ENGENHARIA DIVINA


 

1. «Tendo João ouvido na prisão as obras de Cristo, enviou os seus discípulos, e disse-lhe: “És TU Aquele-que-vem, ou esperamos outro?” E respondendo, Jesus disse-lhes: “INDO (poreuthéntes), ANUNCIAI (apaggélô) a João o que ouvis e vedes: Os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem e os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”» (Mateus 11,2-5).

 2. João Baptista não tem dúvidas de que Jesus é o Cristo, o Messias esperado. Se não tem dúvidas, então por que pergunta? Pergunta ou manda perguntar para dar a Jesus a oportunidade de se auto-apresentar. É que João Baptista é o velho: «Todos os profetas e a Lei profetizaram até João» (Mateus 11,13). E Lucas acrescenta: «Daí para a frente é evangelizar o Reino de Deus» (Lucas 16,16). João Baptista chegou ao limiar do Novo Testamento, e indicou em Jesus o Messias. Indica-o, mas não o sabe dizer, como o velho não sabe dizer o novo. O novo é Jesus, o Cristo. E porque não o sabe dizer, pede a Jesus que seja ele a dizer-se. A pergunta de João é um sinal de sabedoria.

3. E a resposta de Jesus, acima transcrita, é clara, mas mais performativa do que informativa. De acordo com este belo e transformante dizer de Jesus, é o caudal da evangelização que chega até João. Que o mesmo é dizer: João é evangelizado! Ele é o primeiro «pobre», perseguido pelos poderosos, e, por esse motivo, metido na prisão de Maqueronte. João denunciou abertamente os erros de Herodes Antipas, e este meteu-o na prisão. João não era um «cão mudo» (Isaías 56,10), embriagado à beira da estrada. No escuro das paredes da prisão de Maqueronte, João recebe a «boa notícia» que abre os seus olhos. Permanecendo embora no escuro cárcere, João Baptista recebe a vista de Jesus através da boa notícia que os seus discípulos lhe transmitem: ele é o primeiro «cego» que recebe a vista, o primeiro «pobre» que é evangelizado!

4. Em contraponto com o Messias anunciado por João Baptista, que vem para julgar já e em força em Jerusalém, empunhando o machado (ver Mateus 3,10) e a pá de joeirar (Mateus 3,12), Jesus instala-se na Galileia, como Luz das Nações (Mateus 4,12-16, cumprindo Isaías 8,23-9,1); é lá que recebe os discípulos de João e de lá os envia de volta para João, como testemunhas de um mundo novo, frágil e feliz, inclusivo e não exclusivo (veja-se a predilecção de Jesus pelos pobres, doentes e pagãos), que está a nascer, e em que Jesus se diz a si mesmo recorrendo a Isaías 29,18-19; 35,5-6 e 61,1.

5. «Orvalho de luz» (Isaías 26,19) ou de lume, palha incendiada, vida nova a rebentar dos quatro cantos do nosso mundo inerte, em que os vivos quase já não chegam para sepultar os mortos (Sabedoria 18,12). Vozes de alegria que abrem olhos engessados, rompem ouvidos rombos entupidos por mato e por silvas, levantam paralíticos que saltam como filhotes de gazela, desatam línguas de mudos e nós cegos que asfixiam corações! Tantos caminhos que se abrem para os deserdados que não têm caminhos, nem luz, nem música de dança para ouvir. Mais do que caminhos, são passadeiras floridas, jardins e avenidas (Sabedoria 19,3), tanto sonho, tanta água, tanta luz a irromper pelo deserto, oh Isaías 35,1-6!

6. A avenida é no deserto, engenharia divina, que transporta os seus filhos queridos da escuridão da Babilónia para a luz em flor de Jerusalém. «Ele mesmo, Deus, andará por essa estrada» (Isaías 35,8), esse caminho, essa avenida. Estrada santa, passadeira de luz e de sentido, engenharia divina!

7. Arrisca um passo nessa estrada divina, nessa estrada de luz e de graça, meu irmão do Advento. Encontrarás com certeza alguém que te levará até Belém. É importante que essa estrada de Amor, Perdão, Bondade, Justiça e Paz chegue à tua porta, à tua casa, ao teu coração. Do coração de Deus ao teu coração. Do teu coração ao coração do teu irmão.

8. Vê-se bem que não é obra nossa. É engenharia de Deus a inundar este Domingo da Alegria!

António Couto

3 respostas a ENGENHARIA DIVINA

  1. agraciada diz:

    Sorriso que se rasga ao ver Jesus dizer-se!
    Pétala que se abre alegremente ao Sol para absorver toda a sua luz e encantar com o brilho que recebe!
    Ave que interrompe o seu cantar, para escutar a melodiosa resposta divina que realiza o que anuncia!
    Plantinha frágil e feliz porque alegremente cuidada pelo SENHOR-QUE-VEM regar com a sua chuva.

  2. Dulce diz:

    “Do coração de Deus ao teu coração. Do teu coração ao coração do teu irmão”

    D. António, Olá.
    Volto sempre com a mesma alegria às Suas palavras que são sempre motivo de reflexão.
    E hoje não foi excepção.

    Saibamos pois acolher neste tempo a festa da vida, da humildade, do amor, da dádiva ao outro.

    E estando sempre em tempo e este sendo-o um tempo tão próprio a uma reflexão, de reconhecimento da nossa tão grande fragilidade, importa renovarmo-nos pela partilha e pelos afectos, no que verdadeiramente importa vivamos nesta estrada que vamos construindo e simultâneamente desejando, cimentando-a com o amor, o perdão, a bondade, a Paz e a Justiça…

    É um caminhar sem retorno, é um caminhar de verdade e de esperança. Façamo-lo com muita alegria..!

    D. António, Obrigado.
    Num abraço amigo desejo-lhe uma semana de muita Paz.

    Dulce

  3. CP diz:

    É verdade verdinha, sim, D. António! Ele é o Caminho, Ele é o Lugar… o Lugar dos sem lugar!! Aqueles que são rejeitados pelos filhos de homem encontram um lugar aconchegado no Seu Coração, onde Ele nos sussurra palavras doces – que não precisam de açúcar, pois são naturalmente doces, – que nos incendeiam o Espírito e com aquela Sua Palavra que lavra rasga sulcos na nossa Vida…

    A sua proposta/convite é arrojada: ARRISCAR dar um passo naquela estrada escura… mas se deveras «tropeçarei» no Guia está bem, vou ATREVER-ME a andar, como uma espécie de radiestesista (aquele que, com uma varinha de madeira, em Y, descobre os veios de água que correm no subsolo)… mas com uma sinestesia muito especial: só a sede iluminará – me poderá iluminar! – o meu caminho para a Fonte!!

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