O Evangelho deste Dia de Maria guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria GUARDAVA (synetêrei) todas estas Palavras que aconteceram (tà rhêmata), COMPONDO-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, GUARDAVA todas estas Palavras que aconteceram, COMPONDO-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a GUARDAR todas estas Palavras que acontecem, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo GUARDAR implica atenção premurosa, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este GUARDAR atencioso e carinhoso não é um acto de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a COMPOR, isto é, a «pôr em conjunto», a organizar, para melhor entender. É como quem com aquelas Palavras COMPÕE um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida toda a trautear essa Melodia e a conjugar novos acordes de Alegria.

 5. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 44.º Dia Mundial da Paz que se celebra, e o Papa Bento XVI apôs-lhe o tema «Liberdade religiosa, caminho para a Paz». Na sua Mensagem para este Dia, Bento XVI põe diante dos nossos olhos os cenários de perseguição violenta movida às comunidades cristãs do Médio Oriente, sobretudo no Iraque, de que salienta o vil ataque perpetrado em 31 de Outubro contra a Catedral siro-católica de «Nossa Senhora do Perpétuo Socorro» em Bagdad, que resultou na morte de dois sacerdotes e de mais de cinquenta fiéis. Dito isto, Bento XVI lembra também outras formas mais silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição contra os cristãos, os seus símbolos religiosos, os seus princípios morais e ideário sócio-cultural, como vamos verificando cada vez mais neste nosso espaço português e europeu. Tudo isto atenta, diz o Papa, contra a dignidade da pessoa humana, e cria obstáculos ao estabelecimento de uma verdadeira cultura de Paz, de Fraternidade e de Felicidade entre os Homens. E atenta sobretudo contra a Grandeza, a Beleza, o Mistério e o Sentido da Vida Humana, que há quem queira ver reduzida apenas a três dimensões, a saber, comprimento, largura e altura, que são as medidas do cadáver e do cemitério! Bento XVI lembra também que passam neste ano de 2011 vinte e cinco anos sobre o “Dia Mundial de Oração pela Paz” realizado em Assis em 27 de Outubro de 1986, e em que estiveram presentes os principais Chefes das Religiões Mundiais, respondendo a uma iniciativa profética do Papa João Paulo II.

 6. De Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Nm 6,24-26).

 7. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, nos abençoe também. Ámen!

 António Couto


SONHA TAMBÉM

Dezembro 22, 2010

 

Há dois mil anos Deus sonhou
E foi
Natal em Belém.
Sonha também.
Se o jumento corou
E o boi se ajoelhou,
Não deixes tu de orar também.

 1. A notícia ecoou nos campos de Belém. Com o celeste recital que ali se deu, o céu ficou ao léu, a terra emudeceu de espanto, e os pastores dançaram tanto, tanto, que até os mansos animais entraram nesse canto.

 2. Isaías 1,3 antecipou a cena, e gravou com o fulgor da sua pena o manso boi e o pacífico jumento comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume, e bafejando depois suavemente o Menino de perfume. Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono, o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

 3. Nos campos lavrados passeiam cotovias, ondulam os trigais, e vê-se Rute a respigar o trigo ao lado dos pardais. Que estação é esta que reúne as estações e os anais? Abre-se ali num instante um caminho novo. Vê-se que passam Maria e José e o Menino, que salta logo do colo e suja as mãos na terra, tira da sacola estrelas todas de oiro, e semeia-as na terra com carinho.

 4. Anda à sua volta um bando de boieiras, leves e ledas companheiras, correndo no mesmo chão de oiro semeado. E nós continuamos a passar ali ao lado daquela sementeira toda de oiro, que o Menino pobre acaricia, e logo se transforma em trigo loiro. Ninguém pára, ninguém acredita que o Menino pode ser dono de um tal tesoiro.

 António Couto


EM BICOS DE PÉS, EM SONHOS, EM SILÊNCIO

Dezembro 19, 2010

 

1. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32)-  nunca aparece em Marcos; encontra-se uma só vez em Lucas (1,75) – e traduz o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade a esse plano. Neste Evangelho, os discípulos nunca são declarados «justos», mas são chamados à «justiça», a andar no «caminho da justiça», auto-destituindo-se, pondo de lado os seus projectos, e sabendo sempre dizer SIM a Deus.

 2. Aí está, então, diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade, em Hi-Fi, com Deus. É assim que, em bicos de pés, no limiar do silêncio, passa discretamente da cena «pública» para o «segredo» (Mateus 1,19). Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, em um sonho (Mateus 1,20), que põe José a par dos seus planos que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José.

3. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!) lembra o outro José, o homem dos sonhos (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas?!). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egipto. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime.

4. A missão paternal de José fica clara no facto de ser José a dar o nome ao filho que vai nascer de Maria. O nome do menino será Jesus, que surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (Mateus 1,21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem fim, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

5. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária.

6. Emanuel, Deus connosco. Mateus faz aqui uma citação de Isaías 7,14, que, por graça, também hoje é objecto de leitura para nós. Mas Mateus faz uma alteração teológica fundamental. Isaías dizia: «E chamará o nome dele Emanuel». Mateus altera o verbo e escreve assim: «E chamarão o nome dele Emanuel». Com esta mudança do verbo do singular para o plural, Mateus faz de Jesus, não apenas o sinal de salvação dado a um povo, mas sinal de salvação para todos os povos!

7. Vem, Senhor Jesus. Só um amor como o teu transformará este mundo e salvará o nosso coração engessado! O «justo» José pode ensinar-nos como te ensinou a andar, menino, a dar os primeiros passos, e também como tu, menino, lhe ensinaste a ele a andar no «caminho da justiça».

António Couto


SERVO BOM E FIEL, ENTRA NA ALEGRIA DO TEU SENHOR

Dezembro 13, 2010

 

(Homilia na missa exequial de D. José dos Santos Garcia)

1. Já não sei, amigo, quando te conheci pela primeira vez. Mas sempre te conheci velhinho e sábio. Como um menino. Velhinho não rima com ciúme ou azedume, mas com carinho. Sempre te conheci assim: próximo, afectuoso, sempre a inventar maneiras de ajudar. Sábio foste, certamente temperado pelo amor da sabedoria, mas mais, muito mais, pela sabedoria do amor. Velhinho e sábio como um menino, porque me parece que seguiste exactamente a trajectória do Evangelho: «Se não vos tornardes como as crianças, não entrareis no Reino dos Céus». É assim que te vejo, amigo, velhinho como um menino, que ri, brinca, teima e sonha. Parece-me, por isso, que te sentirás em casa no Reino de Deus, onde seguramente estarás a contar histórias, a recitar terços sem conta, a repassar as bem-aventuranças uma a uma e as muito mais do que catorze obras de misericórdia. Fica-me apenas uma dúvida: contigo aí no céu do bom Deus a entreter os anjos, pode acontecer que fiquemos nós aqui na terra mais desprotegidos.

 2. «FELIZ o homem (…) que a instrução do Senhor recita dia e noite, com prazer» (Salmo 1,1-2). FELIZES, FELIZES, FELIZES, felicitação nove vezes repetida (Mateus 5,3-10), como se uma vez não bastasse para dizer quanto Deus ama os pobres e os que têm um coração cheio de bondade e mansidão! FELIZES os pobres de espírito, não de Espírito Santo ou de inteligência, mas os que não têm espaço nem alento próprio, e tudo têm de receber sempre de ti, bom Deus e Pai. FELIZES os que vivem ao ritmo do teu alento, do teu vento criador e embalador. FELIZES, FELIZES, FELIZES – ’ashrê, ’ashrê, ’ashrê – na língua hebraica. Mas ’ashrê significa ainda, e talvez sobretudo, pioneiros, abridores de caminhos novos e belos e floridos, como aqueles que tu, bom Deus, abriste e continuas a abrir na aridez dos nossos desertos!

 3. D. José, velhinho José, menino José, tu foste um pioneiro, um abridor de caminhos no mundo da missão. Apareceste por graça neste mundo em 16 de Abril de 1913, por graça entraste no então Colégio das Missões de Tomar em 14 de Outubro de 1925, por graça recebeste a ordenação sacerdotal em 25 de Julho de 1938, por graça embarcaste em 13 de Novembro de 1945 no porto de Leixões rumo às Missões de Moçambique. Por graça fizeste, ou alguém fez por ti, florir a bela e querida Missão de Mutuáli, um brinde, um oásis no deserto. Por graça recebeste a ordenação Episcopal em 16 de Junho de 1957, e por graça foste o primeiro Bispo da recém-criada Diocese de Porto Amélia, actual Pemba. Foste pioneiro. Como missionário, foste pioneiro. Semeaste e regaste o chão africano, ergueste um Seminário (o primeiro de Moçambique), fundaste a primeira Congregação Religiosa de Moçambique (as Filhas do Coração Imaculado de Maria), levantaste internatos, centros de saúde e escolas de formação onde se prepararam muitos e bons catequistas. Semeaste, alimentaste e regaste o chão e a alma do bom povo moçambicano que o bom Deus te confiou. Foste um pioneiro, amigo e irmão, pobre e santo. Por paradoxal que pareça, sempre foram os Santos e os Pobres que abriram caminhos novos neste mundo desertificado, enlatado, dormente e anestesiado em que vivemos.

 4. Nas circunstâncias difíceis da guerra e da violência, não ficaste deitado à beira da estrada, como os «cães mudos» sonolentos e embriagados de Isaías 56,10. Não o podias fazer, tu, sensibilíssimo amigo e pastor atento, quando os teus filhos sofriam e morriam. Intervieste, surpreendeste, teimaste, exigiste. A tanto te obrigava o teu coração de Pai e de menino irreverente, mas sempre sorridente.

 5. Não tenho dúvidas de que o bom Deus estava contigo e te amparava. Gostava de ti, estava contigo. Quando tu não querias participar nas sessões do Concílio II do Vaticano, forçou-te a ir, para te salvar de outra maneira. Adoeceste gravemente, e passaste grande parte do Concílio no hospital. O bom Deus ainda te queria no meio de nós por muito tempo. O teu sorriso puro, a tua ternura e premura eram ainda necessários para continuares a dizer e mostrar Deus na tua terra natal, Aldeia do Souto, na Diocese da Guarda, na Sociedade Missionária que sempre amaste dedicadamente. Por todos estes lugares onde passaste após a tua resignação como Bispo de Porto Amélia em 31 de Janeiro de 1975, continuaste a fazer desabrochar flores de paz em muitos corações.

 6. Saúdo-te, fiel engenheiro de Deus, D. José, velhinho José, menino José, intrépido missionário a tempo inteiro. Como pertences totalmente ao Senhor (Romanos 14,8), o Senhor é também a tua herança. És pobre e FELIZ, ó pioneiro, abridor de caminhos novos. Rezamos por ti, amigo. Intercede tu também por nós junto do bom Deus e de Maria, que tanto amaste. Mas não a ocupes com muitos terços, nem retenhas contigo os anjos todos. Tu sabes bem que também nós aqui precisamos tanto de um olhar de mãe e de alguns anjos que nos assistam nos difíceis caminhos deste tempo. Deus te guarde, D. José, velhinho José, menino José.

 Cucujães, 13 de Dezembro de 2010, memória de Santa Luzia

 + António Couto


ENGENHARIA DIVINA

Dezembro 12, 2010

 

1. «Tendo João ouvido na prisão as obras de Cristo, enviou os seus discípulos, e disse-lhe: “És TU Aquele-que-vem, ou esperamos outro?” E respondendo, Jesus disse-lhes: “INDO (poreuthéntes), ANUNCIAI (apaggélô) a João o que ouvis e vedes: Os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem e os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”» (Mateus 11,2-5).

 2. João Baptista não tem dúvidas de que Jesus é o Cristo, o Messias esperado. Se não tem dúvidas, então por que pergunta? Pergunta ou manda perguntar para dar a Jesus a oportunidade de se auto-apresentar. É que João Baptista é o velho: «Todos os profetas e a Lei profetizaram até João» (Mateus 11,13). E Lucas acrescenta: «Daí para a frente é evangelizar o Reino de Deus» (Lucas 16,16). João Baptista chegou ao limiar do Novo Testamento, e indicou em Jesus o Messias. Indica-o, mas não o sabe dizer, como o velho não sabe dizer o novo. O novo é Jesus, o Cristo. E porque não o sabe dizer, pede a Jesus que seja ele a dizer-se. A pergunta de João é um sinal de sabedoria.

3. E a resposta de Jesus, acima transcrita, é clara, mas mais performativa do que informativa. De acordo com este belo e transformante dizer de Jesus, é o caudal da evangelização que chega até João. Que o mesmo é dizer: João é evangelizado! Ele é o primeiro «pobre», perseguido pelos poderosos, e, por esse motivo, metido na prisão de Maqueronte. João denunciou abertamente os erros de Herodes Antipas, e este meteu-o na prisão. João não era um «cão mudo» (Isaías 56,10), embriagado à beira da estrada. No escuro das paredes da prisão de Maqueronte, João recebe a «boa notícia» que abre os seus olhos. Permanecendo embora no escuro cárcere, João Baptista recebe a vista de Jesus através da boa notícia que os seus discípulos lhe transmitem: ele é o primeiro «cego» que recebe a vista, o primeiro «pobre» que é evangelizado!

4. Em contraponto com o Messias anunciado por João Baptista, que vem para julgar já e em força em Jerusalém, empunhando o machado (ver Mateus 3,10) e a pá de joeirar (Mateus 3,12), Jesus instala-se na Galileia, como Luz das Nações (Mateus 4,12-16, cumprindo Isaías 8,23-9,1); é lá que recebe os discípulos de João e de lá os envia de volta para João, como testemunhas de um mundo novo, frágil e feliz, inclusivo e não exclusivo (veja-se a predilecção de Jesus pelos pobres, doentes e pagãos), que está a nascer, e em que Jesus se diz a si mesmo recorrendo a Isaías 29,18-19; 35,5-6 e 61,1.

5. «Orvalho de luz» (Isaías 26,19) ou de lume, palha incendiada, vida nova a rebentar dos quatro cantos do nosso mundo inerte, em que os vivos quase já não chegam para sepultar os mortos (Sabedoria 18,12). Vozes de alegria que abrem olhos engessados, rompem ouvidos rombos entupidos por mato e por silvas, levantam paralíticos que saltam como filhotes de gazela, desatam línguas de mudos e nós cegos que asfixiam corações! Tantos caminhos que se abrem para os deserdados que não têm caminhos, nem luz, nem música de dança para ouvir. Mais do que caminhos, são passadeiras floridas, jardins e avenidas (Sabedoria 19,3), tanto sonho, tanta água, tanta luz a irromper pelo deserto, oh Isaías 35,1-6!

6. A avenida é no deserto, engenharia divina, que transporta os seus filhos queridos da escuridão da Babilónia para a luz em flor de Jerusalém. «Ele mesmo, Deus, andará por essa estrada» (Isaías 35,8), esse caminho, essa avenida. Estrada santa, passadeira de luz e de sentido, engenharia divina!

7. Arrisca um passo nessa estrada divina, nessa estrada de luz e de graça, meu irmão do Advento. Encontrarás com certeza alguém que te levará até Belém. É importante que essa estrada de Amor, Perdão, Bondade, Justiça e Paz chegue à tua porta, à tua casa, ao teu coração. Do coração de Deus ao teu coração. Do teu coração ao coração do teu irmão.

8. Vê-se bem que não é obra nossa. É engenharia de Deus a inundar este Domingo da Alegria!

António Couto


CHAÎRE MARIA!

Dezembro 8, 2010

 

1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobrebendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos nós e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!». É o «fiat», o «faça-se» dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar também no nosso coração e a brotar dos nossos lábios. É o eco daquele «faça-se» de Deus na primeira página da Escritura Santa a ecoar no coração de Maria e no nosso também. É aquele «Sim» imenso que atravessa as primeiras 452 palavras da Escritura Santa (Génesis 1,1-2,4a), onde não se lê um único «Não». «Tudo, na verdade, foi feito pelo Verbo» (João 1,3), e o Verbo incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Apóstolo, «foi sempre Sim, e nunca não» (2 Coríntios 1,19).

 2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no singular privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de Dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo do chamado Sûbbarâ ou «Anunciação», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo, um cântico novo.

4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta. «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados. A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correcto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus», porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer aquele fruto! És Tu, portanto e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão.

5. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: não o homem fechado sobre si, auto-suficiente, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.

6. Em perfeita sintonia, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4), isto é, para andarmos sempre na presença do Deus Santo. Ele é o Santo, Santo, Santo, que nos santifica.

7. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria. Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver está, porém, solidamente documentado por parte de homens e mulheres. Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

8. Por isso, «Alegra-te, Maria», «não tenhas medo», «o Senhor está contigo». Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo». E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, também estamos permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

9. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

10. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há-de por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

António Couto


UM MUNDO NOVO GOVERNADO POR UM MENINO

Dezembro 4, 2010

 

1. O texto do Evangelho deste Domingo II do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta algumas notas salientes: 1) É notória a sintonia de João com Jesus, dado que ambos abrem o seu ministério, dizendo as mesmas palavras: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (3,2; cf. 4,17);  2) ambos colocam o seu ministério com referência a Isaías (3,3 // Isaías 40,3; 4,14-15 // Isaías 8,23-9,1); 3) ambos abrem no deserto a sua missão, evocando o Êxodo do Egipto, o novo Êxodo da Babilónia (Ezequiel 20,33-38) e o Êxodo do noivado de Deus com Israel (Oseias 2,16-23), mas também a febre messiânica que situava no deserto o princípio da renovação escatológica; 4) a indumentária de João Baptista (3,4) evoca a de Elias (2 Reis 1,8), com o qual é, de resto, identificado por Jesus (Mateus 11,14; 17,12-13).

 2. Se é evocada a continuidade do ministério de João e do de Jesus, não deixa também de ser bem acentuado o confronto entre os dois: 1) vê-se bem que João Baptista anuncia um Messias juiz, que traz na mão o machado e a pá de joeirar (3,10-12), enquanto que Jesus assumirá a figura de Servo do Senhor manso e humilde (12,17-21); 2) o apelo à conversão que João faz não é dirigido aos pagãos, mas aos israelitas piedosos (3,7-10): portanto, face ao Messias juiz que vem aí, também os justos se devem converter; não é a raça de Abraão que conta, mas a fé; 3) a conversão manifesta-se em fazer fruto, uma ideia recorrente em Mateus (cf. 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41 e 43; 25,40 e 45…); 4) a conversão, aqui expressa pelo verbo metanoéô, não deve ser vista apenas pelo seu significado etimológico: mudar de mentalidade; seria uma maneira de ver muito intimista, mostraria o homem debruçado sobre si mesmo, sobre os seus pecados; ora, a raiz hebraica shûb, sobretudo depois de Jeremias (Isaías 31,6; 45,22; 55,7; Jeremias 3,7.10.14.22; 4,1; 8,5; 18,11; 24,7; 25,5; 26,3; 35,15; 36,7; 44,5; Lamentações 3,40; Ezequiel 13,22; 14,6; 18,23 e 30; 33,9 e 11; Oseias 11,5; 12,6; 14,1-2; Joel 2,12-13; Zacarias 1,3-4; Malaquias 3,7), não implica o dobrar-se do homem sobre si mesmo, mas o orientar-se para ALGUÉM, para Deus, com quem o ser humano cortou relações, distanciando-se e quebrando a aliança. Esta ideia de conversão como caminho de regresso a Deus estava muito disseminada no judaísmo primitivo, mas era desconhecida na religião grega; 5) à vista de Jesus que vem no meio da multidão, como verdadeiro Servo do Senhor (3,13-14), que assume as faltas da multidão, João fica confuso; na verdade, esperava um Juiz, e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este baptismo de penitência); 6) além disso, e contra todas as expectativas de João, Jesus não vem para baptizar, mas para ser baptizado (3,11.13-14); 7) o diálogo travado entre João Baptista e Jesus (3,14-15) é exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve).

3. Faz-se notório o sonho de um Deus que desce ao nosso meio, não para nos condenar ou derrubar, mas para se tornar solidário connosco.

4. Isaías acentua este sonho ao escrever estes versos imensos: «Então o lobo habitará com o cordeiro/, o leopardo deitar-se-á com o cabrito,/ o bezerro e o leãozinho andarão juntos,/ e um menino pequeno os conduzirá.// A vaca e o urso pastarão juntos,/ juntas se deitarão as suas crias,/ o leão comerá feno com o boi,/ e a criança de peito brincará com a víbora» (Isaías 11,6-8).

5. Avista-se daqui o Menino de Belém. Um paz a perder de vista, sem princípio e sem fim. Um mundo novo governado por um menino pequeno. Vê-se bem que não se parece nada com o nosso, cheio de raivas e de ódios, invejas, mentiras, manhas, astúcias, violências e guerras. Nenhum menino poderia governar um mundo assim.

6. Contra este mundo empedernido e embrutecido embate a ternura do Menino de Belém. Entenda-se bem: não é o menino que está errado; somos nós que estamos completamente errados. É por isso que somos convidados à conversão.

 

António Couto