FAZER A PALAVRA COM O CORAÇÃO, A MENTE, AS MÃOS


 

1. Desde o Domingo IV do Tempo Comum que temos andado a ler atentamente, em alta frequência, nas alturas, o Sermão proferido por Jesus na Montanha, e que nos é oferecido no Evangelho de Mateus 5,1-7,29. Neste Domingo IX do Tempo Comum, terminamos essa leitura com a passagem de Mateus 7,21-27. Sem equívocos, no final deste belíssimo Sermão da Montanha, Jesus declara, nas alturas, que o que conta é o nosso empenhamento concreto em «ouvir e FAZER estas minhas Palavras» (Mateus 7,24 e 26), atitude posta em paralelo com «FAZER a vontade do meu Pai que está nos Céus» (Mateus 7,21). E, em contraponto, declara que a autenticidade da fé não é verificável ou mensurável pelo entusiasmo carismátíco («Senhor, Senhor»), nem sequer pelo tom excepcional da nossa religiosidade («profetizar»), nem tão-pouco pela efervescência exterior e triunfalista («expulsar demónios e fazer milagres»), mas apenas pelo nosso empenhamento vital em FAZER estas minhas Palavras. Com as mãos, a mente, o coração.

 2. É este o único caminho para nos tornamos verdadeiros familiares de Jesus, enxertando na d’Ele a nossa vida: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam e FAZEM a Palavra de Deus» (Lucas 8,21). A Palavra não é apenas para ouvir. É para FAZER. FAZER é a chave do Reino do Céus. Há quem pense que o cristianismo se reduz a meros hábitos ou rotinas mentais e culturais, verniz social, repetição de fórmulas cansadas, vistosas cerimónias, amontoados de normas, formas e tradições. Vivendo no meio deste verniz, dizem muitos, «não podemos não nos dizer cristãos». Mas Jesus lembra-nos hoje que quem vive só de ouvido, ou à base de sentimentalismos ondulantes, instáveis e vazios, ou se limita a caminhar sobre a areia movediça das modas e opiniões correntes, é um construtor insensato. Virão as chuvas, melhor, a tempestade, que é o julgamento de Deus, e todo se desmoronará. Ao contrário, diz Jesus, o construtor sábio é o que constrói a sua vida sobre a Rocha. A Rocha é Deus.

 3. Na verdade, o termo hebraico normal para dizer «rocha», «rochedo», «pedra firme», é tsûr ou sela‘, que designa também Deus no AT por 33 vezes, duas delas no Salmo Responsorial de hoje, o Salmo 31(30). Mas o hebraico também conhece o termo kef, aramaico kêfa’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e protecção a uma vida nova. Esta segunda cascata de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaf, palma da mão; kef, rochedo esburacado (grutas); kêfa’ (aramaico), rochedo esburacado; kêfãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado a Pedro (Jo 1,42), única vez nos Evangelhos; kîpah, folha de palmeira, e solidéu de veludo ou tricotado com que os judeus cobrem a cabeça, assinalando a protecção de Deus; kafar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão, propiciação, que aparece na leitura de hoje da Carta aos Romanos 3,25, aplicado a Jesus Cristo. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. O termo «alcofa» é um deles.

 4. O texto do Deuteronómio11,18.26-28.32, que hoje lemos lembra-nos, com particular intensidade, que devemos gravar a Palavra de Deus no coração, atá-la às nossas mãos, marcar com ela a nossa fronte. É a nossa ocupação, orientação, exultação.

 5. Deus fiel, fiável, Sim irrevogável, matriz fidedigna, maternal amor preveniente, permanente, paciente, palavra primeira e confidente, providente, eficiente, a dizer-se sempre e para sempre dita, rochedo firme, abrigo seguro, alcofa para o nascituro, luz no escuro, amor forte sem medo da morte e do futuro. Deus fiel e confidente, fala, que o teu servo escuta atentamente. Nada do que dizes cairá por terra. A tua palavra à minha mesa, minha habitação, minha alegria, minha exultação, energia do meu coração, luz que me guia e que me alumia. Todo o dia. A minha luz é reflexa, a minha palavra é lalação, de ti decorre, para ti corre a minha vida, dita, dada, recebida e oferecida.

 António Couto

3 respostas a FAZER A PALAVRA COM O CORAÇÃO, A MENTE, AS MÃOS

  1. Paula Fernandes diz:

    Que terna e bela imagem, este Menino aconchegado na palma de Uma Mão…

    Que bela definição, extraordinária proclamação, estonteante declaração de amor ao nosso Deus, que tudo dá e nada nos pede…

    Rocha fundante, morada eterna, esperança de cada dia, porto seguro, Amor Puro.

    Obrigada meu Deus, por fazeres com que sinta meu nome gravado na palma da tua Mão.

  2. FM diz:

    É sempre bom “ouvir” uma perspectiva nova da Palavra de Deus… e para quem gosta de aprender, aqui encontra sempre boas lições. Obrigada! E, por favor… nunca se canse ;)

  3. CP diz:

    Tua mão estendida
    Aberta em concha côncava
    Sobre nós
    Dá-nos guarida
    Das intempéries do Mundo
    Como quem nos afaga
    Junto a um Coração
    A crepitar de Amor.

    E tão só pedes
    para FAZER Tuas PALAVRAS
    (com mãos, mente e coração)…
    Mas, sabes
    Por vezes o «encardido» não deixa margem de manobra
    Leva-nos com ele…
    Sabes como sou…

    Mantém meu espírito aberto
    Coração sempre alerta
    Fazedor de caminhos
    Capaz de me reconstruir
    Após cada derrocada
    Sedento da Tua Luz

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