O PÃO NÃO SE MATA!

Julho 30, 2011

 

1. O Evangelho deste Domingo XVIII do Tempo Comum (Mateus 14,13-21) é conhecido como a primeira «multiplicação dos pães», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão ou condivisão.

 2. Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre de comer para si mesmo (Mateus 14,15). O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

 
Jesus
Discípulos
Misericórdia
Acolher
Curar
Dar
Condividir
Insensibilidade
Excluir
Mandar embora
Comprar
Cada um para si
 

3. Vistas bem as coisas, o comportamento destes discípulos, e, se calhar, o nosso também, opõe-se, ponto por ponto, ao comportamento de Jesus. A celebração da Eucaristia, com Jesus sempre no meio de nós, reclama que mudemos tantas maneiras de fazer!

 4. O narrador termina o episódio, informando-nos que aquela multidão de pessoas ficou saciada, e que ainda «sobraram» doze cestos! (Mateus 14,20). Note-se que o verbo grego usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando inadequadas e ultrapassadas todas as nossas pequenas medidas! É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos, símbolo da plenitude transbordante e inesgotável.

 5. De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «condivisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»).

 6. Em perfeita sintonia com o Evangelho de hoje, a lição de Isaías 55,1-3 é fantástica. Um Deus bom e Pai convida os seus filhos sedentos e famintos a sentar-se à sua mesa e a comprar sem dinheiro o bom alimento. Note-se bem o oxímoro (comprar sem dinheiro) que nos deve (des)orientar sempre! Enquanto não entendermos isto, reprovaremos sempre no teste que Jesus fez a Filipe e faz a nós hoje também: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). Era um teste, diz-nos o narrador (João 6,6), e Filipe pôs-se a contar o dinheiro e a pensar no shopping! (João 6,7). Pelos vistos, não conhecia este texto imenso texto de Isaías.

 7. O pão dado, partido, condividido é um dom de Deus («Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!») (Isaías 55,2), faz nascer novas maneiras de viver, alarga a tenda e o coração, gera fraternidade e comunhão. Também por isso, ainda hoje, os beduínos do deserto não cortam o pão com a faca, e explicam que «o pão não se mata!».

 8. De facto, quando matamos este pão, o que nos resta?

 António Couto


VAI, VENDE, DÁ, VEM E SEGUE-ME!

Julho 23, 2011

1. Pelo terceiro Domingo consecutivo, a Igreja Una e Santa escuta com amor, da boca do Senhor Jesus, as belíssimas parábolas do Reino dos Céus, guardadas em Mateus 13. Neste Domingo XVII, é-nos oferecida uma nova trilogia de parábolas significativas: a parábola do tesouro escondido no campo (Mateus 13,44), a parábola da pérola (Mateus 13,45-46) e a parábola da rede (Mateus 13,47-50).

2. As duas primeiras pequeninas parábolas desta trilogia, a do tesouro escondido no campo e a da pérola preciosíssima, constituem dois fortíssimos acenos a deixar tudo por amor, para, por um amor maior, seguir Jesus, que é o Reino-de-Deus em Pessoa, a Autobasileía, no dizer certeiro e contundente de Orígenes (185-254). É Ele o tesouro escondido, é Ele a pérola preciosíssima. Para o seguir, é mesmo necessário deixar tudo (Lucas 14,33).

3. Toda a atenção e empenho, portanto, que o tesouro de Deus não se dá em qualquer campo. São, por isso, necessários novos mapas, novas pautas, novas coordenadas, novas estradas, para se poder procurar e saber encontrar esse tesouro escondido. É mesmo necessário submeter a nossa vida àquela intensa rajada de verbos: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!» (Mateus 19,21).

4. A parábola da rede é a que ocupa mais espaço no texto: quatro versículos. Mais do que as duas anteriores juntas. Servindo-se agora de uma imagem tirada do mundo piscatório, Jesus diz que o Reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes, requerendo depois que os pescadores se sentem na praia para fazer a destrinça entre os peixes bons e os que não prestam. Naturalmente, guardam os bons e ditam fora os que não prestam. A destrinça entre peixes bons e maus não se deve à qualidade ou ao tamanho. Trata-se da distinção entre o puro e o impuro, o que é considerado kasher e não-kasher. Sobre o assunto, diz o Livro do Levítico, que são puros (kasher) e se podem comer os peixes com barbatanas e escamas (Levítico 11,9), tendo de se deitar fora, como impuros (não-kasher), os peixes sem barbatanas e escamas (Levítico 11-10-12).

5. E tal como na parábola do trigo e da cizânia (ver Domingo XVI), também aqui Jesus difere para o fim do mundo a destrinça entre maus e justos, efectuada ainda assim, não por nós, mas pelos Anjos. Outra vez pausa e bemol na partitura!

6. Outra sabedoria, outro saber, outro sabor. Salomão afinado, avant la lettre, pelo Evangelho. É assim que o Primeiro Livro dos Reis (3,5-12) nos mostra hoje Salomão a pedir a Deus, não coisas nem a derrota dos inimigos, mas simplesmente um coração sensível, sensato e inteligente, capaz de escutar e sintonizar com a beleza da Palavra de Deus, muito mais valiosa do que o ouro, como cantamos hoje com o Salmo 119(118).

7. Na Carta aos Romanos (8,28-30), S. Paulo conta, aos nossos olhos de crianças deslumbradas, a história verdadeira que o amor de Deus já fez acontecer na nossa vida: já fomos chamados, conhecidos, predestinados, justificados e glorificados por Deus! Por isso, damos graças a Deus!

António Couto


ELEVA PARA O CÉU O TEU CORAÇÃO

Julho 16, 2011

1. O Capítulo 13 do Evangelho de Mateus constitui o centro geográfico e teológico deste Evangelho, com as suas sete parábolas do Reino de Deus, postas na boca de Jesus. É o chamado «Discurso das Parábolas do Reino», o terceiro dos cinco grandes Discursos de Jesus neste Evangelho. Neste Domingo XVI do Tempo Comum continuamos a ouvir este Discurso de Jesus iniciado no Domingo passado, com a primeira parábola, a parábola da semente ou do semeador (Mateus 13,1-23). Hoje ouviremos as três parábolas seguintes – do trigo e da cizânia (13,24-30), do grão de mostarda (13,31-32) e do fermento (13,33) –, a que se segue, a pedido dos discípulos, a explicação de Jesus acerca da parábola do trigo e da cizânia (Mateus 13,36-43).

 2. Tal como a parábola da semente, também a parábola do trigo e da cizânia, que crescem juntos no campo, e que é exclusiva de Mateus, é grandemente ilustrativa e fortemente impressiva. O termo «cizânia» deriva do hebraico zunîm, que provém com certeza do verbo zanah [= prostituir-se]. A nossa impaciência em esperar por mais tempo o Reino de Deus que queremos que venha depressa e que tudo clarifique e resolva já, leva-nos, na pessoa dos servos da parábola, a propor ao proprietário do campo: «Queres, então, que vamos arrancá-la?» (Mateus 13,28b). E a resposta inesperada do proprietário: «Deixai-os crescer ambos juntos até à colheita» (Mateus 13,30a), deixa-nos desconcertados. E mais desconcertados ficamos, quando vimos a saber, na explicação da parábola, que «a colheita é o fim do mundo» (Mateus 13,39b), e que só então será queimada a cizânia (Mateus 13,40) e os que praticam a iniquidade (Mateus 13,42).

 3. De notar que, tal como os servos da parábola, e nós com eles, também João Baptista era partidário de um julgamento já e em força, levado a efeito por um Messias justiceiro, sem dó nem piedade. De facto, apareceu a dizer:

 «Já o machado está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Mateus 3,10).

«A pá de joeirar está na sua mão: ele purificará completamente a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; a palha, porém, queimá-la-á com fogo inextinguível» (Mateus 3,12).

 4. A mesma linguagem, mas não as mesmas ideias, mostram o contraponto claro e inequívoco do proprietário do campo, e, claro, de Jesus:

 «Deixai “crescer juntamente” (synauxánomai) ambos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: “Arrancai primeiro a cizânia, e juntai-a em feixes, para ser queimada; quanto ao trigo, recolhei-o no meu celeiro”» (Mateus 13,30).

 Como se vê, próprio de Jesus, não é a intolerância, o já e em força, mas a mansidão, a compreensão, a convivência, a tolerância e a distensão.

 5. Espantoso é ainda o milagre do grão de mostarda. Pequenino. Mas dá corpo a uma árvore grande, carregada de passarinhos que dela fazem a sua casa, e a enchem de música e de alegria. Assim é, para espanto nosso, o Reino dos Céus. E o fermento, pequenino, que leveda 60 quilos de farinha! Tanta farinha dá para alimentar, não uma família da Palestina, mas umas 150 pessoas. É do banquete do Reino dos Céus que se trata! E aquele «até que tudo fique levedado» (Mateus 13,33) traz a Eucaristia para o quotidiano da vida de uma mulher e mãe de família da Palestina, pois lembra o «até que Ele venha» da celebração da Ceia do Senhor (1 Coríntios 11,26).

 6. Quando a nossa força é a norma que nos rege e nos domina, como afirmam os ímpios no Livro da Sabedoria (2,11), então já não somos livres, mas escravos da força. Estamos, de resto, habituados a ver como é difícil dominar a força: basta ver as forças militares que os impérios deste mundo põem no terreno, e que depois, mesmo querendo, torna-se difícil voltar atrás! Mas o nosso Deus é apresentado como aquele que domina a força (Sabedoria 12,18). Assim também o Espírito não grita, mas reza em nós e por nós, suavemente, com «gemidos sem palavras» (stenagmoîs alalêtois) (Romanos 8,26).

 7. Enfim, um grande Salmo (86/85) toma hoje conta de nós, deixando a ressoar em nós as notas da inteira liturgia, desde logo os atributos do nosso Deus, como um Deus de «misericórdia e de graça» (rahûm wehanûn) (Salmo 86(85),15, como repetidamente cantaremos no refrão. Deixo aqui um pedacinho do comentário apaixonado de Santo Agostinho: «Sobre a terra, o coração não se corrompe, se o elevarmos para Deus. Se tens grão, vais guardá-lo no celeiro, para que não se estrague. E como poderás, então, deixar apodrecer o teu coração, deixando-o na terra? Leva o teu grão para um plano superior, e eleva o teu coração para o céu!».

 8. Talvez venham abrigar-se nele os pássaros do céu! Talvez haja festa em tua casa!

 António Couto


PARÁBOLA DE UM GRÃO DE TRIGO

Julho 9, 2011

1. Como a chuva rega o chão e faz germinar o pão, assim a Palavra de Deus rega o coração e faz germinar a conversão, cumprindo assim a sua missão. É a lição de Deus em Isaías 55,10-11, que, por graça, ouviremos neste Domingo XV do Tempo Comum.

 2. Brotará então dos nossos lábios a bela canção do Salmo 65(64), em que o nosso coração se veste de festa e de primavera para enaltecer as maravilhas da criação, também ela com rosto, e com rosto tenso, completamente voltado para Deus, porque tudo recebe de Deus, porque se recebe de Deus. A criação com rosto, e com rosto completamente tendido para Deus, quase saindo fora do pescoço, tal a intensidade da espera, é uma imagem cunhada por Paulo com dois belíssimos termos gregos, ambos utilizados na lição deste Domingo da Carta aos Romanos (8,18-23), de que aqui transcrevemos os versículos 18 e 19:

 «Penso, de facto, que os sofrimentos do tempo presente não têm medida de comparação com a glória que está para ser revelada (apokalyphthênai) em nós. Com efeito, O ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) da criação (tês ktíseos) a revelação (apokálypsis) dos filhos de Deus ESPERA em tensão RECEBER (apekdéchetai: apò + ek + déchomai)» (Romanos 8,18-19).

 3. O primeiro termo é apokaradokía, de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar/olhar atentamente], que só Paulo usa no Novo Testamento na Carta aos Romanos 8,19 e na Carta aos Filipenses 1,20, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo. Traduz a atitude de quem se coloca em bicos de pés, alongando o pescoço o mais que pode, com ânsia extrema e intensa de tentar ver o que ainda não se vê. Assim se apanha o «tique» da esperança!

 4. O segundo termo é o verbo apekdéchomai, de apò-ek-déchomai [= fora de + desde + receber], usado 8 vezes no Novo Testamento, 6 das quais em Paulo (Romanos 8,19.23.25; 1 Coríntios 1,7; Gálatas 5,5; Filipenses 3,20; ver também Hebreus 9,28; 1 Pedro 3,30), e desconhecido nos LXX, implica uma forte conotação de recepção, tensão para receber a salvação de Deus – viver de (ek) receber e de se receber (déchomai) de Deus (1 Coríntios 1,7), saindo de si (apó) para se orientar completamente para Deus, tensão para o dom, pois um dom não o podemos produzir com as nossas mãos; só o podemos receber de outras mãos. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude amante de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos bem que Alguém espera por nós. Espera, não vazia, mas grávida de realização e de confiança: «espera que contém a presença, pergunta que contém a resposta, esperança que contém o cumprimento» (Karl Barth).

 5. Este Domingo XV traz-nos também a graça de podermos começar a escutar o Discurso das Parábolas de Jesus, que preenche todo o Capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, e que constitui mesmo o centro deste Evangelho. Este Capítulo 13 é constituído por sete parábolas: da semente (13,1-23), do trigo e da cizânia (13,24-30), do grão de mostarda (13,31-32), do fermento (13,33), do tesouro escondido no campo (13,44), da pérola (13,45-46) e da rede (13,47-50). Ao contrário da nossa tendência para decisões rápidas, do nosso gosto de coisas claras e distintas, imponentes e concludentes, salta à vista a lentidão (semente e fermento), a espera, a paciência e a tolerância (semente, trigo e cizânia e rede), a pequenez (semente, grão de mostarda e fermento), a riqueza diferente, que não se pode trocar por nada (tesouro escondido e pérola).

 6. A chamada «parábola do semeador» ou «da semente» (Mateus 13,1-23), que ouvimos neste Domingo, segue o esquema «3 + 1» [caminho, terreno pedregoso, espinhos + terra boa], que é já, de per si, ilustrativo, pois nos obriga a esperar até ao fim para ver o correcto e lento percurso desde a sementeira [Novembro/Dezembro] até à colheita [Abril/Maio]. É mesmo dito, na parábola, pedagogicamente, que a semente que germina depressa seca depressa:

 «Outras, porém, caíram em terrenos pedregosos, onde não havia muita terra, e brotaram logo (euthéôs) por a terra não ter profundidade; mas, ao nascer o sol, foram queimadas, e, por não terem raiz, secaram» (13,5-6).

 A mesma pressa soa por duas vezes na explicação:

 «O semeado sobre os terrenos pedregosos é o que escuta a palavra e logo (euthýs) a recebe com alegria; não tem, porém, raiz em si mesmo. É inconstante. Quando surge uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, logo (euthýs) se escandaliza» (13,20-21).

 7. A semente é coisa bem pequenina. É o que há de mais pequeno. Mas, uma vez caída à terra, dará o grão e o pão. Caída à terra, morre para nascer de outra maneira. É a Paixão. Da semente à Paixão e ao Pão: é todo o processo de JESUS a passar diante dos nossos olhos atónitos. Portanto, se não entendemos a semente, o início do processo, como entenderemos o inteiro processo?

 8. Para a correcta compreensão das parábolas de Jesus, ou da parábola que é Jesus, importa ler atentamente a missão de Isaías, que, de resto, Jesus faz sua, citando-o. Trata-se de uma estranha missão, aparentemente votada ao fracasso. Transcrevemos:

 «Ele disse: “Vai e diz a este povo: escutai escutando, e não compreendereis; vede vendo, e não conhecereis. Engorda o coração deste povo, torna-lhe pesados os ouvidos, gruda-lhe os olhos, para que não veja com os seus olhos, e não oiça com os seus ouvidos, e não compreenda com o seu coração, e não se converta e não seja curado” (rapha’). E eu disse: “Até quando, Senhor?” Ele disse: “Até que fiquem desertas as cidades, sem habitantes, e as casas sem gente, e a terra deserta e desolada, e YHWH remova para longe a gente, e muita solidão no interior do país. E se ficar nele ainda um décimo, será por sua vez lançado ao fogo, como o carvalho e o terebinto que são abatidos, ficando lá apenas um toco (matstsebet). Semente santa (zera‘ qodesh) é esse toco (matstsebet)”» (Is 6,9-13).

 É esta a verdadeira parábola da palavra e do profeta e de Jesus. Só caindo à terra, como a semente, dará fruto (João 12,24).

 António Couto


O LIVRO QUE ME LÊ!

Julho 1, 2011

 

1. As poucas linhas do Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,46), pedra preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada (Marcos 4,38), onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente repousar. Nos lábios de Jesus, chama-se «Pai» este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura.

 2. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao Pai, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da sua oração [além desta vez, só no Getsémani: «Pai, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mt 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mt 27,46); «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)].

 3. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos». Esta intensa relação de amor e desvelo entre Jesus, o pequenino por excelência, e o Pai, salienta melhor a rejeição movida a Jesus pelas orgulhosas cidades costeiras do Mar da Galileia – Corazim, Betsaida e Cafarnaum – e que aparece relatada nos versículos imediatamente anteriores (Mateus 11,20-24), mas deixa igualmente à luz do dia a rejeição que os grandes lhe moverão até à Cruz. Atenção, porém, porque, nestas rejeições, são também as nossas rejeições que são já proclamadas sobre os telhados! Note-se, para espanto nosso, que rejeitar «um só» destes pequeninos com quem Jesus se confunde, é rejeitar o próprio Jesus, de acordo com o extraordinário dizer de Jesus: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45).

 4. É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes. Vem-me à memória uma velha história que circula na África Oriental, e que fala de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, escarneciam dela com dizeres do género: «Porquê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?» Mas a mulher seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único que me lê a mim!»

 5. Nenhum arrogante raciocínio conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. É o Pai que revela aos pequeninos «estas coisas escondidas» (Mateus 11,25). Escondidas como o tesouro escondido da parábola (Mateus 13,44). Escondidas como Jesus, que passa escondido na nossa frágil humanidade. Mas, atenção, que «nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,22).

 6. Mas Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Dá-se. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Apenas com Cristo. E Santo Agostinho lembra-nos que «o peso de Cristo é tão leve, que levanta, como o peso das asas para os passarinhos»

 7. Esta agenda de Jesus, que fica «connosco todos os dias» (Mateus 28,20), podemos vê-la diariamente na sua maneira feliz, ousada, pobre, despojada, humilde, fraternal, próxima e dedicada de viver, bem ao jeito do rei novo e fazedor de paz e felicidade, sonhado por Zacarias (9,9-10) no último quartel do século IV a. C., em claro contraponto com o esplendor militar dos cavalos e carros de combate de Alexandre Magno, que então atravessava a costa palestinense a caminho do Egipto. Da agenda de Jesus, faz parte indeclinável a completa orientação da sua vida filial para o Pai, abrindo a este mundo novos rumos e desafios imensos de fraternidade.

 8. Tempo de nos deleitarmos a contemplar e a rezar demoradamente, de acordo com a forma de compor de Maria (Lucas 2,19), a serva humilde, a expressiva oração do famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927): «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

 António Couto