EM BICOS DE PÉS, EM SONHOS, EM SILÊNCIO


 

1. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32)-  nunca aparece em Marcos; encontra-se uma só vez em Lucas (1,75) – e traduz o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade a esse plano. Neste Evangelho, os discípulos nunca são declarados «justos», mas são chamados à «justiça», a andar no «caminho da justiça», auto-destituindo-se, pondo de lado os seus projectos, e sabendo sempre dizer SIM a Deus.

 2. Aí está, então, diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade, em Hi-Fi, com Deus. É assim que, em bicos de pés, no limiar do silêncio, passa discretamente da cena «pública» para o «segredo» (Mateus 1,19). Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, em um sonho (Mateus 1,20), que põe José a par dos seus planos que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José.

3. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!) lembra o outro José, o homem dos sonhos (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas?!). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egipto. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime.

4. A missão paternal de José fica clara no facto de ser José a dar o nome ao filho que vai nascer de Maria. O nome do menino será Jesus, que surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (Mateus 1,21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem fim, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

5. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária.

6. Emanuel, Deus connosco. Mateus faz aqui uma citação de Isaías 7,14, que, por graça, também hoje é objecto de leitura para nós. Mas Mateus faz uma alteração teológica fundamental. Isaías dizia: «E chamará o nome dele Emanuel». Mateus altera o verbo e escreve assim: «E chamarão o nome dele Emanuel». Com esta mudança do verbo do singular para o plural, Mateus faz de Jesus, não apenas o sinal de salvação dado a um povo, mas sinal de salvação para todos os povos!

7. Vem, Senhor Jesus. Só um amor como o teu transformará este mundo e salvará o nosso coração engessado! O «justo» José pode ensinar-nos como te ensinou a andar, menino, a dar os primeiros passos, e também como tu, menino, lhe ensinaste a ele a andar no «caminho da justiça».

António Couto

3 respostas a EM BICOS DE PÉS, EM SONHOS, EM SILÊNCIO

  1. E.Coelho diz:

    Olá,
    Em jeito de subsídio…

  2. E.Coelho diz:

    Ei!

    O Natal está aí, mesmo à minha frente.
    E que fazemos? É mais um dia atarefado (Marta e Maria – quem escolheu a melhor parte?), precedido de muitos dias atarefados. Com as coisas, mais do que com as pessoas; com as “prendas”, mais do que com os “presentes”… mais do que com “O” “Presente”.
    Vemo-nos uns aos outros e até desejamos “Bom Natal”…, mas nem pensamos no que estamos a dizer, tal é a nossa pressa de fazer tudo, de ter tudo, de que nada falte… de que nada NOS falte.
    É assim que, querendo fazer do Natal a época mais feliz do ano fazemos dele a época mais triste do ano.
    Porque na ânsia de não esquecer ninguém, esquecemos sempre Alguém. Esquecemos o homenageado, o “aniversariante”. E quando por uma feliz coincidência nos recordamos d’Ele, é apenas de passagem, numa olhadela fugaz para o presépio (de que admiramos as figuras e a arte de quem o construiu), ou numa rápida passagem pelas celebrações, aonde até beijamos o menino, sem, de facto, O beijarmos.
    É triste o Natal, apesar de toda a alegria que é propagandeada.
    E o Menino continua só! Sem a nossa companhia, … sem a minha atenção! Simplesmente porque eu passo ao lado sem olhar, para não ver.

    E. Coelho

  3. CP diz:

    Jesus rasga os céus e desce, derretendo os montes com a sua presença.

    Chove (‘rorate’) sobre a Humanidade, ó Redentor, neste Natal e em todos os dias do ano que se aproxima, tornando-os dias de Natal. Tornando Natal cada «coração engessado».

    Ao falar de ‘menino’, D. António, lembrei da história d’ «A Árvore e o Menino». À medida que o Menino cresce, crescem as suas exigências para com a Árvore. Esta dá-se sempre, sangrando com alegria, por ser útil ao seu Menino. O Menino, já velho e cansado de viver, desabafo com Árvore que quer descansar. Não sabia este que a Árvore ainda o podia ajudar. Tendo-lhe já dado, anteriormente, ao longo do tempo, os seus frutos (para ele vender), os seus ramos (para ele construir uma casa) e o seu tronco (para ele construir um barco e viajar), restava-lhe um cepo. «Vem e senta-te, meu Menino».

    Deus é assim: DISPONÍVEL e PRESENTE.

    Uma saudação fraterna, D. António, coração com coração, e uma bênção para os seus propósitos.

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