O LIVRO QUE ME LÊ!


 

1. As poucas linhas do Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,46), pedra preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada (Marcos 4,38), onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente repousar. Nos lábios de Jesus, chama-se «Pai» este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura.

 2. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao Pai, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da sua oração [além desta vez, só no Getsémani: «Pai, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mt 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mt 27,46); «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)].

 3. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos». Esta intensa relação de amor e desvelo entre Jesus, o pequenino por excelência, e o Pai, salienta melhor a rejeição movida a Jesus pelas orgulhosas cidades costeiras do Mar da Galileia – Corazim, Betsaida e Cafarnaum – e que aparece relatada nos versículos imediatamente anteriores (Mateus 11,20-24), mas deixa igualmente à luz do dia a rejeição que os grandes lhe moverão até à Cruz. Atenção, porém, porque, nestas rejeições, são também as nossas rejeições que são já proclamadas sobre os telhados! Note-se, para espanto nosso, que rejeitar «um só» destes pequeninos com quem Jesus se confunde, é rejeitar o próprio Jesus, de acordo com o extraordinário dizer de Jesus: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45).

 4. É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes. Vem-me à memória uma velha história que circula na África Oriental, e que fala de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, escarneciam dela com dizeres do género: «Porquê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?» Mas a mulher seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único que me lê a mim!»

 5. Nenhum arrogante raciocínio conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. É o Pai que revela aos pequeninos «estas coisas escondidas» (Mateus 11,25). Escondidas como o tesouro escondido da parábola (Mateus 13,44). Escondidas como Jesus, que passa escondido na nossa frágil humanidade. Mas, atenção, que «nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,22).

 6. Mas Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Dá-se. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Apenas com Cristo. E Santo Agostinho lembra-nos que «o peso de Cristo é tão leve, que levanta, como o peso das asas para os passarinhos»

 7. Esta agenda de Jesus, que fica «connosco todos os dias» (Mateus 28,20), podemos vê-la diariamente na sua maneira feliz, ousada, pobre, despojada, humilde, fraternal, próxima e dedicada de viver, bem ao jeito do rei novo e fazedor de paz e felicidade, sonhado por Zacarias (9,9-10) no último quartel do século IV a. C., em claro contraponto com o esplendor militar dos cavalos e carros de combate de Alexandre Magno, que então atravessava a costa palestinense a caminho do Egipto. Da agenda de Jesus, faz parte indeclinável a completa orientação da sua vida filial para o Pai, abrindo a este mundo novos rumos e desafios imensos de fraternidade.

 8. Tempo de nos deleitarmos a contemplar e a rezar demoradamente, de acordo com a forma de compor de Maria (Lucas 2,19), a serva humilde, a expressiva oração do famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927): «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

 António Couto

4 respostas a O LIVRO QUE ME LÊ!

  1. Manuel diz:

    D. António,

    Muito obrigado pela bela meditação sobre a Palavra de Deus para este Domingo.
    As crianças pequeninas só podem como Jesus repousar no Coração do Pai!
    O exemplo da história daquela mulher da África Oriental é muito elucidativo.
    No Coração do Pai, creia-me muito unido a si.

    Manuel

  2. António Duarte diz:

    Excelente analogia. Obrigado

  3. Custódia da Costa Santos diz:

    Obrigada pela maneira como nos transmite a Palavra de Deus, que entra derectamente no coração! Que Deus o abençõe.

  4. Kylynn diz:

    Muito obrigado pela bela meditação sobre a Palavra de Deus para este Domingo.As crianças pequeninas só podem como Jesus repousar no Coração do Pai!O exemplo da história daquela mulher da África Oriental é muito elucidativo.No Coração do Pai, creia-me muito unido a si.
    +1

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