JESUS, O PAI E NÓS SEMPRE EM REDE: MUNDO NOVO À VISTA


1. Os nomes JESUS e PAI juntam-se para entretecer uma rede finíssima que atravessa e extravasa o corpo do inteiro IV Evangelho, onde se ouvem respectivamente por 237 vezes e 124 vezes. Entenda-se: a vida de JESUS está completamente nas mãos do PAI, dele provém e para ele se orienta totalmente, de modo a JESUS poder dizer: «EU e o PAI somos um (hén)» (João 10,30) – não para indicar uma só pessoa, mas uma só realidade, bem traduzida no modo neutro, e não masculino, do numeral um (hén) – ou: «Quem ME vê, vê o PAI» (João 14,9). Só no Evangelho deste Domingo V da Páscoa (João 14,1-12), pode contar-se o mome PAI por 12 vezes!

2. Total orientação da sua vida para o PAI. Diz, na verdade, Jesus para os seus discípulos: «Para onde EU vou, vós conheceis o caminho» (João 14,4), mudando logo o lugar pela pessoa: «EU para o PAI vou» (João 14,12). Pelo meio, cruza-se a incompreensão ou incompetência expressa de dois dos seus discípulos: Tomé e Filipe, que o mesmo é dizer, a nossa incompreensão e incompetência. Tomé, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»], não sabe para onde vai JESUS; logo, não sabe o caminho (João 14,5), e Filipe recebe de Jesus uma repreensão que também nos atinge, pois é proferida no plural, e soa assim: «Há tanto tempo estou convosco, e não ME conheces, Filipe?» (João 14,9).

3. Tomé é bem Gémeo nosso, nosso irmão gémeo, muito parecido connosco, nesta passagem e em muitas outras. E Filipe [«Amigo dos cavalos»], único nome verdadeiramente grego, isto é, pagão, entre os Apóstolos de Jesus, também se manifesta muito semelhante a nós aqui e em outros lugares, como, por exemplo, João 6,5-7, onde é literalmente posto à prova por Jesus, e chumba claramente no teste. Na verdade, Jesus pergunta-lhe, para o pôr à prova: «Filipe, onde compraremos  pão para que eles comam» (João 6,5). E Filipe põe-se a contar o dinheiro, dizendo onde põe a sua confiança, e responde que não há nada a fazer, porque não há dinheiro (João 6,7). Filipe,talvez como nós, ainda não sabia que o onde a que Jesus se refere, não é o shopping, mas é o PAI. Ainda não sabia ou conhecia Isaías 55,1-2, em que Deus nos convida a comprar a Ele pão, sem gastar qualquer dinheiro.

4. O Jesus que anima este diálogo connosco é verdadeiramente o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA (João 14,6). Não é um caminho de terra ou uma estrada de alcatrão. É um CAMINHO pessoal, uma maneira de viver, com entranhas e coração. Não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa. Não é uma coisa. A VERDADE bíblica [hebraico ‘emet] não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (João 18,38), mas à pergunta inédita: «QUEM é a VERDADE?». De facto, ‘emet deriva de ‘aman, e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se aprende. É aquela VERDADE que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar. A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE. Não engana. É assim que JESUS é também a VIDA toda recebida (do PAI), toda dada a nós.

5. É assim também, maternalmente, que se entende a jovem e bela comunidade cristã nascente, atenta, outra vez como uma mãe, aos seus filhos que necessitam de assistência (Actos dos Apóstolos 6,1-7). Como é belo ver crescer, e cresce mesmo, uma comunidade de rosto maternal, de braços sempre abertos para acolher e abraçar, de mãos sempre abertas para receber, dar e acariciar. Tudo tão ao jeito e ao estilo de Jesus.

6. É claro, diz São Pedro (1 Pedro 2,4-9), que Jesus é a pedra viva, base de um novo tipo de edifício, que nenhum arquitecto sabe desenhar ou projectar. É, na verdade, um edifício espiritual, feito de pedras vivas (!). E nós somos essas pedras vivas, esse Templo espiritual, que tem em Cristo a sua referência permanente. Um Templo novo e inédito com sangue, entranhas, mãos e coração.

António Couto

3 respostas a JESUS, O PAI E NÓS SEMPRE EM REDE: MUNDO NOVO À VISTA

  1. Joaquim diz:

    Muito bom dia, D. António!

    Eis-me aqui, uma vez mais, sentado a esta “mesa de palavras” onde sentado e em sentido silêncio me preparo para caminhar com Jesus na Verdade e na Vida.

    Mais um pontinho:
    Ponto 4: maneira

    Um grande abraço em Cristo.

  2. CP diz:

    O Pai é cá um modernaço, sempre ‘online’, sempre a trabalhar em um networking… REAL (moderno-moderno, mas virtualidades a parte, né?)!! Sempre a fazer-nos um com Ele – ‘Sint Unum’, – num «nó da amizade» fraternal e indivisível.

    Por vezes, nós nos armamos em Jesus, passando atestados «tomé-filipenses» (isto é, de incopetencência) a torto e a direito àqueles que nos circundam – há uma necessidade mórbida, de alguns, de rotular as pessoas, carimbá-las como seres microscópicos, para eles próprios se sentirem de gente.

    «É aquela VERDADE que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe» – uma frase à boa maneira de Sta. Teresa de Lisieux, que nos explica como ser criança (no sentido bíblico): o abandono/infância espiritual. Sempre que estivermos na «fossa», nada como erguer os braços e oferecer-nos como Instrumento/Projecto… para a Eternidade, onde há moradas para a genuinidade de cada um de nós.

    N.B. – No §4, 4ª linha -> «maneira»

  3. CP diz:

    Um acrescento

    Falando de «Pedras (Vivas)», partilho um comentário de Mário Moutinho (director do FITEI), publicado no jornal gratuíto Destak de Segunda-feira (www.destak.pt/docs/1922/porto.pdf , pág. 02, à esquerda), sobre os Portuenses: «São como as pedras da cidade. Às vezes cinzentos e duros, mas verdadeiros e firmes». Qualquer semelhança com as «Pedras» cristãs será mera coincidência?? :-)

    Quanto ao bullying (que arrebentou ontem mais um caso!), os ditos de «Bárbaros» ficam chocados com o comportamento deste «Povo de brandos costumes»… Soa-me estranho… há algo que não está bem (não dá a cara com a careta)… Uma coisa tenho certeza, não dá para ficar de braços cruzados e assistir, pávidos e serenos, com o balde de pipocas sobre as pernas, a espectáculos destes (e mesas redondas ou quadradas é estar de braços cruzados)!! Temos que ser calhaus vivos ou continuar a ser tíbios (para ser vomitados por Ele)???

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